Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

Nostalgias (I)

“Recorda-a a servir às mesas e atrás do bar: É bonita, tem um sorriso tímido”
Tiago Rebelo 14 de Outubro de 2012 às 15:00
O homem estátua

No crepúsculo do bar, cheio a uma hora tardia, os focos de luz caem sobre a banda que actua no palco ao fundo da sala. Sentado a uma mesa num canto discreto, ele fuma um cigarro e observa a sala satisfeito com o resultado de um longo trabalho. Abriu o bar há quase cinco anos e agora é um sucesso. Mas o pensamento foge-lhe para uma recordação melancólica, como lhe acontece recorrentemente. Lembra-se dela, parece que a está a ver ali à frente a cantar, com a sala caída num silêncio rendido, o fôlego suspenso numa emoção, as almas enlevadas, prestes a rebentar em palmas e gritos de entusiasmada aprovação ao extinguir-se o último som que lhe sai do coração.

Recorda-a a servir às mesas e atrás do bar: É bonita, tem um sorriso tímido, faz o seu trabalho sem se fazer notar, mas sem uma falha. Lembra-se de entrar no restaurante durante a tarde, a uma hora em que está fechado ao público, e surpreendê-la sozinha no palco, sentada num banco alto a tocar a guitarra e a cantar de olhos fechados para a sala vazia. Ele fica ali parado de pé, espantado, a pensar que nunca ouviu uma voz assim. A música acaba, ela abre os olhos e fica embaraçada ao perceber que ele estava a ouvi-la sem que tivesse dado pela sua chegada.

Convence-a a cantar em público, procura músicos para a acompanharem, ajuda-a a começar a nova carreira, apaixona-se. Ela diz que o ama, que ele é tudo para si. Enche a sala todas as semanas, com a sua voz, com gente que vem para a ouvir. Grava um disco, passa na rádio, dá concertos. Parte em digressão pelo país e telefona-lhe um dia – ele lembra-se desse telefonema como se fosse hoje, com a mesma angústia –, diz-lhe que já não volta para ele.

Soube que ela vivia com um dos músicos da banda. Ela escreve-lhe uns mails dispersos, sempre que chega a uma terra nova. Ele nunca lhe responde e os mails são cada vez mais espaçados no tempo, até findarem definitivamente.

Ao fim da noite, depois de terem saído todos, só lhe resta fechar e ir para casa. Mas fica ainda um pouco a acabar a bebida, a fumar um cigarro, sentado no crepúsculo, à mesa do canto. À sua esquerda, a luz da rua entra pelos vidros da porta. Ela está ali parada a olhar para ele, meio rosto iluminado pela claridade de fora. Estava a pensar em ti, diz ele, sem se preocupar em fingir que não quer saber dela. O quê? A pensar se voltarias um dia. Nunca me fui embora, responde ela, na minha cabeça estive sempre aqui. Passa por ele um sorriso fugaz, pergunta-lhe se se quer sentar. Ela tira o casaco enquanto ele lhe serve uma bebida da garrafa em cima da mesa. Então, diz, conta lá por onde tens andado.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)