Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

No espírito de 68

No Verão de 1968 a minha mãe estava grávida de mim e São Francisco era a capital mundial da paz, do amor livre e do movimento hippie. Hoje, ainda se respira essa bolsa de ar libertina. Um misto de nostalgia com consciência ecológica e cívica.
2 de Março de 2008 às 00:00
Tracey, o homem de barba que parece um profeta andrajoso e que viaja comigo no autocarro há mais de mil quilómetros, aconselha-me o hostel Green Tortoise, na Broadway, e ajuda-me a encontrar táxi na Downtown São Francisco, às 02h30 da manhã.
Instalo-me no dormitório com dois beliches, de uma espécie de alojamento comum em quase todas as rotas percorridas por travellers e turistas de pé descalço. São casas grandes com quartos pequenos. Há casas de banho comuns, salas de convívio e de internet comuns, uma cozinha comum, programas colectivos do género “pipocas e filme”, “pipocas e música ao vivo”, “pipocas e jantar”.
Decorado no estilo hippie-new age desleixado, o Green Tortoise fica em North Beach, na confluência do Bairro Italiano com a Chinatown, zona escolhida pela beat generation - a geração americana de poetas andarilhos e boémios - para vagabundear e pavonear liberdade, transgressão, desalinhamento.
Nas ruas das imediações há pequenos restaurantes com ambientes cosmopolitas, bares, cafetarias, mercearias com comida “saudável”, galerias e a parafernália habitual de lojas, restaurantes, e pastelarias (com pastéis de nata) chinesas. Uma festa a que se juntam os neons coloridos de cabarets e clubes de strip.
É domingo e está a chover. Procurei na internet bilhetes de avião e alojamento no Hawai, mas em cima da hora é tudo caro. A australiana que está no meu quarto desaconselha-me. Odiou a plasticidade da paisagem, os preços, a falta de movida que há nesta altura do ano.
Olho para o céu a cuspir raios, chuva e trovões e sou tomada por uma daquelas depressões domingueiras. Ainda por cima, o meu amigo Hans e a mulher, Nancy, que ficaram de me visitar para me mostrarem a cidade, estão retidos pela neve em Humboldt, onde vivem, a 350 quilómetros de distância.
A noite anima-se na sala de convívio com a performance musical de um grupo de velhas glórias decadentes.
Animo-me eu também com os dois artistas de rua franceses, um faz malabarismos o outro é apenas parecido com D´Artagnan. Com eles está um mágico americano que se fartou da gravata e agora passa os dias na rua a fazer truques com cartas, moedas e palavras. Também não gostaram do Hawai, mas adoram Portugal e partilham comigo a admiração pelo beatnick de barbas brancas que, empenhando a alma pela banda decadente, fuma erva e toca clarinete.
O MAU TEMPO
Por causa da chuva, do frio húmido e de estar à espera, opto por fazer programas turísticos que Hans e Nancy certamente não planearam para mim. Como por exemplo, ir até ao ultraturístico Fishermen´s Whaldorf, onde além de ver as lojas, as famílias e os leões marinhos, como um belo caldo de mariscos, servido dentro de pão, a olhar para a baía e para a Ponte Golden Gate.
Em seguida apanho o barco para Alcatraz, a prisão de alta segurança empoleirada num rochedo no meio da baía, a que chamam “The Rock”. Está desactivada desde 1963, mas continua a ser alvo das fantasias populares, recebendo a visita de milhares de pessoas por dia. Seja porque serviu de “morada” a Al Capone, seja porque Clint Eastwood a mitificou em “Fuga de Alcatraz” - que relata a história verídica da única fuga concretizada nos 29 anos em que a prisão funcionou.
Durante esse tempo, 36 prisioneiros tentaram escapar, mas as águas geladas das correntes do norte e os tubarões obrigavam muitos deles a voltar para trás, outros foram simplesmente apanhados. E até na fuga de 1962, a do filme, pouco se sabe do destino dos três heróis. Nunca mais se ouviu falar deles.
Hans e Nancy chegam na terça à noite. Tínhamos saudades, já não nos víamos desde que Hans, alemão, passou em Lisboa a caminho do Mundial de Futebol da Alemanha. O dia acorda com sol e com um pequeno-almoço italiano. Divertimo-nos como colegiais em férias a atravessar a pé a Golden Gate. Hans vai-me contando histórias dos 20 anos que viveu com Nancy em São Francisco. Chegou em 1968 para o “verão do amor”, apaixonou-se por ela e pela cidade e nunca mais deixaram de se divertir. Têm quase 60 anos, dois filhos, uma casa na montanha e apoiam Barack Obama.
Vamos à rua dedicada a Cabrilho, o português que “descobriu” a Califórnia, para eu tirar uma fotografia e descansamos no topo de Twin Peaks.
Neste género de viagens convém não planear muito, porque quanto mais se planifica, menos se cumpre. Vem esta conversa a propósito do Hawai, onde estava planeado ir, dada a importância no contexto da diáspora portuguesa. Acontece que toda a gente me diz que mais vale ir a partir do Japão, onde deverei estar em meados de Novembro. Vou, não vou; vou, não vou: não vou. Por agora.
Para compensar, lanço-me no rasto dos “canacas”, nome pelo qual são conhecidos os portugueses que vieram do Hawai para São Francisco. A debandada lusitana das Ilhas Sandwich, como então eram conhecidas, aconteceu em meados do século XIX quando foi descoberto ouro na Califórnia. Mas antes disso chegou a haver cerca de 20 mil portugueses, sobretudo provenientes das ilhas, a trabalhar na cana do açúcar no Hawai. O maior atestado da influência portuguesa na cultura local é o ukelele, o instrumento típico havaiano, semelhante ao cavaquinho. E o maior atestado da presença de “canacas” em São Francisco é San Leandro, cidade do outro lado da baía, onde, no século XIX, residia a maior comunidade lusitana da Califórnia. É para lá que vou, depois de um café aguado e de uma bagel com queijo, na manhã chuvosa de quinta-feira.
Ver comentários