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No futebol os balanços são sempre positivos

O ex-jornalista e assessor da Selecção nacional de futebol visitou a Índia em 1999 e conheceu Goa. Apaixonou-se pelas gentes e costumes e regressou ao Antigo Estado Português da Índia 15 vezes. Este ano, publicou um romance que foca o quotidiano daquela terra distante. Chama-se: ‘Uma Sombra Laranja Tigre’ e é um convite à boa-disposição.
24 de Julho de 2005 às 00:00
No futebol os balanços são sempre positivos
No futebol os balanços são sempre positivos FOTO: Tiago Sousa Dias
Afonso de Melo nasceu a 18 de Janeiro de 1964 por acaso no Porto, mas é natural de Águeda, terra onde assentam as suas raízes familiares. O pai, avó, bisavó, trisavó… chamavam-se Afonso e eram homens das Leis.
Filho único de um juiz e de uma doméstica passou os primeiros anos de vida de terra em terra. Só depois do 25 de Abril é que a família se radicou em Lisboa: “Sinto que já se nascia com o destino traçado: chamar-se Afonso e cursar Direito”, diz, entre risos. Mas a verdade é que Afonso de Melo licenciou-se em Direito apesar de cedo se ter desviado para o jornalismo: “Penso que a única forma neste País de fazer profissão da escrita é o jornalismo”, afirma. Passou pela redacção do ‘Semanário’, ‘O Século’, ‘O Jogo’ e ‘A Bola’ onde esteve largos anos. O gosto pela palavra lançou-o cedo para as prateleiras das livrarias.
Em 1996 publicou o seu primeiro romance: ‘Tantas Vezes Tu’. Seguiram-se vários outros títulos, entre os quais ‘Portugal em Calções’ e ‘Cinco Escudos Azuis - História da Selecção Portuguesa’. Em 2003 abandonou o jornalismo e aceitou o desafio de assessorar a Selecção nacional de futebol durante o Euro’2004.
Acabou por ficar e neste momento é o assessor de imprensa da Selecção. Afonso de Melo é casado e pai de dois adolescentes: Mafalda com 13 anos e Afonso com 12 anos: “A minha filha diz que quer seguir Medicina, o meu filho ainda não sabe”, comenta.
- Como é que descobriu Goa?
- Há seis anos, fui à Índia ao casamento de um amigo e aconselharam-me a visitar Goa. Diziam-me que tinha boas praias. Depois disso voltei lá umas 15 vezes e sempre que posso vou lá, de preferência durante o nosso Inverno.
- Deduzo que tenha feito muitos amigos…
- Estão todos no meu livro que, aliás foi escrito na ressaca de uma das várias viagens que fiz até lá.
- É curioso que ‘Uma Sombra Laranja Tigre’ não chame, imediatamente, a atenção para o cenário.
- Penso que ultimamente têm saído vários livros a apelar a Goa e apesar do enredo estar centrado lá, o meu livro não fala da Goa histórica mas sim de Colva e de personagens.
- Onde é que costuma ficar quando chega a Goa?
- Geralmente em Colva, num hotel.
- Quando o livro foi publicado enviou uma cópia aos seus amigos?
- Levei porque já lá estive este ano e foi engraçado, eles não sabem ler em português mas reconheciam os nomes.
- Tem vários títulos no mercado e em várias editoras. Antes de entregar um manuscrito costuma pedir a alguém que o leia?
- Às vezes sim. Por exemplo, entreguei este último livro ao Manuel Alegre que teve uma opinião muito favorável e que me deu um enorme impulso para que eu o publicasse.
- Além da vertente de escritor, o Afonso dedicou-se ao jornalismo durante muitos anos. Foi complicado conciliar a paternidade com a profissão?
- Perdi muito a infância dos meus filhos; tinha horários completamente descabidos, o jornal fechava tarde, saia à noite e trabalhava muito aos fins-de-semana. Tirando aquela fase em que eles eram muito pequeninos e eu ficava com eles de manhã antes de os ir levar a casa dos meus pais, admito que perdi muita coisa.
- Agora se calhar é ao contrário, com 12 e 13 anos estão na fase dos amigos…
- Sim, agora querem é sair com os amigos, ir ao cinema à noite e participar em festas que acabam à meia-noite. E ficam muito zangados se eu os for buscar às 23h00!
- O Afonso não tem irmãos. Como é ser filho único?
- Em algumas coisas é muito exigente. Cria-se uma grande capacidade de solidão e de sobreviver sozinho. A minha mãe diz que quando eu era miúdo imaginava um irmão que vivia não sei onde. No entanto, a realidade é que o ser filho único cria em nós um certo desprendimento e um certo egoísmo.
- Quer dizer que se tornou um adulto egoísta?
- (…) Em algumas coisas. O desprendido tem mais a ver com o facto de não ter necessidade de desabafos. Embora tenha muitos amigos, não tenho particular urgência de procurar amigos, estou habituado a aguentar sozinho as fases mais difíceis.
- Seguiu a tradição familiar e cursou Direito mas desviou-se para o jornalismo…
- Nunca me apaixonei pelo Direito e penso que segui este curso por desleixe e porque na altura não sabia bem o que estudar. Terminei a licenciatura mas entretanto tive a oportunidade de começar a trabalhar no ‘Semanário’. Um amigo meu, o Raul Vaz - actual sub-director do ‘Diário de Notícias’ - levou-me para lá. Comecei a ter muito prazer naquilo que fazia.
- O que é que o Direito lhe ensinou?
- Basicamente a ter uma grande capacidade de análise e os anos passados na faculdade deram-me o companheirismo de alguns colegas com os quais ainda me relaciono.
