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Correio da Manhã

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Nostalgias (III)

Agora ela admite que fez asneira. Trocou o certo pelo incerto, o seguro pela aventura, deixou-se deslumbrar com o sucesso e a fama, sentiu uma confiança que de nada lhe valeu quando a vida se esboroou e ficou sozinha.
Tiago Rebelo 28 de Outubro de 2012 às 15:00
O homem estátua
O homem estátua

Vai tomar um café ao fim da tarde, farta de estar em casa a remoer tristezas e fracassos. Sai para espairecer. Entra numa pastelaria, escolhe uma mesa afastada do bulício alegre de um grupo de jovens que ri alto. Hoje em dia não consegue estar muito tempo tranquila no seu canto, porque as pessoas reconhecem-na e vêm falar com ela. No início era divertido, quando começou a ser conhecida pelas suas músicas que passavam na rádio, pelas entrevistas, os concertos, mas agora já não tem tanta graça. Enfim, faz parte da vida de artista, resigna-se, forçando um sorriso para os estudantes que já perceberam quem é e pasmam para ela com uma desconcertante impudência.

Terminou recentemente uma relação caótica com um músico da sua banda e sente um imenso vazio. Mas não é dele que tem saudades, pois reconhece que foi um erro e está bastante aliviada por ter acabado. O que a deixa angustiada é a consciência de que deixou o homem certo por um indigente moral e que o desprezou quando ele só merecia o melhor dela.

Quer voltar para ele, pedir-lhe desculpa, ficar com ele para sempre, mas não acredita que a perdoe porque ela própria, se estivesse no lugar dele, não teria a nobreza de espírito suficiente para a perdoar. Não obstante, reconhece que ele merece uma satisfação e que terá de ir ao seu encontro porque um telefonema não é suficiente.

Espera sentada no carro que o bar feche e os últimos clientes se vão embora. Olha para o relógio, passam dez minutos das três da manhã. Finalmente, respira fundo, controla os nervos, sai do carro, atravessa a rua.

Fica parada à entrada do bar, vendo-o sentado à mesa do costume, no canto à sua direita. Aguarda que lhe diga alguma coisa. Estava a pensar em ti, afirma ele. O quê?, pergunta. A pensar se voltarias um dia. Nunca me fui embora, responde ela, na minha cabeça estive sempre aqui. E nesse preciso instante compreende quão verdadeira é essa afirmação, estive sempre aqui, pensa, mais saudosa do que imaginava. Nota-lhe a sombra de um sorriso, uma desconfiança perpassando-lhe pela mente. Queres sentar-te?, convida-a. Ela tira o casaco, senta-se. Ele serve-lhe uma bebida.

Parece-lhe cansado, mas pode ser só a expressão grave, que não lhe é habitual. Mas depois ele descontrai-se um pouco e diz então, conta lá por onde tens andado. E uma esperança invade-lhe o coração e ela confessa de uma vez o arrependimento que a traz ali, a angústia que não a deixa dormir e a saudade que a faz infeliz.

Tiago Rebelo
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