Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
1

Nos labirintos da Babel

Gente dos quatro cantos do Mundo vive e convive nos corredores do Centro Comercial Babilónia, na Amadora.
17 de Outubro de 2010 às 00:00
No átrio, os jogos de futebol têm audiência  de todo o Mundo
No átrio, os jogos de futebol têm audiência de todo o Mundo FOTO: Pedro Rocha

Os corredores labirínticos cheiram a caril, a quiabo e champô de coco, enchem-se com o linguajar de dialectos distantes e vestem-se da profusão de culturas. São novelos de gente com origem em mapas distantes que hoje povoam o movimentado e heterogéneo Centro Comercial Babilónia.

O espaço nasceu em 1984, em pleno coração da Amadora, longe de se adivinhar quão premonitório era o nome da bíblica Torre de Babel que lhe fora atribuído. Outrora paraíso do consumo de uma população branca de classe média, a face do centro mudou ao longo dos últimos 15 anos, à medida que a cidade cresceu e recebeu milhares de imigrantes.

António Amaro, administrador do centro, tem saudades do antigo Babilónia. Dos fins-de semana em que os corredores estavam apinhados de "gente de bolsos recheados que literalmente esvaziava os stocks das lojas de marca, das sessões esgotadas na sala de cinema para o filme da moda e dos desfiles de Carnaval dos miúdos". Ou até da fama quase nacional dos croissants com chocolate – autêntica novidade nos anos 80, que trazia filas intermináveis à pastelaria do átrio.

Quem chegou depois, dificilmente o compreenderá. Pelo contrário. Na diferença, todos são mais iguais. A miscelânea empurra a integração. Paul Nihar, vindo da Índia há seis anos, congratula-se por ser assim, ajeitando as mechas de cabelo negro e sedoso entre os dedos. "Aqui é agradável. Quase todos vieram de fora. São africanos, brasileiros, chineses, paquistaneses... Portugueses é que vejo poucos. Mas é uma grande família".

A ÍNDIA AQUI TÃO PERTO

Dilwar Chand chegou há algumas semanas ao País e acabou de abrir uma mercearia que promete ‘bons preços’ numa folha de cartolina verde-água. Não cabe em si de orgulho ao contemplar a nova loja, sorriso branco incandescente a rasgar as maçãs do rosto perante a materialização física de todos os seus sonhos e aspirações em Portugal. Desculpa-se porque ainda falta uma "montra bonita" e deixa entender que ainda não domina o português. É Nihar – vizinho da sua loja – quem lhe acode para a entrevista. "Dilwar vende também comida e produtos africanos porque há muitos por aqui", traduz, justificando a oportunidade de negócio do compatriota. A comunidade indiana constituiu a primeira vaga de forasteiros no Centro Comercial Babilónia. Chegam maioritariamente homens e solteiros. Por cá formam família, dentro da sua etnia, e esquecem os planos de regresso.

Prem, também da Índia, é dos mais populares da comunidade de lojistas indianos do centro. A pacatez e o sorriso generoso arranjam-lhe amigos à velocidade da luz. Vende telemóveis mesmo ao lado da Croissant Dourado, uma das poucas lojas de origem do Babilónia.

Manuela Profeta, empregada da pastelaria há 16 anos, aportuguesou-lhe o nome. "Ai, este aqui ao lado, o ‘Primo’, é muito simpático. Aliás, toda a família é fantástica. Vem cá imensas vezes comer pastéis de nata e croissants", elogia. Logo ela, que é do tal tempo áureo do centro, em que chegavam a confeccionar mais de mil croissants por dia. Agora o negócio está em baixa e o ambiente mudou. "Há muita confusão, gente misturada, às vezes há conflitos na esplanada. Mas o ambiente entre as pessoas que trabalham no centro é muito bom, apesar das etnias".

YAN NÃO SABE SAMBAR

A loja de Yan é disso espelho. A jovem chinesa de 25 anos, cujo nome significa ‘andorinha’, dá emprego a duas brasileiras. "Elas são mais trabalhadoras", afirma Yan, no típico recatamento asiático. Já as duas empregadas acham que os "chineses trabalham demais, não saem para se divertir e comem muito". Yan faz ouvidos de mercador e garante que "nunca irá aprender a sambar". Elizabete ginga as ancas e mostra que já sabe dizer ‘olá’ em chinês: ‘Nihao’. Yan ri, tocada por uma súbita latinidade, e corrige-lhe a pronúncia.

