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“Nós não odiamos os homens”, afirma Camille Paglia

A propósito da publicação em Portugal de ‘Mulheres livres, homens livres’, que reúne alguns dos seus mais importantes textos, a entrevista com a feminista Camille Paglia
Fernanda Cachão 12 de Agosto de 2018 às 00:30
Camille Paglia
Camille Paglia FOTO: Michael Lionstar
Camille Paglia é um dos nomes mais importantes do feminismo e um dos mais controversos. A propósito da publicação em Portugal de ‘Mulheres livres, homens livres - sexo, género & feminismo’, pela Quetzal, que reúne alguns dos seus textos mais importantes, a professora universitária americana, de 71 anos, deu à ‘Domingo’ uma entrevista por email em que fala de assédio sexual, e de movimentos como o #MeToo, e explica porque é que ainda hoje em dia o feminismo está longe de ser global - a culpa é também das mulheres.

Porque é que se deve salvar o feminismo das feministas?

As feministas de hoje não são donas do feminismo, um extraordinário movimento de reforma social que começou em 1840. A primeira vaga de feministas emergiu da cruzada internacional contra a escravatura. As primeiras foram abolicionistas que se revoltaram contra o facto de apenas aos homens ser permitido falar na Convenção Mundial Anti-Escravatura, em Londres, em 1840.

No entanto, nessa primeira vaga houve rapidamente pontos de vista divergentes; houve por exemplo muitas feministas que se dedicaram à luta contra a venda de álcool nos Estados Unidos. Houve também divergências, num segundo momento que teve início em 1966, quando Betty Friedan foi uma das fundadoras do National Organization for Women (NOW - Organização Nacional para as Mulheres). Friedan opunha-se à homossexualidade e acabou por ser afastada da NOW por lésbicas radicais.

Os jornalistas têm ignorado de uma forma chocante a enorme diversidade de posições ideológicas dentro do feminismo. Eu pertenço à corrente ‘Pro-sex’, que defende a liberdade de expressão, especialmente na arte e na pornografia. Nós não odiamos os homens. Organizações feministas puritanas ou professoras feministas neuróticas e anti-homens não são as únicas vozes dentro do feminismo.

O feminismo não é uma coisa de mulheres ocidentais e instruídas?

É esse o maior problema. As mulheres ocidentais estão obcecadas com um sistema profissional ambicioso e competitivo, acreditam que não existe mais nada para além disso. Menosprezam a maternidade e são hostis à religião. Esta visão limitada tem impedido que o feminismo se torne num movimento mundial.

Acredito que a missão do feminismo é remover barreiras às mulheres no domínio social e religioso. A existência humana vai muito além do escritório e das competências profissionais. Além disso, as regras que se devem aplicar ao nosso comportamento sexual no local de trabalho não devem ser decalcadas da esfera privada, onde as coisas são mais complicadas e ambíguas.

Escreveu "Deem-nos liberdade para arriscarmos ser violadas". O que quer dizer como isto?

Quando cheguei ao liceu em 1964, as alunas eram obrigadas a voltar aos dormitórios pelas 23 horas, enquanto os rapazes podiam ficar fora durante toda a noite. A minha geração de mulheres rebelou-se contra a tirania sexista. As universidades propagandeavam que "o mundo é um lugar perigoso, onde podem ser violadas" mas nós dizíamos "deem-nos liberdade para arriscarmos ser violadas".

A liberdade é muito mais importante do que a segurança pessoal ou qualquer outro assunto. As mulheres contemporâneas têm de parar de pedir proteção a figuras paternas. Essa atitude é reacionária e infantil. As mulheres têm que se responsabilizar pelas suas próprias vidas.

O que é que pensa do movimento #MeToo? Defende falsas vítimas?

É excelente que as mulheres condenem comportamentos pouco profissionais de patrões e colegas de trabalho. Em 1986, depois de ter discutido o assunto na minha aula de estudos femininos, instiguei a universidade a adotar diretrizes moderadas no que toca ao assédio sexual. No entanto, o #MeToo vai longe de mais quando faz acusações em público que se referem a incidentes com muitos anos e sobre os quais já não existem provas. As democracias modernas não podem funcionar como a polícia de Estaline. Os homens também têm direitos legais.
As mulheres devem enfrentar o assédio sexual quando ele acontece – e não meses, anos depois dos factos. Há trabalhadoras impotentes na sua defesa porque a manutenção dos seus postos de trabalho lhes é vital mas isso não é de todo desculpa que deva ser usada por mulheres com estudos superiores e de estrato social elevado, pois não estão oprimidas pela necessidade do silêncio. As mulheres devem pôr o amor-próprio e a dignidade acima das suas carreiras.

Já alguma vez foi assediada? Como se defendeu?

