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No Porto esqueço as estrelas

Fica entre Moledo e Caminha a aldeia de Cristelo onde Richard Zimler construiu o seu refúgio, uma casa branca com um grande jardim no qual dá largas ao seu gosto pelas plantas: “Quando estou a podar os arbustos e a arrancar ervas daninhas não penso em mais nada”, revela o escritor que, em geral, afirma ser “bastante obcecado com a escrita”.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
Mas ali não. Pelo contrário. Depois de um dia de intensa jardinagem, fica “a ruminar” o que vai fazer no jardim no dia seguinte. Afinal, são três mil metros quadrados de alegre “caos” vegetal. Definitivamente, aquele “não é um jardim francês”.
A casa foi construída de raiz, a partir de um projecto elaborado pelo arquitecto Magalhães Carneiro e pela sua filha Teresa. Zimler e o companheiro, Alexandre, acompanharam o trabalho de perto, pois tinham “ideias muito concretas” acerca do que queriam: “O Alex queria muita luz com uma parede inteiramente de vidro e eu um ‘walking closet’, que é algo muito prático”.
A região já estava escolhida desde que o casal veio viver para Portugal em 1990. Nos fins-de-semana passados em casa de amigos em Caminha, Richard e Alex iniciaram a sua busca pelo terreno ideal, depois de demovidos do projecto inicial de adquirir uma ruína para recuperar.
“Percebemos que não iríamos conseguir o que queríamos, porque as áreas ali são muito pequenas e nós gostamos de espaços amplos”, explica.
Assim nasceu uma casa concebida em estreita colaboração e que resultou muito próxima daquilo que se pretendia. Uma separação entre a zona privada e a dos hóspedes, para permitir um aquecimento mais rápido quando não tivessem convidados, mas também para garantir a privacidade de uns e outros.
Uma cozinha ampla e prática, onde se pode cozinhar “muitos legumes no micro-ondas” ou convidar os convidados a darem livre curso a talentos culinários de vários géneros.
Apesar dos problemas com o empreiteiro, a casa, garante, “é excelente”. A questão nada teve a ver com a construção, mas com a descoberta de uns artefactos de cariz pouco arqueológico no jardim.
“O empreiteiro foi - como dizer isto de uma forma diplomática... - mentiroso!”. Quando a irritação é grande, não há diplomacia que resista. Não é que o homem resolveu enterrar grande parte do entulho de dois anos de construção no jardim?! Ao aperceber-se do ‘tesouro’ dissimulado sob a terra fértil na qual pretendia cultivar a sua paixão pela jardinagem, o escritor ficou “absolutamente horrorizado”.
Uma cama inteira, latas e mais latas de tinta, vestígios que, no futuro, teriam muito para revelar sobre os métodos utilizados pela indústria da construção civil em finais do século XX. Interpelado, o empreiteiro “prometeu limpar tudo”. E apareceu com o camião para, “supostamente”, cumprir a promessa. Mas, pouco tempo depois, Zimler voltou a desenterrar latas.
Contou 27. Ainda hoje, depois de novamente “limpo” o jardim, o escritor está convencido de que as surpresas não terminaram. E admira-se com o desplante do empreiteiro: “Ele sabia que construímos a casa em grande parte para ter um jardim”. Caso para dizer que lata não lhe faltou!
Latas de vários géneros não impedem contudo Zimler e o companheiro de passar os tempos livres no refúgio. Com a nova estrada, é só uma hora de viagem.
“Curiosamente, a maior parte das pessoas que têm ali casa só lá vão no Verão”, estranha o escritor, que aprecia a região em todas as épocas do ano mas admite que os Invernos são muito húmidos. Com a casa bem aquecida, fins-de-semana e outras temporadas mais alargadas são passados a pôr a leitura em dia, ficando a escrita para a cidade.
A televisão também, embora não tenha “nada contra”. Quando o tempo impossibilita de todo a jardinagem, e depois de “ler, ler muito”, Zimler dorme o sono dos justos. “O silêncio aqui é muito diferente do da cidade. No Porto esqueço-me completamente das estrelas. Aqui, o mistério de vida e morte do universo é muito mais evidente!”
CATARSE DE UM JUDEU EM BERLIM
O autor de ‘O Último Cabalista de Lisboa’ prefere escrever no Porto e reserva o refúgio campestre para a jardinagem. O seu mais recente romance, ‘A Sétima Porta’, transporta-nos para a Berlim dos anos 30, através de um ponto de vista feminino.
“O surgimento do nazismo na sociedade berlinense, que era muito evoluída, deve ter sido terrível para todas aquelas jovens que sonhavam ser médicas, advogadas, artistas e que foram obrigadas a voltar para o armário”, explica Zimler, que percorreu a cidade durante várias semanas a fim de tornar o relato mais documentado.
A esta obra não foi alheia a adoração que o escritor tinha pela mãe do companheiro, Lucy, “uma mulher extraordinária”, nascida em Berlim, que fez o escritor rever os seus próprios preconceitos sobre os alemães. “Senti que o fantasma dela me protegia”, conta.
O REFÚGIO
O jardim é o refúgio dentro do refúgio, onde o escritor se entretém a plantar espécies subtropicais que manda vir de fora. Actualmente, Zimler é “quase vegetariano”.
Quando só com o companheiro contenta-se, regra geral, com uma frugal refeição de “queijo, pão e vinho”. Se apetecer um repasto mais completo, “a zona tem restaurantes muito bons e baratos. A comida é excelente”. O bacalhau é prato de eleição mas, uma vez por outra, a deliciosa posta barrosã é admitida. A opção “quase” isenta de proteínas animais não tem motivações militantes e tolera incursões carnívoras. “Fora de casa comemos carne. No Norte, é praticamente impossível ser vegetariano!”
PERFIL
PROFISSÃO: Escritor
IDADE: 51 anos
LOCAL: Cristelo, Caminha
COMPANHEIROS DE REFÚGIO: Alexandre
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