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Numa ronda perto de si

A casa nunca foi roubada mas tem muitas trancas na porta. Maria Amélia prefere desfazer as voltas às chaves do que jogar pelo inseguro. “Chamam-me piegas, mas já me tentaram abrir a porta. E anda para aqui uma malta que escangalha as campainhas todas...”. O receio tem conserto: Programa Integrado de Policiamento de Proximidade (PIPP), o programa lançado há quase seis meses pela PSP que encurta a distância entre os agentes e a população em risco, sujeita ao pior dos riscos: o de estar só.
18 de Março de 2007 às 00:00
Dos 98 anos de Maria Amélia sobra lucidez para dar e vender, mas pouca gente com quem dividir as memórias dos tempos de manequim e das viagens com o falecido companheiro de uma vida à volta do Mundo.
Sobra a morada no bairro de São José, em Lisboa, onde o isolamento se lê na cara engelhada e lentes ultra graduadas de quem a sente, e na boca de quem a expressa. Sem reservas. “São um amor. Não se esqueçam de mim! Agradeço imenso porque ando sempre cheia de medo”. Cristina Cavaco e Ricardo Marques não se esquecem. “Se precisar, ligue-nos”, incentiva a dupla de agentes da PSP sacando do cartão com o número de contacto.
O vínculo, estreito, inscreve-se neste projecto com vistas largas. Uma família emprestada que diz presente nas rondas diárias e em ocasiões especiais. “Até estivemos na festa de anos da dona Amélia”, conta a agente Cristina, com indisfarçável ponta de orgulho. Arrancaram a 25 de Setembro mobilizados pelos vários comandos da PSP no País. Dezanove subunidades mostram o que valem num terreno que não se mede em metros nem centímetros, antes em afectos e zelos. Em Lisboa, a estreia cabe aos grupos da I Divisão.
PROJECTO PILOTO
O projecto piloto vai chegando às ruas, casas, lojas e escolas através da congregação de dois programas: por um lado, as Equipas de Proximidade e de Apoio à Vítima (EPAV), responsáveis pela prevenção e vigilância em áreas comerciais, áreas residenciais maioritariamente habitadas por cidadãos idosos, prevenção da violência doméstica, apoio às vítimas de crime.
Por outro, as recicladas Equipas do Programa Escola Segura (EPES), atentas à segurança e vigilância nas áreas escolares. Os resultados estão à vista de todos os que contactam directamente com as competências complementares à faceta repressiva da Polícia de Segurança Pública.
“São polícias mais soft. Vê-se a autoridade reforçada através dos laços estreitos de cooperação e segurança. Todos tiveram formação para este modelo de policiamento. Não envolve apenas questões criminais. Acompanhamo-las todas até à sua resolução. O projecto substitui os projectos Idosos em Segurança e Comércio Seguro.
Trabalhamos em cooperação com Centros de Dia, Juntas de Freguesia em Lisboa, em que estão envolvidos 66 polícias. Na valência de EPAV, cada zona tem duas equipas (12 elementos)”, explica o Subcomissário, Tiago Gonçalves, gestor local do projecto.
As freguesias com voto na matéria ganharam a eleição pelas suas especificidades bem vincadas. “Esta Divisão foi escolhida por motivos históricos, por estar situada no coração da cidade e integrar freguesias muito envelhecidas, como as de S. José e Coração de Jesus, a mais idosa do País”, acrescenta.
ILHAS À DERIVA NA CIDADE DAS GRANDES SUPERFÍCIES
A idade avançada é apenas um dos busílis na Lisboa onde cabem muitas lisboas. Há ilhas à deriva na cidade das grandes superfícies, bairros com a história estampada na mobília local, onde a castidade do pequeno comércio se confunde com o amontoado de prédios devolutos. Onde a candura aldeã roça com o turbilhão da urbe. Da Pena ao Martim Moniz. Regiões demarcadas, com muitos problemas por palmilhar. “Se apanhássemos boleia já não era policiamento de proximidade!”, observa com toda a propriedade o agente Marques.
O trabalho é apeado, de bloco e caneta em punho e olhos sagazes. Cristina não perde tempo a tomar nota de um sinal de trânsito à banda. É assim que os rostos e nomes dos cidadãos encaixam na memória dos agentes. E que as caras das duplas de farda azul caem no goto dos populares. Na visita à mercearia, ao restaurante, à barbearia, ao talho ou à padaria.
