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Correio da Manhã

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No Facebook à procura de dadoras de óvulos

Por 600 euros, as universitárias são as principais fornecedoras nas clínicas de reprodução assistida. Mas não chega.
13 de Maio de 2012 às 15:00
Uma placa de microinjecção
Uma placa de microinjecção FOTO: Pedro Mar

"Sê solidário e ajuda os casais que o necessitam’, lê-se num dos anúncios que nas últimas semanas encheram o espaço destinado à publicidade no Facebook. A janela, que pisca os olhos aos utilizadores da rede social em tons de rosa e azul-bebé, remete automaticamente para o site da IVI, clínica especializada em reprodução medicamente assistida, onde se esclarece a intenção do anúncio: procuram-se dadores de material genético. Ou seja, esperma e óvulos. Nos jornais de distribuição gratuita, também não faltam anúncios à procura de dadoras de ovócitos. O acto vive do espírito benemérito mas não só: no caso feminino, cada doação pode render 600 euros.

Da IVI, uma das 19 clínicas privadas a operarem em Portugal na área da procriação medicamente assistida, o médico Sérgio Soares justifica a campanha no Facebook com a "carência" de dadores em relação à procura, mesmo em tempos de crise.

"Vivendo o dia-a-dia desta questão, não notamos tal efeito. Se assim fosse, possivelmente não teríamos de estar a fazer a campanha", justifica.

A média de idades dos dadores seleccionados pela IVI é de 30 anos para os homens e 26 anos para as mulheres. Mas o médico não descarta o apelo monetário que a busca pode exercer sobre o seu público-alvo: "É lógico assumir que e relação do universo de dadores com os diferentes aspectos da motivação para o acto não é homogénea e, portanto, difícil de definir de modo simplista. Também não nos cabe a nós realizar uma profunda investigação sobre essa questão", afiança Sérgio Soares.

Mas, mesmo sem grandes investigações, o professor Alberto Barros (que criou em 1985 o primeiro ‘banco de esperma’ do País, na Faculdade de Medicina do Porto) deparou-se recentemente com um caso de pura solidariedade na sua clínica no Porto. "Houve uma jovem que, durante o processo de doação, perguntou se era possível doar o cheque a que tinha direito à família receptora", lembra o especialista em genética. Caso único na sua memória. "É legítimo que a pessoa, apesar da vocação solidária do seu acto, seja compensada pelos transtornos causados", defende.

Com tempos de crise, admira é que faltem dadores, já que as colheitas são pagas a 42 euros para os homens e 626 euros para as mulheres (preços de compensação estabelecidos pelo Ministério da Saúde, ou seja, 1,5 vezes o valor do indexante dos apoios sociais para as dadoras e um décimo do valor do indexante para os dadores).


Uma gota de água, quando comparado com os preços dos tratamentos, que podem chegar aos seis mil euros. No entanto, de acordo com os especialistas, o maior argumento apresentado tem sido mesmo "a vontade de ajudar".

Pelo menos é disso que fala a experiência de Isabel Sousa Pereira, directora do primeiro banco público de gâmetas, instalado na Maternidade Júlio Dinis, no Centro Hospitalar no Porto, em funcionamento desde 2011. "Muitos dadores de material genético são também dadores de sangue e de medula, queremos acreditar que a sua principal motivação seja a boa vontade."

O único banco público de gâmetas português iniciou o recrutamento e a selecção de dadores e dadoras em Maio de 2011, e começam agora a estar disponíveis as primeiras dádivas para uma lista de espera de casais inférteis.

A procura não é muito expressiva e, por isso, há falta de material genético, a fazer engrossar directamente uma lista de casais inférteis em espera.

O diferencial na compensação atribuída a homens e mulheres justifica-se "pelas despesas efectuadas ou pelos prejuízos resultantes da dádiva", além de que "o processo de doação de ovócitos é mais invasivo do que o de espermatozóides".

Os riscos decorrem directamente do processo de estimulação ovárica a que as dadoras são submetidas. Este é geralmente bem tolerado e só excepcionalmente comporta algum risco, como a síndrome da hiper-estimulação dos ovários (resposta exagerada ao tratamento), infecção, o hemoperitoneu ou a torção dos ovários. Também não é recomendável manter relações sexuais, pelo risco de gestação múltipla, durante o período de estimulação.


Por tudo isto, cada dadora só pode fazer três doações ao longo da vida, independentemente de daí ter ou não resultado uma gravidez, e nunca pode fazê-lo com intervalos inferiores a seis meses.

Apesar dos inconvenientes, muitas das dadoras colocam a solidariedade no topo das motivações que as fizeram dar o passo, tal como escreveu D. F. M. C., de 28 anos, que actualmente está a fazer um mestrado em Ciências Farmacêuticas e trabalha numa loja em part--time, num questionário que lhe foi fornecido no Centro de Genética da Reprodução Professor Alberto Barros a pedido do Correio da Manhã: "Poder ajudar uma mulher a engravidar." Diz-se "orgulhosa" da sua decisão, que a faz sentir-se "um ser humano melhor". Também já doou medula óssea.