Sim, quando era mais jovem. Tive dois incidentes assustadores nas ruas escuras de Paris e Viena que, imprudente, explorei sozinha. No entanto, graças ao meu feminismo ‘street-smart’ estava perfeitamente atenta ao que me rodeava e escapei em segurança.
De um modo geral, sempre optei desnecessariamente pelo confronto. Por exemplo, uma vez durante o Festival de Shakespeare, já no meu ano de finalista, denunciei um jovem que colocou o braço à minha volta para me conduzir na entrada do teatro. Disse bem alto: "Não me toques" – o que foi muito embaraçoso para ele, pois ficou toda a gente a olhar. Olhando para trás, admito que era uma pessoa de extremos.
Noutra ocasião, arrisquei ter problemas sérios na minha futura carreira profissional quando embaracei em público, na Faculdade de Yale, um professor de literatura reconhecido internacionalmente que tentava abraçar-me. Num ápice, afastei-me para evitar o abraço. À vista de toda a gente, ele perdeu o equilíbrio e quase caía no lancil. A minha filosofia é que ninguém tem o direito de tocar noutra pessoa sem o seu consentimento. Mas qualquer mulher tem que saber estabelecer os limites, a qualquer custo, mesmo que ponha em causa a sua carreira.

O que pensa das Femen e do movimento Pussy Riot?

As Pussy Riot são, essencialmente, um grupo de protesto contra os abusos do governo russo. O seu estilo disruptivo encontra eco em feministas do final dos anos 60, nos Estados Unidos (por exemplo, nos protestos contra o concurso Miss América) e pretende desafiar os estereótipos russos acerca das mulheres. Além disto, as Pussy Riot não acrescentam nada.

Já a ideologia das Femen é absolutamente incoerente. Ostentar nos seios palavras de protesto contra a prostituição é idiota. Isso seria um gesto lógico e louvável se fosse um manifesto de apoio à prostituição – questão que apoio. É claro que sou contra a escravatura sexual, bem como a prostituição infantil, mas sou a favor da descriminalização da prostituição, característica de muitas sociedades desde a Antiga Babilónia. Eu admiro os homens e as mulheres que são prostitutos.

Porque é que os homens são mais solidários entre si do que as mulheres?

Com muito poucas exceções, o feminismo atual é muito ignorante acerca das complexidades da psicologia masculina. É totalmente impossível compreender a humanidade apenas de uma perspetiva meramente política. O género não é apenas uma construção social (como defendem absurdamente as professoras feministas dos nossos tempos). Existe uma profunda diferença biológica entre os dois sexos que, nos últimos trinta mil anos, ajudou a produzir a maior parte daquilo que os separa culturalmente.

Uma dessas diferenças é a ligação e a capacidade de cooperação entre os homens, que remonta ao tempo em que eles se tornaram caçadores e tiveram de cooperar entre si, em pequenos grupos, para poder caçar. Ainda hoje em dia, rapazes em todo o mundo comportam-se de forma similar, quando formam pequenos grupos onde a linguagem provocadora e a atitude agressiva são quesitos de admissão.

As raparigas, pelo contrário, constroem binómios de amizade, em que partilham emoções e segredos. É claro que, em grupo, elas também podem ser cruéis mas isso é feito, essencialmente, através da exclusão de outras. As mulheres não deviam esperar dos maridos o mesmo tipo de comunicação que recebem das amigas. É claro que muitos homossexuais têm excelentes capacidades para verbalizar e conversar que os homens heterossexuais não têm!

É por isso que adoro séries de televisão e telenovelas: captam a maneira superficial, coscuvilheira e emocional com que as mulheres atualmente falam umas com as outras – um padrão que provavelmente é tão antigo como a Idade da Pedra.

Já contestou a ideia de que se nasce homossexual. Da mesma forma, pode alguém deixar de sê-lo?

Acredito que toda a gente nasce com potencial para a bissexualidade. Aliás, um completo entendimento da arte, desde as esculturas gregas aos belos rapazes de Goya em ‘La maja desnuda’, depende dessa capacidade bissexual. No entanto, o sexo é uma função biológica comandada pelas hormonas, que surgem na puberdade e que impelem, uns para os outros, homens e mulheres. A questão não é se uma pessoa é atraída pelo mesmo sexo – o que até é muito comum -, a questão é que estes impulsos permanecem latentes a vida inteira. O que se deve questionar é porque depois da puberdade alguém não é atraído pelo sexo oposto.

E é aqui que intervêm os fatores sociais. Uma pessoa que é exclusivamente homossexual tem uma história por detrás que está geralmente relacionada com questões familiares durante a infância. Os ativistas gay deixaram de colocar estas questões. Alguém que questione a origem da homossexualidade é considerado homofóbico. Esta inaceitável supressão da liberdade de pensamento crítico é um obstáculo ao autoconhecimento, o grande ideal de Platão.

A homossexualidade é um processo físico natural que nenhuma religião ou governo têm o direito de controlar ou proibir. Claro que os gays podem ‘mudar’ (pessoalmente, conheço vários casos de mulheres), mas a questão é porque é que alguém deve ter de mudar? Os padrões de atração estão profundamente ligados ao cérebro e ao corpo de cada um. As fantasias sexuais estão ligadas à nossa imaginação, àquilo que idealizamos para as nossas vidas e por isso, em última análise, pertencem ao domínio da arte.

B.I.

Camille Paglia nasceu em Endicott, Nova Iorque, em 1947, de uma família italo-americana.
Estudou em Yale e é ensaísta, autora de numerosos livros e professora de humanidades, estudos clássicos, arte e comunicação em Filadélfia e em Nova Iorque, nos Estados Unidos.
Assumiu a sua sexualidade nos anos 60, quando já era feminista. Tem um filho adotivo.
As revistas ‘Foreign Policy’ e ‘Prospect’ já a consideraram uma entre os 100 intelectuais mais relevantes do Mundo.
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