Deslizam pela Calçada de Santana, e por outras tantas vias pitorescas, com tempo para a amena cavaqueira. “Isto anda mais calmo. Tenho aqui uns bons colaboradores que têm dado muito apoio”, elogia a dona Maria, rodeada de hortaliças. “Não me diga que vai presa?!”, graceja uma vizinha que se aproxima dos visitantes.
Na rua, o estribilho do agente autoritário já só colhe como piada. A imagem agora é outra. “São polícias à imagem de um padre, a quem as pessoas se confessam. Algumas já funcionam como nossas fontes aqui nas ruas. Se têm uma inundação em casa já nem ligam para os bombeiros, ligam directamente para o ‘seu’ agente e quase preferem esperar por ele”, conta o Subchefe Sousa Dias, supervisor local da divisão.
Campanhas de sensibilização em centros de dia, auxílio no levantamento de reformas, acompanhamento de idosos com dificuldades de locomoção, sinalização de um prédio por emparedar, de um veículo abandonado, de um candeeiro sem luz, de um buraco na via pública, de uma passadeira com défice de tinta.
SITUAÇÕES DE INSEGURANÇA ESPREITAM EM TODO O LADO
As situações de insegurança, ou cifras negras, têm muitas caras e espreitam em todo o lado. Os turnos, flexíveis, arrancam pela manhã, seguindo-se as estiradas após o almoço, até às 21 horas. No final da jornada, cada equipa elabora o respectivo relatório a partir das anotações recolhidas ao longo do périplo.
“Está a correr cinco estrelas. Ainda há o conceito repressivo ligado à autoridade, mas estão a conseguir a aproximação com o cidadão. Temos problemas de insegurança, muitos idosos com carências económicas”, refere o presidente da Junta de Freguesia da Pena, Joaquim Ramos, dando conta de uma das iniciativas habituais. “Fazemos almoços temáticos com os agentes onde as pessoas colocam questões”.
Os pés das jovens equipas já se habituaram à dura quilometragem e ao sobe e desce das colinas alfacinhas. “Nestes bairros tipicamente idosos há muitas casas degradadas, outras já emparedadas”, assinala o agente Tavares. Também há jovens, que a bom tempo trocaram a falta de rumo e os dribles à autoridade pela colaboração com a PSP. “O trabalho vai bem? Talvez nos possam ajudar. Sabem quem arrombou a porta daquela casa abandonada?”, pergunta o PSP, junto de três amigos recentes. ‘Conheça o agente policial da sua zona. Nunca é tarde para ganhar um amigo’. O slogan por excelência da campanha pode ter custado, mas foi.
Tudo vai bem, quando começa bem. ‘Sensibilidade’ é um dos aspectos essenciais no perfil dos agentes envolvidos. Os totais nacionais apontam para 300 profissionais na rua. 600 receberam instruções para o efeito. Formação específica no sentido do apoio à vítima e compreensão do funcionamento das escolas são dois dos enfoques.
Em Novembro, o programa implementado em parceria com a Universidade Nova, incumbida da respectiva avaliação externa, saberá se será estendido a mais localidades no País. Apesar de ainda não serem conhecidos resultados objectivos, a receptividade geral parece recomendar o contágio à generalidade dos distritos nacionais.
“Não tem havido problemas”. A réplica à presença das duplas pouco cambia quando estas sondam o ambiente. Garante o senhor Barata, da loja de Conveniência, enquanto oferece um café. E garantem não muito longe, na zona do Coração de Jesus, os lojistas que vão vivendo a retalho, com fé no reclamo mais fluorescente: ‘continue a comprar no comércio tradicional’.
Da rua de Santa Marta ao Marquês de Pombal, todos conhecem o sorriso dos agentes Flávia e Moreno. “Ainda é um bairro sossegado, mas a vossa presença tem influência. O que seria de nós sem a autoridade?”, reconhecem no pronto-a-vestir Savage. A vizinhança do antiquário junta-se aos elogios. “Gosto muito que passem e de falar um bocadinho”.
Mesmo quando a impessoalidade cresce, na zona do Conde Redondo ou na rua Luciano Cordeiro, o serviço não amansa. A visita à Junta de Freguesia do Coração de Jesus, outra das parceiras chegadas das acções policiais, é regular. “Amanhã temos aqui uma entrevista com um menor que não quer estudar e com uma psicóloga”, revela Flávia, enquanto se inteira do número de inscrições de idosos para a festa do Comando da PSP. Chegam às 180, em contagem decrescente para a hora do lanche e da festa. Um deles aguarda ansioso a chegada de outro par de agentes: Sandra e Elizabete, mobilizadas para a zona 7 da I Divisão.
