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No lado negro de Hollywood

Bryan Singer, realizador de 'X-Men', é acusado de pertencer a uma rede de abusadores de rapazes.
11 de Maio de 2014 às 15:00
Bryan Singer alcançou fama e fortuna com a realização da saga ‘X-Men’
Bryan Singer alcançou fama e fortuna com a realização da saga ‘X-Men’ FOTO: Mario Anzuoni/Reuters

É um dos nomes mais fortes da nova geração de realizadores de Hollywood, e que na última década deu centenas de milhões de euros a ganhar aos estúdios Fox. Depois de lançar em grande estilo a saga de super-heróis ‘X-Men’ e de tentar reabilitar ‘Super-Homem’, o norte-americano Bryan Singer conhece agora o lado negro da fama e é acusado de liderar orgias gays com menores, num escândalo sexual cujas repercussões estão ainda por determinar e que também envolve produtores de grandes estúdios e até nomes associados à Disney. Uma coisa é certa: está a ser mais difícil para Singer desviar as atenções desta polémica do que ter capacidade em gerir orçamentos multimilionários e arrebatar as audiências de todo o Mundo.

Nos bastidores de Hollywood, há muito que circulavam rumores de festas privadas de temática gay, organizadas por nomes sonantes da indústria, com álcool e drogas à mistura. Pelo menos desde a década de 1990 que se falava, em surdina, do assunto. Agora, o caso ganhou outros contornos quando um homem de 31 anos, Michael Egan, decidiu processar judicialmente Bryan Singer e três outros produtores, acusando-os de abusos sexuais quando tinha apenas 15 anos.

Os crimes terão ocorrido em 1999, quando Egan se mudou para Los Angeles com a família, para sonhar com uma carreira de ator. Começou a participar em encontros em mansões e alega ter sido violado por Singer, além de forçado a consumir cocaína. Na acusação feita no mês passado, revelada pelo ‘Hollywood Reporter’, Egan diz que existe mesmo uma rede de abusadores gerida por altos cargos da indústria do cinema que, em troca de promessas na sétima arte e na televisão, força rapazes a atos sexuais em festas que terão também tido lugar no Havai. Além do realizador de ‘X-Men’, foram identificados os nomes de Garth Ancier, responsável pelo lançamento da Fox Television, Gary Goddard, criador de atrações do parque da Universal Studios e produtor da Broadway, e David Neuman, ex-presidente da rede de televisão da Disney. O queixoso pede agora 216 mil euros pelos danos emocionais que sofreu.

SUSPEITO DO COSTUME

A notícia caiu como uma bomba no meio, quando faltam poucas semanas para a chegada aos cinemas do novo ‘X-Men: Dias de um Futuro Esquecido’, grande produção novamente dirigida por Bryan Singer, com estreia marcada para o próximo dia 22 em Portugal. Depois de negar todas as acusações, o cineasta anunciou na semana passada que se vai afastar das ações de promoção da nova obra por não querer que "essas informações fictícias desviem a atenção do filme", que, nas suas palavras, "é um trabalho de amor" e uma das "melhores experiências" da sua carreira. No entanto, em Hollywood não se fala de outra coisa e novas queixas surgiram dias depois, novamente com Singer como alvo.

No passado dia 3, um processo judicial deu entrada num tribunal de Los Angeles com as denúncias a partirem agora de um jovem britânico, que se mantém no anonimato, e que diz ter sido alvo de atos pedófilos em Londres, numa festa de promoção de ‘Super-Homem: O Regresso’, em 2006. O jovem alega ter tentado resistir às abordagens de Singer, num quarto de hotel, mas este terá chegado a agredi--lo com a ajuda de outros homens, para depois o violar.

Mais uma vez, a equipa de defesa do realizador rejeita todas as acusações e fala "em tentativa de obter publicidade no momento em que um novo filme de Bryan está prestes a ser lançado". O advogado do cineasta, Martin Singer, veio a público considerar que este testemunho está ligado ao anterior, de Michael Egan, ambos representados por um mesmo advogado de acusação: "Depois do conteúdo do processo fabricado por Jeff Herman no Havai ter sido refutado com base em evidências incontestáveis, o seu desespero levou-o a criar novas acusações contra Singer, que também provaremos que são totalmente falsas", disse aos jornalistas.

