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Correio da Manhã

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No país dos papagaios...

Era uma vez um país de papagaios onde 18,2% dos bichos não tinham emprego remunerado nem negócio que se visse. Tempos de crise instalada, no tempo em que os animais falavam, o Estado definhava e as empresas fechavam.
21 de Abril de 2013 às 15:00
Victor Bandarra, Ligação Directa, País dos papagaios
Victor Bandarra, Ligação Directa, País dos papagaios

 Uns viviam de rendimentos, poupanças, reformas e subsídios, outros faziam uns biscates e aguardavam amiúde nas gaiolas dos centros de emprego, à espera de comprador à altura. Parte dos papagaios assalariados deixara de papaguear – por medo, táctica ou mera tristeza. Havia sempre quem protestasse aos gritos, outros refugiavam-se na guerrilha social ou palaciana, outros ainda no velho fado de esperar para ver. Certo dia, papagaio estrangeirado entra na loja de empregos mais chic da capital do país dos papagaios. "Tem à venda papagaios desempregados?" O vendedor-chefe aponta meia dúzia de aves dependuradas em seu poleiro. "Temos para vários preços, com várias aptidões..." O cliente emplumado aponta ao mais robusto. "Aquele ali! Quanto custa?" O vendedor sorri. "Barato! Fica-lhe pelo ordenado mínimo. Uns 400 e tal euros..." O presumível comprador, caprichoso, arregala o olho. "E sabe fazer o quê?" O vendedor explica. "Fluente em línguas, frequência universitária, respondo pela sua honestidade..." O emplumado, desconfiado, avança para outro animal. "E aquele?" O vendedor nem hesita. "Mais caro! Nunca menos de 1000 euros!" Olho arregalado. "Então deve ter grandes capacidades!" O vendedor explica competências. "Além de falar várias línguas, é perito em contabilidade e até percebe de física quântica..." Atento, o estrangeirado estica a asa para belo papagaio com ar sobranceiro. "Esse aí deve custar um dinheirão..." O vendedor confirma. "É verdade! Nunca menos de 5 mil! Mas posso afiançar que, além de línguas, contabilidade e engenharia, é especialista em Bolsa, o que dá um jeitão..." O alegado comprador acaba por lançar o olho ao bicho do canto – papagaio rameloso, meio depenado, perna encolhida, olho caído e cara de mau. "Quanto custa?" O vendedor encolhe ombros, desdenhoso. "Esse não vendo por menos de 20 mil..." Surpresa. "Então deve ser o papagaio mais competente do mundo! O que é que ele faz?" O vendedor encolhe os ombros." Não faço a mínima ideia. Nunca lhe ouvi uma palavra!" Surpresa total. "E porquê esse preço?" Misterioso, ciciando, o vendedor explica ao ouvido do cliente. "Não imagino o que faça! Mas os outros chamam-lhe chefe!"

O meu amigo Zé dos Pneus, orgulhoso das suas qualidades como patrão e chefe, passa a vida a contar esta história. Diz ele que "há chefes que julgam que são patrões e patrões que julgam que são chefes". A verdade é que, no país dos papagaios, acabaram todos desempregados, incluindo o chefe.D

Victor Bandarra Ligação Directa País dos papagaios
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