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No país onde tudo falta sobram bombas e orgulho

Ditadura exorta feitos heroicos até à exaustão enquanto mantém a população na miséria total
Alfredo Leite(alfredoleite@cmjornal.pt) 10 de Setembro de 2017 às 15:00
Pyongyang
Pyongyang FOTO: Alfredo Leite

Ter água nas torneiras é uma espécie de lotaria para as mais de três milhões de pessoas que habitam Pyongyang. Água quente em casa é um bem essencial ainda mais raro, mesmo no inverno gelado da capital da Coreia do Norte. A eletricidade quase não chega às tomadas e, à noite, a escuridão que invade a cidade obriga a ler na rua à boleia dos raros candeeiros de iluminação pública.

A falta de energia tem-se intensificado nos últimos anos devido à seca que afeta o país e à crescente falta de liquidez da Coreia do Norte, que reduz a capacidade negocial perante a China, o único fornecedor energético da truculenta nação. Hoje, o regime já não consegue sequer iludir os frequentes apagões que afetam os hotéis Koryo e Yanggakdo, onde os raros visitantes do país ficam instalados e vigiados.

Na universidade os computadores são poucos e velhos e nos antiquados leitores de cassetes ao serviço dos alunos - um ‘must’ tecnológico - a fita mais recente toca ‘Yellow Submarine’.

Nas lojas carregadas de produtos chineses não há coreanos a comprar, nos estabelecimentos abertos aos súbditos de Kim Jong-un só há estantes vazias. E nas desertas ruas faltam automóveis. Na Coreia do Norte há 11 carros para 1000 pessoas. Nos Estados Unidos são 794 para outras tantas.

No país onde falta tudo sobram as bombas e multiplicam-se os testes nucleares. E esse é o único assunto sobre o qual o regime mantém os norte-coreanos bem informados.

TV MONOCÓRDICA
Os eloquentes testes nucleares da Coreia do Norte são, há muito, temas em destaque no ‘prime time’ da monocórdica televisão estatal, que limita a sua programação diária aos feitos revolucionários da ‘dinastia Kim’. Os que não podem ver a televisão – nem todos têm televisor em casa e os que o têm raramente têm eletricidade – não perdem os jornais de parede espalhados por toda a cidade e, em especial, numa das duas dezenas de estações de metro de Pyongyang, a única rede de transportes competente em todo o país.

A decrépita rede de metropolitano da capital é o orgulho de todos. Porque "é bonito" e, principalmente, por ter as "mais profundas estações de todo o Mundo", como fazem questão de referir os guias que acompanham os visitantes em permanência.

Há, todavia, outro orgulho que se respira no escasso contacto com os coreanos durante a visita ao país mais ocluso do Mundo. É o orgulho dos feitos heroicos do passado, idolatrados por quem, isolado por uma ditadura sanguinária, tem apenas uma vaga ideia do que é o mundo exterior à Coreia. É o orgulho contaminado pela ignorância de quem não sonha que os desvarios de Kim Jong-un colocam o Mundo perigosamente à beira de um conflito que, em primeira linha, prejudicaria a paupérrima e martirizada população norte-coreana.

Pyongyang Coreia do Norte Kim Jong-un Miséria
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