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Erros no grande ecrã

Bebé de plástico de ‘American Sniper’ valeu críticas a Clint Eastwood e já está na lista dos maiores erros do cinema
Rui Pedro Vieira 9 de Fevereiro de 2015 às 12:27
Bradley Cooper contracena com um boneco em 'Sniper Americano'
Bradley Cooper contracena com um boneco em 'Sniper Americano'

Esta é a história do maior atirador americano na guerra do Iraque, mas agora é ela própria alvo… de chacota. ‘American Sniper’, filme já em exibição, é o maior êxito da carreira de realizador de Clint Eastwood, com cerca de 200 milhões de euros de receitas só nos EUA, e está nomeado para seis Óscares, incluindo Melhor Filme. Contudo, uma falha grosseira na produção deste filme de guerra, sobre o percurso verídico do militar Chris Kyle, gerou comentários ácidos nas redes sociais.

Em causa estão as cenas em que Kyle (Bradley Cooper) contracena com a filha que acaba de nascer que… não é mais do que um manequim de plástico. As sequências em que o boneco é amparado e onde se vê claramente que não é real estão entre as mais populares das últimas semanas nos sites de vídeos.

Numa delas, o ator Bradley Cooper embala a bebé, mas esta é estranhamente desprovida de movimentos e expressões faciais. Algo que não melhora quando é posta no berço. Numa outra, a bebé é tirada do colo da mãe (Sienna Miller), cansada, pelo pai e, de novo, os traços artificiais saltam à vista. As críticas não se fizeram esperar.

"Vá lá, Clint Eastwood, estamos em 2015. Nunca ouviste falar de CGI?", interrogou-se a revista ‘Time’, aludindo à sigla dos efeitos especiais criados em computador. No artigo insinua-se ainda, em tom irónico, que a produção não confiou um bebé real para as mãos de  Cooper, que nunca foi pai. Já a ‘Vulture’ descreve as cenas como "difíceis de assistir" e o ‘Sunday Times’ brincou ao dizer nunca ter visto tantos "terríveis bebés falsos num só filme". Nas redes sociais, o caso também mereceu milhares de comentários de anónimos descontentes e incrédulos.

No meio do burburinho, o argumentista e produtor executivo do filme, Jason Hall, viu-se forçado a explicar no Twitter: "Odeio estragar a diversão, mas o bebé real número um apareceu [na rodagem] com febre. O bebé real número dois faltou." Algo que levou, ainda segundo Hall, o impaciente e adepto de rodagens rápidas Clint Eastwood a solicitar: "Gimme the doll, kid" (traduzível por "passa-me o boneco, miúdo").

Certo é que o prestígio do filme não tem sido (muito) afetado pelo erro, apesar de haver quem diga que é por preferir um boneco de plástico que Clint Eastwood vê escapar uma estatueta dourada – ficou de fora dos nomeados ao Óscar de Realizador.

ROL DE DISPARATES

‘American Sniper’ figura já na galeria dos filmes com erros mais expressivos da história do cinema. Até porque Hollywood tem longo historial de produções dispendiosas e premiadas que exibem na versão final erros de montagem, falhas no argumento ou figuras e adereços desadequados para o tempo da ação.

Vencedor de cinco Óscares em 2001, como o de Melhor Filme, ‘Gladiador’ tem um total de 175 erros contabilizados pelo Movie Mistakes, site norte-americano especializado em detetar o que escapa ao realizador e aos produtores, tornando-se posteriormente um grande embaraço. Uma das incongruências mais gritantes deste filme de Ridley Scott, passado na Roma Antiga, é a botija de gás visível quando uma quadriga é derrubada na arena. Numa outra, um membro da equipa de rodagem surge de calças de ganga, enquanto a figura de Russell Crowe lança uma espada e pergunta à multidão: "Ainda não se estão a divertir?" Quem notou a presença fora do contexto temporal achará certamente que sim.

Dois dos filmes mais premiados de sempre pela Academia, ‘Titanic’ (1997) e ‘O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei’ (2003), ambos com onze Óscares, também têm mais problemas de produção do que o desejável. No caso do filme de Peter Jackson, há quem conte 286 falhas, incluindo o momento em que Frodo (Elijah Wood) é enrolado na teia da aranha  Shelob e, quando é descoberto pelos amigos, num plano está de olhos abertos, no outro tem-nos fechados e no outro de olhos abertos outra vez. Quanto a ‘Titanic’, as falhas ascendem às 270 e incluem o já célebre momento em que Rose (Kate Winslet) usa um machado para libertar Jack (Leonardo DiCaprio) e acerta-lhe na mão em vez de nas algemas que o prendem.

O portal Movie Mistakes é formado por uma comunidade de cinéfilos que analisou oito mil filmes e detetou já cem mil erros. Até agora, porque diariamente são acrescentados novos casos. Entre os maiores ‘infratores’ encontram-se obras-primas como ‘Apocalipse Now’ (561 erros), ‘Os Pássaros’ (543) e ‘O Feiticeiro de Oz’ (418). Muito perto está ‘Os Piratas das Caraíbas: Maldição do Pérola Negra’ (2003), de Gore Verbinski, que totaliza 385 falhas, ou o adorado ‘Star Wars – Uma Nova Esperança’ (1977), com 276. Nesta aventura realizada por George Lucas, há uma que dá nas vistas: um Stormtrooper bate com a cabeça no teto da nave, quando marcha ao lado dos outros soldados na sala de controlo.

Ainda nos clássicos, até Alfred Hitchcock cometeu muitos erros. Em ‘Intriga Internacional’ (1959) há um de antologia: uma criança, figurante de costas, tapa os ouvidos vários segundos antes do disparo de uma arma, cortando o suspense de algo que era suposto ser imprevisível.

Os erros são para todos os gostos e quase impercetíveis para um espectador desprevenido. Porém, será difícil não se dar pelo adereço de plástico do filme ‘American Sniper’. Há até já uma conta do Twitter em nome de ‘Fake Baby’ (bebé falso) que lança piadas sobre a falta de expressão...

UMA INCÓMODA GARRAFA DE PLÁSTICO

A televisão também dá azo a incorreções: a série britânica ‘Downton Abbey’ (exibida na Fox Life e na SIC) caiu no erro de mostrar um objeto que não existia no início do século XX. Numa imagem de promoção da quinta temporada, uma garrafa de plástico surge entre dois jarrões, quando Robert Crawley (Hugh Bonneville) e Edith (Laura Carmichael) posam junto à lareira. A produção pediu desculpa, até porque as garrafas de plástico só começaram a ser comercializadas em larga escala em 1947.

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