A poucos metros dali está a loja de Muhamad Shoaib, uma das 50 do ramo das telecomunicações que ali existem, quase todas de paquistaneses ou bangladeshianos. Veio para tirar um curso superior em Portugal, de informática, mas quando o dinheiro faltou lançou-se no comércio dos telemóveis. Adora estar por cá: "O tempo é mais fresco. No Paquistão, mesmo com geradores, a electricidade falha. Nem as ventoinhas nos salvam".

Muhamad já teve namorada portuguesa, mas o amor acabou. Agora está solteiro e bom rapaz, aos 30 anos, ciente das dificuldades de um casamento intercultural. "Houve muitas uniões por conveniência e por isso o processo é difícil. Depois, há sempre a questão da religião... Mas quando se gosta as dificuldades ultrapassam-se".

CARRINHAS DO SEF

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) é visita habitual no Babilónia. Procuram ilegais em pessoas e géneros. Nunca avisam quando chegam e levam quase sempre a carrinha cheia. Numa das últimas operações, entre comerciantes e clientela das 220 lojas do centro, identificaram pessoas de 17 nacionalidades. Muitas lojas passaram o resto do dia com as portas fechadas.

"Só tenho pena que nunca tenham vindo à administração falar connosco. De resto, até agradeço que venham. Assim as pessoas sentem-se mais seguras. É para isso que temos também seguranças e mais de 50 câmaras de vigilância. Para que as pessoas não tenham medo. E estamos a conseguir resultados. Durante o último Mundial de futebol, por exemplo, gente dos quatro cantos do Mundo assistiu aos jogos na esplanada e não houve qualquer desacato", assegura António Amaro.

Medo aparte, há muitos que se encantam pela pluralidade das gentes do Babilónia. Como o realizador João Canijo, que há poucos dias rodou naqueles corredores algumas cenas de ‘Sangue do Meu Sangue’.

O filme, com Rita Blanco, Nuno Lopes, Fernando Luís, Beatriz Batarda e Teresa Madruga, bebe a sua história nessa geografia suburbana que aparece nos tablóides pelas piores razões e que o País se habituou a ver como ameaçadora e impenetrável. A estreia está prevista para 2011.

Lei Cibelle, filha da proprietária do cabeleireiro Nela, ouviu falar do filme que ali foi rodado. Confessa que gostaria de ter participado. Afinal, quem melhor do que ela, que veio ainda menina de Cabo Verde, poderia encarnar a beleza inconvencional dos subúrbios? Tem 19 anos e está no 10º ano. Gostava de ser arquitecta. Mas isso pouco interessa aos mulatos bem parecidos da vizinhança que vão desenhando curvas à porta do estabelecimento só para a cumprimentar.

Lei cresceu praticamente ali. Conhece toda a gente e diz ter amigos de "todo o lado", encostada à constelação de estrelas fluorescentes que enfeita a porta anunciando unhas de gel e extensões a preços imbatíveis.

Lá dentro falta luxo mas transbordam gargalhadas. A cabeleireira senegalesa Aisha Togola penteia uma cliente angolana, enquanto as brasileiras dão brilho às unhas da são-tomense Elsa. Um verdadeiro mapa pelos caminhos antes navegados por Portugal.

INTEGRAÇÃO PASSA POR CRIAR OPORTUNIDADES

Segundo o último censo (2001), vivem no concelho da Amadora 13 500 estrangeiros, com as comunidades dos países de expressão portuguesa em esmagadora maioria. A vereadora Carla Tavares acredita que, desde então, os números tenham subido razoavelmente, sobretudo no que diz respeito às comunidades brasileiras e dos países de Leste. "Trabalhamos com uma série de instituições cujo objectivo é melhorar a qualidade de vida de todos os que aqui vivem", afirma.

A aposta da Câmara é a educação, sobretudo a nível do ensino pré-escolar e do programa Novas Oportunidades. "É um caminho moroso, com resultados só a médio e longo prazo, mas positivos. Temos os problemas que todas as grandes urbes têm, mas o azar de só olharem para o concelho pelas más notícias, como se a cidade se resumisse à Cova da Moura..."

NOTAS

MAPA

Indianos, paquistaneses, bangladeshianos, brasileiros, chineses e africanos estão em maioria no espaço.

TELEFONES

Só no Babilónia, existem mais de 50 lojas dedicadas ao comércio e arranjo de telemóveis.

SEF

Numa única visita, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras já ali identificou pessoas de 17 nacionalidades.

ACRÉSCIMO

Segundo o último censo (2001), viviam na Amadora 13 mil e quinhentos estrangeiros, mas hoje a realidade é bem maior.

Ver comentários