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NORMALMENTE O PEDÓFILO É CERTINHO

Quintino Aires passou os últimos anos a lidar com casos de pedofilia. Por isso afirma que, regra geral, o pedófilo é um tipo “certinho, casado e pai de família”. E adverte: a maior parte tem comportamentos homofóbicos
1 de Junho de 2003 às 19:10
Todos os detidos no processo da Casa Pia apresentam um discurso semelhante: dizem que se trata de uma cabala e que estão
dispostos a colaborar com a justiça. Isto faz parte da chamada ‘fase de negação’?

Primeiro que tudo, eles podem ser de facto inocentes, por isso é natural que o digam. Depois, e mais interessante, é que no caso da pedofilia, o acusado fica baralhado no momento do confronto. Quando a sociedade toma conhecimento do sucedido, é normal que o pedófilo se confunda a si próprio e se questione se fez ou não fez aquilo. Mas isso acontece com todos os que cometem crimes.
Pode-se então estabelecer um ponto de comparação?
Sim. O melhor exemplo que posso dar da ‘fase de negação’ é o do português Luís Miguel Militão, que montou uma estratégia para matar cinco pessoas. Neste caso, pudemos acompanhar as várias emoções, as expressões e as comunicações do criminoso. A estrutura de personalidade dele é exactamente a mesma que pode surgir num pedófilo. Ele negava, com choro, a injustiça que lhe estava a ser feita e os amigos que tinha perdido. Essa capacidade de negar também está enquadrada na forma do pedófilo se defender de alguma coisa que para ele não é errada mas que sabe que a sociedade condena. Aliás, já no momento em que um pedófilo pratica actos de abuso sexual, há uma certa negação porque o faz às escondidas.
Esse comportamento está associado ao que normalmente apelidamos de dupla personalidade?
Aquilo que antes, na psicologia clínica, se chamava dupla personalidade é a capacidade de funcionar de uma e outra maneira. Uma característica destes indivíduos é que são pessoas inteligentes. Aquilo que para nós está errado - e que éramos incapazes de fazer - para eles faz todo o sentido. Mas também não deixam de perceber que não o devem fazer.
O pedófilo tem, então, consciência do mal que faz?
Não, ele tem consciência de que a sociedade proíbe aquilo que ele faz. Para um pedófilo, os seus actos são correctos. A sociedade é que é injusta quando o proíbe de os executar. E como a sociedade pune, ele tem que se proteger.
Qual é a justificação do pedófilo para praticar tais actos?
Fá-lo simplesmente porque lhe apetece. Atenção que estamos a falar de indivíduos com uma desestruturação de personalidade. É um tipo de personalidade muito frequente na segunda metade do Século XX, denominada ‘border line’. Dentro deste funcionamento, o natural é aquilo que o próprio deseja. A sociedade é que não evoluiu e não consegue acompanhar a sua mentalidade.
O pedófilo tem um perfil-tipo?
Não. Embora, normalmente, existam duas características-tipo: a tal estrutura de personalidade tipo ‘border line’ e uma notória dificuldade em lidar com a própria sexualidade. Mas repare, não estamos a englobar aqui o indivíduo com uma certa deficiência mental, que teve acesso a uma criança e que mantém relações com ela - do género, ‘tontinho da aldeia’. Estamos a falar de indivíduos inteligentes, integrados na sociedade, com uma profissão e com rendimentos.
Essa dificuldade em lidar com a própria sexualidade pode estar ligada a algum momento da vida do pedófilo?
Se quer saber se o pedófilo tem que ter tido, necessariamente, experiências sexuais enquanto menor, então teríamos que afirmar que a maior parte da população é pedófila. De facto, aparece muitas vezes escrito que o abusador foi abusado, ou que o violador foi violado. Isso é um erro. Muitos indivíduos que não têm comportamento de abusadores – e que não são pedófilos - tiveram uma experiência sexual com um adulto.
Um indivíduo não se torna necessariamente pedófilo por uma ocorrência da sua vida, mas pela forma como a sua personalidade se vai construindo.
E quando se constrói mal, isso nota-se?
Nem sempre. O pedófilo pode ser extremamente correcto, regrado e não gostar de ver os outros irem contra a lei. Normalmente, até é um indivíduo 'certinho', que defende valores morais extremamente rígidos.
Mas isso contraria a imagem que a sociedade tem do pedófilo...
Sim. Há tendência a associar o pedófilo a um indivíduo estranho.
É por isso que é tão difícil acreditar que algumas figuras públicas –admiradas por todos - possam estar envolvidas?
Pois, mas é exactamente daí que é de se esperar - o que não quer dizer que seja o caso das figuras em questão. De entre os vários comportamentos de todos os que já foram detidos, não há nada que permita a um psicólogo tirar conclusões.
Mas há uma característica inerente ao pedófilo que é a homofobia. E houve um detido que disse que não queria estar no pátio para não estar perto de homossexuais [trata-se de Hugo Marçal, que alegadamente terá manifestado o seu desagrado por ter que conviver com reclusos homossexuais, neste caso o ex-diplomata Jorge Ritto]. Até agora, esse foi o único comportamento que pode querer dizer alguma coisa.
