Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
2

Notícias da Grécia

Em Julho de 2011, a imprensa grega publicava rios de artigos a explicar a semântica da "bancarrota selectiva". O país tinha acabado de receber a aprovação do segundo pacote de ajuda da troika. Era uma "janela de esperança", descrevia o diário pró-governamental ‘Ta Néa’. Em oposição, ao governo, diversos bloguistas e alguns colunistas de jornais como o diário liberal ‘Kathimerini’ acusavam o primeiro-ministro de pactuar com um plano para adiar a bancarrota. As medidas de austeridade amargaram com o tempo.
27 de Maio de 2012 às 15:00
A pressão das ruas é dilatada pelos jornais. A televisão é acusada de sensacionalismo
A pressão das ruas é dilatada pelos jornais. A televisão é acusada de sensacionalismo FOTO: Yannis Behrakis, Reuters

Foram precisos sete meses de negociações e uma reunião de 13 horas do Eurogrupo para se chegar ao acordo definitivo. A notícia caiu como uma bomba no país. O diário ‘Ta Néa’ já concordava com jornais como o financeiro ‘Naftemboriki’ ou o ‘Ethnos’ (centro-esquerda): as consequências da aprovação de um pacote suplementar de cortes de 22% no salário mínimo ou a dispensa de 15 mil funcionários públicos por ano seriam demasiado "dolorosas". Vaticinava-se o pior. Na semana passada, o Grupo de Trabalho do Eurogrupo deu um passo para o abismo: pediu aos países da Zona Euro para fazerem planos de contingência para a eventual saída da Grécia.

Na capital grega há 20 anos, Ana Maria Soares, professora de Português na Universidade de Atenas, conta que "alguns jornalistas [na comunicação social grega], que tentam ser mais neutrais, pedem a professores de economia estrangeiros para comentar a situação do país, e a verdade é que ninguém sabe o que vai acontecer. Os próprios jornalistas estão perdidos. Agora, têm uma tendência crescente para dramatizar a situação de maneira não objectiva. Avisam que vamos passar fome, vamos ter uma bancarrota. E não explicam."

Circulam pelo menos 22 jornais generalistas e mais cinco económicos diários em Atenas – semanários são 11. Há três televisões estatais (uma é um canal parlamentar) e outros nove canais em língua grega. Filippos Gavriilidis, um empresário grego a viver em Lisboa há cinco anos, explica que "a maioria dos jornais esconde dos leitores informações para dar vantagem ao partido que representa. Agora, uma coisa é comum a todos: escrevem sobre a pressão que vem da Europa". Agravada pelo fracasso eleitoral de 6 de Março e com o país parado à espera de novas eleições, marcadas, entretanto, para 17 de Junho.

A parcialidade dos jornais é uma queixa transversal a gregos e emigrantes portugueses. Para Ana Maria Soares, "a televisão exagera muitíssimo. Aumenta a especulação". Opinião partilhada pelo empresário Filippos Gavriilidis, que apesar de viver em Lisboa se mantém atendo à televisão grega. Destaca, porém, o trabalho da jornalista Elli Stai, moderadora de debates políticos na estação estatal ERT, porque "mostra que não é de nenhum partido".


A INCERTEZA DOS GREGOS

Nas ruas faz-se notar o sentimento de incerteza e medo. "As pessoas estão preocupadas. Só que para sabermos a verdade sobre a situação do país temos de ler quatro jornais diferentes " – diz a professora de Português.

Segundo o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres, em muitos países "os media estão claramente identificados com forças políticas ou ideologias". De positivo, o leitor sabe com o que conta – "enquanto que aqui em Portugal há uma certa hipocrisia porque essas opiniões estão escondidas". No caso espanhol, por exemplo, "o ‘El País’ está identificado com o PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol ] e o ‘El Mundo’ é o contraponto, mais colado ao PP [Partido Popular]. Nunca se compromete a seriedade profissional e ética porque o jornalismo é uma actividade que transmite factualidade".

Certo é que na Grécia se vive na incerteza. Zulmira Ferreira, a mulher do treinador Jesualdo Ferreira, há dois anos em terras gregas, conta que se "vê cada vez mais lojas a fechar. Mas, apesar de tudo, muitos gregos têm uma qualidade de vida incrível. Ao final do dia as esplanadas estão cheias. Consomem menos, mas não deixam de fazer a vida deles".

Filippos tem três filhos na universidade, mas já só um estuda na Grécia. "Os jovens não têm futuro. E o grego, quando vê que não tem futuro, emigra." Sentimento que se vai apoderando de Ana Maria Soares. "Tenho ponderado sair da Grécia. Não sei se o país tem futuro. Não sei é para onde posso ir. Portugal também está numa situação difícil."

Grécia Crise grega Eduardo Cintra Torres Zulmira Ferreira
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)