 


Com a vida a ser escrutinada nos últimos tempos, Bryan Singer, gay assumido, tem evitado falar em público. O seu advogado esclareceu ao ‘Hollywood Reporter’ que o cineasta, lançado para a ribalta em 1995 com o filme de enganos admirado pela crítica ‘Os Suspeitos do Costume’, organiza festas, mas é muito seletivo e cuidadoso na escolha dos convidados: "Confere bilhetes de identidade, nenhum menor tem acesso a bebidas e há polícias fora do horário de serviço como seguranças."

SUCESSO OU FLOP?

Ao longo dos anos em que é realizador, Bryan Singer tem sido descrito, por quem trabalha de perto com ele, como uma pessoa "difícil". Apesar disso, os seus filmes têm sido quase todos bem recebidos, com o americano a revelar-se hábil a gerir tanto obras de orçamento reduzido como grandes produções.

Já em 1998, quando dirigiu o thriller ‘Sob Chantagem’, Singer foi alvo de queixas de vários figurantes, que disseram ter sido forçados a permanecerem despidos em estúdio, durante horas, para a rodagem de uma cena num balneário. Por outro lado, em 2006, ‘Super-Homem: O Regresso’ sofreu diversos atrasos nas filmagens porque o realizador faltava ao serviço ou era visto sobremedicado.

No seu currículo, o nova-iorquino tem ainda a produção executiva de vários episódios da série ‘House’, a realização do filme de guerra com Tom Cruise ‘Valquíria’ (2008) e a aventura que desapontou nas bilheteiras ‘Jack, o Caçador de Gigantes’ (2013). O porto seguro tem sido ‘X-Men’, cujo terceiro filme às suas ordens está nas últimas semanas a ser passado para segundo plano, com Singer a concentrar todas as atenções pelos piores motivos.

Os estúdios Fox têm evitado o tema, mas o desconforto impôs-se, até porque ‘X-Men: Dias de um Futuro Esquecido’ é o capítulo mais caro de toda a saga, com um orçamento perto dos 200 milhões de euros. No dia em que anunciou que se ia afastar da promoção do novo filme, Bryan Singer deixou, em comunicado, um desabafo: "Por respeito a todos os extraordinários intervenientes, aos incríveis e talentosos atores e à equipa envolvida, decidi não participar nos próximos eventos de promoção do filme. Porém, prometo que quando esta situação acabar, os factos vão mostrar a grande confusão que tudo isto foi. Quero agradecer aos fãs, amigos e familiares por todo o apoio." Resta saber que impacto o escândalo sexual terá nas bilheteiras de todo o Mundo.

CAIXA: OUTROS ESCÂNDALOS

A indústria cinematográfica sempre foi pródiga em escândalos sexuais envolvendo algumas das mais influentes e conhecidas figuras do cinema americano. Entre tantos, os casos célebres dos realizadores Roman Polanski e Woody Allen e do ator John Travolta. No melhor pano cai a nódoa.

Roman Polanski

Abusou da menor Samantha Geimer, em 1977, na casa de Jack Nicholson. Condenado, fugiu para Londres e estabeleceu-se em França. Em 2009, foi detido temporariamente na Suíça a pedido dos EUA, que queriam a sua extradição.

Woody Allen

É acusado pela ex-mulher Mia Farrow de abusar da filha adotiva de ambos. No início deste ano, em carta aberta, a alegada vítima escreveu que tinha então sete anos. É casado desde 1997 com Soon Yi, filha adotiva de Farrow com André Previn.

John Travolta

Foi acusado judicialmente por dois homens de lhes ter "tocado indevidamente" em saunas de Beverly Hills e Atlanta. Foi alvo de um processo, em 2012, de um jovem paquete, que se queixou de ser vítima de atos violentos por parte do ator.

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