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Correio da Manhã

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Novas fábulas de La Fontaine

"Era uma vez...” Assim começa sempre os seus monólogos esta figura robusta, voz tonitruante, cofiando a barbicha grisalha.
Victor Bandarra 2 de Novembro de 2014 às 17:00
Victor Bandarra, cronista do 'CM'

Altivo, mala de couro engelhado entre mãos, é conhecido por Arquitecto. Não é um sem-abrigo, nem ele aceita o epíteto, apesar dos odores corporais e da garrafita de tintol colada ao corpo, no banco de jardim. Vive em quarto alugado mas, volta e meia, desaparece por uns tempos. Reaparece espampanante, escanhoado, casaco novo e uns dinheiritos no bolso. Imponente, informa a plateia do jardim que foi à terra ver as propriedades. Verdade que nunca o viram pedir um tostão. Pressente-se-lhe educação antiga e o seu vício de oratória são as fábulas, sobretudo as de La Fontaine. Meio tocado, acaba sempre a trocar os pormenores e as morais das histórias, sempre com graça a propósito, por mais barbas que a graça tenha. "Era uma vez uma formiguinha política que trabalhava todo o santo dia..." É a última do Arquitecto. "No gabinete ao lado, lá andava a cigarra política, cirandando feita barata tonta!" A meio, aponta feiíssimos nomes a ministros, deputados, governantes e políticos em geral, nacionais e estrangeiros. Os sem-abrigo profissionais, abrigados em vãos de escada, batem palmas ao Arquitecto. E segue a fábula – lá andava a formiguinha produtiva e séria em sua labuta incessante, das oito às duas da madrugada, porfiando pelo futuro de Portugal, do Estado e da família. E a cigarra, intriguista, botando piada aqui, boato ali, cantilena de escárnio e maldizer acolá. Findo o ciclo, chega o Inverno e a formiguinha, justamente, é convidada para digno e insigne cargo de directora-geral do ministério. Nessa noite, no aconchego do lar, retine-lhe o telemóvel. Quem havia de ser? A cigarra, pois claro! Para seus ilustres botões, a formiguinha cogita. "Queres batatinhas! Mas já vens tarde..." E a cigarra galhofeira. "Caríssima formiguinha! Tenho uma novidade para te dar!" E lá veio ela, de chofre. "Imagina! Um amigo meu, francês... por acaso até é conde... convidou-me para alto cargo em Bruxelas!" Embargada pela notícia, a formiguinha engole em seco. "Formiguinha! Se precisares de alguma coisa lá pelas europas, é só dizeres!" A formiguinha faz menção de desligar, com a devida moral. Finalmente, não resiste. "Só te peço um favor! Se vires por lá o La Fontaine… manda-o para o p*** que o pariu!"

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