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NOVA IORQUE: A PROCISSÃO DO PADRINHO

Bem vindos ao cenário do ‘Padrinho II’, de Francis Ford Coppola. De 12 a 13 de Setembro, em ‘Litle Italy’, continua a celebrar-se uma procissão em honra de San Genaro, santo querido dos italianos.
28 de Setembro de 2003 às 15:10
Já se sabe que a ‘Big Apple’ é um caldeirão de raças e que a ninguém admira chegar à ‘Litle Italy’ e deixar de estar na Nova Iorque dos arranha-céus. As ruas são tão largas como as de Portugal, ladeadas por prédios com meia dúzia de andares, tijolos à vista e escadas por fora. É claro que também lá 'a tradição já não é o que era' e hoje já não há tantas marcas do que foi o nova-iorquino bairro italiano há quase um século. Todavia, em Setembro e, descontando os mafiosos (pelo menos no velho estilo...), o tempo parece voltar para trás.
O ‘mezzogiorno’ ou ‘meridião’ – traduzindo: o Sul de Itália - sempre se debateu com uma miséria desesperada. No final do séc. XIX, a industrialização do Norte, especialmente a ocorrida em Milão e Turim, atraiu uma infinidade de desafortunados mas depressa a lotação esgotou e o caudal virou-se então para além Atlântico. Com uma obsessiva força migratória de fuga à miséria, milhões de homens, mulheres e crianças viam no Novo Mundo a terra onde todos os sonhos eram possíveis. Onde tudo era... 'uma América'!
Nova Iorque foi a portão desse paraíso e no Leste-baixo de Manhattan estabeleceu-se a colónia italiana, num conjunto de quarteirões que, por comportarem tanta gente (qualquer andar era partilhado por duas ou mais famílias), passou chamar-se ‘Litle Italy’ - a ‘pequena Itália’. E eram mesmo muitos: no auge da imigração, até 1920, dizia-se que havia mais italianos em Nova Iorque do que em Roma!
Mas não vieram sós. Consigo trouxeram uma vasta herança cultural, que começa na gastronomia e na música e passa pela forma de estar, pela religião e pela imortalizada máfia. Muitas dessas coisas perduraram até aos nossos dias, embora cada vez mais haja menos italianos na ‘Litle Italy’ e se diga que entre a multidão que entope as ruas nas festas de San Genaro, metade é constituída por turistas.
O SANGUE BORBULHAVA
San Genaro (S. Januário) é o padroeiro de Nápoles. Porém, a sua devoção estendeu-se por toda a Itália e mesmo fora dela, Peru, Argentina, Venezuela, Brasil, entre outros, são países que lhe prestam tributo. Mas é em Nova Iorque que lhe é feita a maior das romarias. Sobre San Genaro não há certezas históricas. Sabe-se que foi bispo de Benevento, viveu no século IV e morreu mártir. Só que, porque houve duas personagens com o mesmo nome e percurso, não há unanimidade sobre qual delas será o santo. Mas isso importa? Existiu e pronto!
Mas há mais. Cem anos depois da sua morte, uma velhinha foi entregar ao bispo de Pozzuoli duas ampolas que dizia conterem sangue seco do santo, com uma particularidade espantosa: pelo menos três vezes no ano (no sábado anterior ao primeiro domingo de Maio, a 16 de Dezembro e a 19 de Setembro) o sangue liquefazia-se e borbulhava como se fervesse! Ali logo o milagre se confirmou e o Santo e a relíquia foram acolhidas numa igreja de Nápoles, estabelecendo-se o padroado.
Até hoje, milhões de pessoas assistiram ao milagre e a sua não ocorrência naquelas datas - ou em outras extraordinárias - é interpretada como presságio de desgraças. Num ano em que o sangue não ferveu num dia marcado, houve uma grande erupção do Vesúvio. Coincidência ou não...
UMA PROCISSÃO QUE NÃO SE VÊ
Em Nova Iorque, não há ampolas com sangue, mas réplicas com anilina vermelha. Imagens do santo propriamente dito há três: uma está numa capela da igreja, perto de outras relíquias; outra é exposta num grande oratório no adro do templo; a terceira é a que sai em procissão. Há ainda um busto forrado a ouro e prata que esteve ‘guardado’ na cave de um mafioso, durante muitos anos.
A procissão sai da igreja no dia do santo (19 de Setembro) e tenta furar entre a multidão compacta ao longo das ruas estreitas e semi-ocupadas por dezenas de esplanadas de ocasião (propriedade das cervejarias da área ou de outras tantas 'roulottes' de comes-e-bebes). Os festeiros lá vão abrindo caminho a muito custo e, frente a cada estabelecimento ou à casa de uma figura importante, pára-se o andor para que os seus donos prendam notas nas vestes do santo. Pelo meio, a banda toca música napolitana. Escusado será dizer que para se fazer o percurso de umas centenas de metros é preciso uma tarde inteira!
UMA MAR DE COMIDA
Devoções à parte, o que mais impressiona é o autêntico festival de comida. Nos restaurantes, comem-se especialidades italianas como as ‘pastas’ e ‘anti-pasti’, o ‘osso bucco’, a vitela parmigiana, a lagosta com 'ravioli' ou os mariscos grelhados com brócolos salteados, bolas de arroz, beringelas grelhadas ou alcachofras recheadas. Mas é cá fora, nas ‘vendas’ que há um indescritível arraial de petiscos. À cabeça, toda uma variedade de salsichas e outros enchidos (curados, cozidos ou grelhados) em monumentais sandes atulhadas de cebola, pimentos, tomate, alho e sabe-se lá mais o quê ou preparados fritos e na chapa, com apetitosos molhos. Há ainda os pratinhos de saladinhas variadas e dobradinha marinada (com tomate, alho, cebola, salsa, cenourinhas, alcaparras e azeitonas).
Para beber, nada como um belo vinho, mas também há muita cerveja e até Coca--Cola! E ‘grappa’, claro! Mas a festa de San Genaro é também para profissionais. Este ano, por exemplo, disputou-se o Campeonato Mundial de Comedores de ‘Canoli’ (uma espécie de churro ou fartura, recheada com doce e fruta cristalizada).
MEMÓRIAS DA MÁFIA
Na ‘Litle Italy’ há muitas lojas com recordações do tempo da máfia, ao lado de 'posters' dos ‘Padrinhos’ Brando, de Niro e Al Paccino. As ‘famílias’ ainda existem mas já não ‘trabalham’ por ali. Contudo, foi apenas há sete anos que o reinado terminou, quando as autoridades obrigaram a que as festas fossem organizadas por uma comissão independente.
De facto, a primeira edição ocorreu em 1926 e, tirando os anos da II Guerra Mundial e o pós o 11 de Setembro de 2001, o evento realizou-se sempre. E sempre com a benção dos ‘protectores’. Desde as roletas ambulantes (onde a maioria dos prémios saía ‘à casa’...) aos milhares de notas que eram presas às vestes do santo, tudo rendia. Os sucessivos párocos passavam a vida a lastimar-se pelo pouco dinheiro que lhes chegava às mãos...
Desde 1996, porém, a gestão da festa 'mudou de mãos' e com resultados palpáveis: só no ano passado, além do dinheiro pregado no santo ir todo para a paróquia, a exploração comercial de todas as festividades gerou a ‘módica’ quantia de um milhão de dólares, doados a instituições de caridade. Bendito San Genaro!
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