- Depois do jornalismo ‘saltou’ para a assessoria de imprensa…
- Estive 8 meses no gabinete de imprensa do EURO’2004 e actualmente sou assessor de imprensa da Selecção. No início tinha dúvidas porque não sabia como era, não tinha experiência mas hoje em dia sinto-me à vontade.
- Mas tem saudades do ritmo frenético dos jornais diários?
- Tenho muitas. Gosto de trabalhar sob pressão. Por exemplo, nesta questão dos livros preciso que me digam prazos; de ter que trabalhar para prazos
- É um rapaz certinho?
- Às vezes não sou nada certinho, tenho 3 meses para fazer uma coisa e só faço nos últimos 15 dias. Aprecio essa pressão.
- Que balanço faz do seu trabalho como assessor?Agora é ao contrário, os jornalistas é que precisam de si…
- No futebol os balanços são sempre positivos porque quando as coisas correm bem as pessoas andam contentes. No EURO’2004 o ambiente era pouco agressivo, andava tudo feliz. Quando se perde é que se cria alguma agressividade com os jornalistas.
- Está a dizer que os jornalistas são agressivos quando a Selecção perde?
- O que acontece é que se cria um ambiente de uma certa agressividade entre jornalistas e jogadores mas é normal. Quem lê as críticas sente-se sempre de alguma forma injustiçado e passa-se um período de alguma crispação mas obviamente que o ambiente regressa ao normal!
- O Afonso tem a vantagem de conhecer o meio.
- Além de conhecer as pessoas do meio, sei quais são as suas necessidades porque eu também já as tive e dentro das exigências justas e justificadas dos jornalistas tento proporcionar-lhes aquilo que eles precisam.
- Neste momento rege a sua vida em função da Selecção. A Selecção está na China, o Afonso também está; está de férias, o Afonso também está…
- A Selecção geralmente não está de férias porque o núcleo dos treinadores trabalha diariamente e eu faço o acompanhamento das suas vidas e das múltiplas solicitações que têm. Este seleccionador - Scolari - é solicitado para tudo e mais alguma coisa, na maior parte dos casos nem têm a ver com jornais e sou eu que tento apoiá-lo em algumas coisas. Ele é de facto uma pessoa com muita procura!
- A verdade é que existe quase uma regra de ouro para os primeiros planos do futebol: além da bola, os eventos de caridade e uma festa ou outra…
- Por um lado é benéfico porque os intervenientes estão mais próximos das pessoas, por outro, faz com que os jogadores - muitos dele vieram de mundos difíceis - tenham a sensibilidade da vida e das necessidades dos outros.
- Já recebeu algum pedido estranho?
- Recebemos pilhas de coisas... Por exemplo, chegam-nos cartas de fãs que querem ir tirar fotografias com o jogador X ou então pais a pedir para o jogador Y ir à festa de anos do filho.
- Esses pedidos têm resposta?
- Tento sempre responder a todas as pessoas. Faço o que posso. Muitas vezes acontece algo curioso: recebemos cartas e pedidos de coisas mas as pessoas não mandam um remetente ou um telefone, nada. Há pouco tempo recebi uma carta de um senhor extremamente bem-educado, eu queria responder mas não tinha como.
- Já teve críticas e jornalistas zangados?
- Às vezes de coisas que não estão directamente relacionadas comigo. Sou eu que dou a cara à imprensa. Por exemplo, quando a Selecção jogou na Estónia, as condições de trabalho para a comunicação social portuguesa não eram as melhores e nada dependia de mim, não era a Federação que organizava o jogo e eu não era o assessor de imprensa, não tinha poder de intervenção objectivo!
- Costuma cruzar-se com pessoas que não sabem onde é Portugal mas associam o nosso País ao Figo?
- Frequentemente. Há 10 anos, numa terriola imunda da Costa Rica, encontrei um miúdo que me disse logo: “Portugal? Figo!”.
- Voltando a Goa. Que impressões tem sobre a presença portuguesa em Goa? Ainda existem missas celebradas em português.
- Para mim é mais interessante assistir a uma missa celebrada em concanim. Há uns dois anos fui lá a um casamento e achei fascinante assistir a todos os passos da missa tal como a professamos aqui mas em concanim. Simboliza uma enorme riqueza cultural.
- O Afonso é católico?
- Não. (risos). Mas fui baptizado a devido tempo.
- Casou pela Igreja?
- Não.
- Os seus filhos são baptizados?
- Sim, são os dois. Contudo, considero-me agnóstico.
- Que signo é?
- Capricórnio. De 18 de Janeiro.
- A astrologia interessa-o?
- Não acredito nada. Aliás, já escrevi horóscopos para jornais… a astrologia não influencia as pessoas. O que nos influencia é o sol e o bom tempo.
- Portanto não acredita em nada, nem em Deus nem no Diabo.
- Acredito na ideia ou na base do comportamento. Penso que as pessoas têm que ter um tipo de comportamento que traduza uma tentativa de auto-melhoramento e de progressão contínua.
- Acredita na reencarnação?
- … Não. Acho que morremos, tornamo-nos uns seres feios comidos pelos bichos e acabou.
- Em Outubro vai publicar uma história infantil. Tem outros projectos?
- Vários. A história infantil é a meias com o Bruno Pereira que está a finalizar as ilustrações. Mas tenho dois romances quase prontos, um sobre a sensação de clausura e outro relacionado com magia e voudu. Como não acredito em nada disso sinto-me perfeitamente à vontade para ironizar alguns aspectos.
- Vai ter férias este ano?
- Em Agosto vou com os meus filhos para a praia da Barra, perto de Aveiro. Desde sempre que frequento esta praia. E gostava de voltar a Goa após o apuramento para o campeonato do mundo.
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