Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

"Numa emboscada morreram seis"

Quando saíamos nunca sabíamos o que íamos encontrar. Podíamos nunca mais voltar, como aconteceu a vários camaradas de guerra.
15 de Setembro de 2013 às 15:00
Eu (ao centro) e dois camaradas na oficina do Cazombo junto ao motor de uma Berliet
Eu (ao centro) e dois camaradas na oficina do Cazombo junto ao motor de uma Berliet FOTO: D.R.

No dia 27 de julho de 1970 (dia em que morreu Salazar) assentei praça na Companhia de Instrução Auto2 da Figueira da Foz. Passei por várias unidades antes de ser mobilizado para Angola. Embarquei no navio Vera Cruz no dia 7 de julho de 1971, na Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Caçadores 3847. O jovem serralheiro de bancada, agora Mec-Auto ia conhecer uma nova vida. Os poucos dias que passei em Luanda, deram para conhecer a bela vida dos habitantes que lá viviam.

Dias depois, abalámos para o Leste (Cazombo) – conhecido como o ‘Quadrado da Morte’ Demorámos cinco dias a chegar. Passámos por lindas cidades, entre elas as que mais gostei – Nova Lisboa e Sá da Bandeira. No Cazombo, mal tivemos tempo para nos ambientarmos à 1ª coluna, de onde fomos encaminhados para destruir Caripande. Na 2ª coluna fomos com o Dr. Ruah à picada da Lóvua, tirar um camarada morto que se encontrava debaixo de uma Berliet. Essa, posso dizer hoje, foi a primeira ‘injeção’ que eu recebi sobre a perda de camaradas, sensação que, infelizmente, ia voltar a viver várias vezes ao longo dos dois anos e alguns meses que passei em Angola. De cada vez que isso acontecia ficávamos com a moral em baixo e, claro, temíamos pela nossa vida. Cada vez que saíamos nunca sabíamos o que ia acontecer no caminho, não sabíamos se íamos sequer voltar, era uma incerteza, dia após dia.

PERIGOSAS MINAS

Noutra picada, passados poucos dias, rebentou a primeira de muitas minas. As minas eram o nosso maior problema na guerra: imprevisíveis, tiravam a vida a muitos homens e provocavam muitos estragos materiais. Nas picadas Cavungo e Massibi, Lunache e Lumbala, Caianda e Gimbo, Calunda e Maconde, Marco e Teixeira e Chicá-Luége esse era o nosso dia a dia. Felizmente, a sorte foi-me protegendo ao longo dos meses, mesmo nos locais mais perigosos.

Foi o caso da subida da Calunda, onde um carro civil saiu para fora da picada. Ao tirá-lo, o cabo de aço da Berliet 4×4 rebentou e por sorte só o apanhei de raspão. No dia 31 de maio de 1973, fomos à Lumbala combater Catangas – tropas mercenárias – e acabámos por dormir aí. Voltei para Cazombo no dia 1 de junho. No dia seguinte, numa emboscada na picada Lumbala-Xilombo morreram seis camaradas fuzileiros entre eles, o Tenente Fuzileiro Piteira. Atravessei xanas – grandes extensões de capim a perder de vista –, rios e fiz milhares de quilómetros na picada. Não houve um único destacamento do batalhão que não tivesse lá ido e muitas vezes dormido. Quando voltámos a passar pelo local onde morreram os fuzileiros foi impossível não sentir revolta. Podíamos ter sido nós a ficar ali.

Nos últimos meses de comissão, nem os jogos de futebol me acalmavam. Discutia com os outros camaradas até por simples brincadeiras. Regressei no dia 13 de setembro de 1973. Hoje recordo as 200 e tal rações de combate que comi – o muito arroz – mas também a sã camaradagem que a guerra me deu. Conheci a Rainha Luena, o Zambeze, Catangas, Zambianos. Andei com todas as forças militarizadas com quem passei bons e maus momentos. Conheci locais lindos, mas como a área do Cazombo há poucas no Mundo. Mágoa não sinto, fiz coisas boas e más (foi a situação a impô-las). Mágoa sinto ao ver como os veteranos de guerra são tratados pelos nossos governantes. Fomos obrigados a deixar as nossas profissões e a ir para uma guerra que não escolhemos, mas lutámos pelo País, demos o melhor de nós e hoje somos esquecidos.

CARLOS CRISPIM

Comissão

Angola (1971-73)

Força

Batalhão de Caçadores 3847

Atualidade

64 anos. Vive em Setúbal. Casado, 1 filha e 2 netas

Carlos Crispim Guerra Colonial Guerra do Ultramar Angola A Minha Guerra Caçadores 3847 Cazombo
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)