É também frequente que o pedófilo seja um homem casado, pai de família.
Se o pedófilo for um homem casado, é um bissexual?
Bissexuais somos todos. Mas fomos aprendendo a lidar e a apreciar esteticamente mais o sexo oposto, ou o próprio. O mais frequente é que o pedófilo seja um homossexual que não sabe lidar com isso. Por isso, casou e teve filhos, embora continue a procurar rapazes. Eis aqui a tal dificuldade em lidar com a sua sexualidade: ele está casado só para a sociedade.
Há uma diferença entre ser pedófilo e abusar sexualmente de menores?
Nós, psicólogos, só consideramos pedofilia a relação com uma criança antes do aparecimento dos caracteres sexuais secundários (pelos púbicos, mamas, testículos).
Falamos de crianças com que idades?
A partir mais ou menos dos 12 anos já não consideramos pedofilia. Mas entre os 12 e os 18 anos ainda não há plena capacidade para decidir “eu quero” ou “não quero”. Pode haver confusão entre o “parece-me que quero” ou o “eu desejo”. Portanto, quando um adulto mantém uma relação com um adolescente pode estar a fazer uso do “parece que quero” mas se calhar “não quero” e aí consideramos que é um abusador, não um pedófilo.
O pedófilo está sempre em vantagem face à vítima.
E esse é o grande motivo da pedofilia. Como com a criança o pedófilo está numa situação dominante, tudo acaba por ser mais fácil (vive a sua sexualidade com menos ansiedade). Na minha opinião, mais do que um ‘apetite’ por crianças, no início, a pedofilia é a possibilidade de se viver a sexualidade sem ansiedade.
Depois de se relacionar com uma criança, não será mais difícil retomar as relações com um adulto?
Depende dos pedófilos. Há uns que se desinteressam e outros que continuam a manter relações com adultos. Daí que enquanto psicólogo, não considere válidos os depoimentos de uma mulher que diz que o seu marido tem um comportamento sexual normal em casa.
Porque é que, no processo da Casa Pia, a situação das vítimas é ainda mais terrível?
Não penso que haja mais estrago psicológico para a vítima. Creio que o principal estrago que a pedofilia produz é o choque da sociedade face a toda a situação. Expressões e comentários como “que coisa horrorosa esta” fazem muito pior à criança ou ao adolescente do que propriamente as experiências sexuais vividas. Eles organizam-se emocionalmente pelas figuras adultas que lhes são tranquilizadoras. E, neste caso, parece que toda a sociedade está perdida, desorientada, assustada. E a criança fica a pensar: “Então quem é que me protege?”. Dou o exemplo da mãe de um filho que entra no quarto escuro e diz: “Está escuro, tenho medo”. E a mãe, embora também com medo, responde: E depois, não estou aqui contigo?”. Isto é importante para a segurança e construção da personalidade da criança, impede que fique com traumas. E aquilo a que nós estamos a assistir é precisamente o contrário. Anda tudo desorganizado e aflito. Deve-se falar - porque senão é pior - e daí a importância da Comunicação Social. Mas sem que seja revelado pânico.
A situação de abuso não é então mais cruel para uma criança que viva numa instituição social, longe dos pais?
A criança da instituição tem mais recursos. Já sofreu mais e já está mais calejada. Na instituição, eles têm um grupo de pares que também passaram pelo mesmo. Dentro de uma família isolada não têm outros miúdos com quem possam partilhar a experiência.
De que forma é que este escândalo pode fazer tremer os alicerces do País e como é que as pessoas vão voltar a acreditar nas instituições?
Se a sociedade estivesse preocupada com os verdadeiros responsáveis, se tudo isto estivesse a mexer com valores, penso que o país dificilmente recuperava. Mas as pessoas não estão verdadeiramente preocupadas com os valores, estão mais a apreciar o escândalo. Por isso, quando isto acabar, fica tudo bem. É triste, mas é a sociedade que temos.
De que forma é que a crise de valores em que vivemos pode ser ultrapassada, agora que se provou que ninguém é intocável?
À medida que se fala de coisas até aqui silenciadas, toma-se mais consciência do mundo. E quando isso acontece, reformulam-se os valores. Por aí, acredito que possa haver uma mudança. Mas se na condução de todo este processo não ficarem punidos os maus, não haverá nenhuma mudança.
Como é que os pais podem explicar aos filhos o que é um pedófilo?
Da forma mais simples. Dizer que o pedófilo é um adulto que namora com uma criança. Quando se diz namorar a criança percebe rapidamente o que é (dar beijinhos, festinhas). Depois, é preciso explicar que isso não é muito normal porque os adultos namoram com adultos. E as crianças brincam ao namorar com outras crianças. Isto é suficiente. A criança tem dificuldade em verbalizar aquilo que desconhece. Mas a partir do momento em que os pais lhe dão esta explicação e algo de semelhante lhe acontece, já está apta a dizer que fulano tal tentou namorar com ela e alerta os pais. O que inibe a criança de contar que foi abusada é desconhecer o assunto e ser levada a pensar que ela própria é culpada do sucedido.
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