A opinião é partilhada por L. S. P., 26 anos, trabalhadora-estudante: "Ajudar outros casais que infelizmente não puderam realizar o sonho de serem pais."

Só isso lhe traz uma alegria imensa, partilhada também por I. S. A. C., de 22 anos (mestranda em Ecologia, Ambiente e Território), a única que refere que a compensação monetária auferida teve também algum peso na sua decisão.

ENCONTROS NA NET

O perfil é típico. A maior parte das dadoras que recorrem ao Centro de Genética da Reprodução Professor Alberto Barros são "jovens, estudantes universitárias, solteiras e sem filhos". Às vezes, mas "mais raramente, aparecem algumas estrangeiras, de passagem por Portugal no âmbito do programa Erasmus".

Numa viagem por blogues e fóruns, dadoras e receptores ‘encontram-se’ no mundo virtual e anónimo da internet.


‘Irakaya’, nome de ‘guerra’ on-line, escreve as suas razões: "Não sei quando é que vou precisar da ajuda dos outros (sangue, medula, órgãos…) e penso sempre que, se não ajudar enquanto posso, que legitimidade terei eu um dia para aceitar ajuda? Em todos os casos é dar vida, esperança e possibilidade de concretizar sonhos. Não sou melhor que ninguém (….), não posso ajudar o mundo, mas se conseguir ajudar uma pessoa já fico feliz." Do ‘lado de lá’, chovem ‘posts’ com respostas de mulheres inférteis que apoiam e agradecem a decisão de ‘Irakaya’.

Ter ou não material genético de qualidade para procriar é uma roleta russa que há quatro anos e meio saiu a Cátia J., 36 anos, administrativa, já com duas inseminações artificiais falhadas no currículo e os papéis para a adopção a caminho dos serviços competentes. Apesar disso, não desistiu do sonho de gerar, que depende em boa parte da existência de dadoras. Está em lista de espera para receber óvulos doados, já que as inseminações falhadas mostraram que os seus não tinham qualidade. A ideia não lhe faz confusão, bem pelo contrário: "Mãe e pai é quem cria. E gerá-lo já é ser mãe dele. Por quem doa, sinto uma admiração imensa: é um altruísmo muito grande."

PROCESSO RÁPIDO

Ser dadora é simples e rápido. Começa com uma entrevista para conhecer o médico e os procedimentos.

Depois de uma ecografia, rastreio genético, pesquisa de marcadores biológicos e uma avaliação psicológica, é programado o início do tratamento de estimulação ovárica. A partir desse momento, a dadora tem de fazer uma série de visitas à clínica ou ao hospital num curto período de tempo, a fim de ser monitorizada. Por esta altura, ambas as mulheres estão activas no processo: "Ao mesmo tempo que é estimulada a resposta ovárica da dadora, faz-se a preparação intra-uterina da receptora." A maioria das receptoras, acrescenta o professor Alberto Barros, sofre de insuficiência ovárica prematura ou produz óvulos de má qualidade, dois problemas que aumentam exponencialmente com a idade da primeira gravidez.

A punção folicular, ou seja, quando tudo termina com a transferência dos óvulos, ocorre numa sala de procedimentos sob anestesia local ou sedação. O procedimento demora entre 10 e 20 minutos e, ao fim de duas a três horas, a dadora tem alta médica.

A dadora nunca poderá conhecer o filho que ajudou a gerar (faz parte do acordo que assina), mas sai com a certeza de que ajudou alguém e a conta bancária mais recheada.


ALIMENTOS PREJUDICAM A FERTILIDADE

Em Portugal, existem vários bancos de esperma mas não de óvulos, devido ao facto de no nosso país não ser possível congelá-los. "A boa prática exige que haja um banco de esperma, pois há um período de quarentena de seis meses que tem de ser respeitado. O mesmo não se aplica aos óvulos, pois para efeitos da procriação medicamente assistida têm de ser colhidos frescos e inseminados no mesmo dia. Significa isto que, por melhor que seja o processo de congelação de óvulos, o ovócito fresco é aquele que permite melhores resultados", explica Alberto Barros.

Os problemas relacionados com a produção insuficiente de óvulos e de espermatozóides é cada vez mais uma causa maior da infertilidade. O avanço da idade reprodutora – sublinha – é o principal responsável, mas há outros factores externos, que passam "pela toxicidade nos tempos de hoje e por elementos hormonais que entram na cadeia alimentar de forma quase criminosa".

NOTAS

MINUTOS

O processo completo de doação de óvulos não dura mais do que um ciclo menstrual. A transferência é feita em minutos.

600 EUROS

É quanto pode valer para as mulheres uma doação de óvulos. O esperma é pago a 42 euros. 

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