“Tem 93 anos. Vive sozinho, só tem um sobrinho. Já foi vítima de burla... Disseram-lhe que eram da Junta e pediram-lhe um adiantamento para o levarem para um lar. Nessa altura, mal saía de casa. A vizinha é o elo de ligação”, resume Sandra.
Edmundo recuperou forças depois da investida matreira. Não gosta de sol em casa. Cerra os estores como quem fecha os olhos para não enxergar o perigo, mas, sempre que o astro rei espraia os seus braços, não dispensa uma passeata até à Pastelaria Suíça. Nascido no interior do Castelo São Jorge, vive paredes meias com o Hospital de São José há mais de 30 anos.
POLICIAMENTO DE PROXIMIDADE
Graças ao policiamento de proximidade reencontrou a confiança para voltar a abrir a porta de casa quando tocam à campainha. Ainda que as visitantes mais assíduas se contem pelos dedos. Dois dedos de conversa e conforto que as jovens oferecem de bom grado para abafar o desejo de partir. Que há muito arrefeceu a vontade de ficar. “As agentes são uns amores”, gaba o idoso, acomodando-as no sofá. “Não reparem, que é uma casa pobrezinha”. A dupla faz vista grossa.
Mas é difícil não escrutinar as pilhas de comprimidos que forram a mesa da sala e a sina diária, ou a lágrima que se escapa do olho quando a emoção de Edmundo corre mais veloz. Um afago na mão aligeira o discurso. Um beijo carinhoso carimba a despedida e certifica que o nonagenário segue na lembrança para além do expediente.
Falta pouco para terminar o roteiro, que contempla uma paragem na igreja paroquial. “Que agentes tão simpáticas”, lançam pela rua, enquanto se distribuem ‘boas tardes’. O rubor instala-se nas faces de Sandra e Elizabete, sem toldar o sentimento de missão cada vez mais cumprida. Na descida da Calçada do Garcia para o Rossio passam o testemunho. “Esta é a melhor zona!”, espicaçam com bom humor os colegas Ibraimo e Duarte, que seguem a marcha pela freguesia de Santa Justa.
A população flutuante engole a idosa em manifesta escassez nos edifícios da Praça da Figueira. Impera o apoio ao comércio durante o corrupio diário de gente. “Estamos satisfeitos. Os agentes vêm sempre visitar-nos”, atesta Fernanda Oliveira quando a PSP se precipita para a retrosaria. Ao lado, na histórica Havaneza de São Domingos, Carlos Soares secunda a opinião.
“Nesta zona o trabalho é mais puro e duro, com muita recolha de informações para o departamento criminal”, elucida o subchefe Dias durante a viagem pelo coração da Baixa. E se um esgoto destapado se intrometer na paisagem? Os agentes registam e agilizam solução. “Já caiu gente aí”, alertam. Os transeuntes interrompem o percurso para espreitar as manobras na via pública. E realizam que nem sempre ‘onde há um polícia, há confusão’.
A mensagem envolve a comunidade. Até nas artérias onde a cidade mais fervilha e onde o som do Fado se funde com o da Kizomba. “O polícia mudou do oito para o oitenta. O conceito de policiamento tem vindo a adaptar-se à sociedade.
Quando andava na escola, o polícia não devia rir-se sequer, devia manter a postura”. A postura é outra, a compostura mantém-se, ainda que a tristeza se instale quando algumas causas ficam pelo caminho.
O polícia que vai a casa e à loja demora-se em outros esforços. Junto de quem não tem nenhuma das duas. Nem quer. “Ali está o senhor Porfírio. Conseguimos que saísse da rua.. mas voltou a mendigar”, lamenta Ibraimo, acercando-se do sem-abrigo. “Tem para onde ir, mas como tem de cumprir regras num albergue... Um irmão até está receptivo a acolhê-lo”. A noite cai, a esperança mantém-se de pé. “Umas ganham-se, outras perdem-se... mas não desistimos”, frisa o Subchefe.
Seja qual for o desafio seguinte, uma coisa não perdem de vista: o ganho está próximo.
ESCOLA SEGURA E MAIS PREVIDENTE
“Sem cadeirinha é perigoso”, balbucia uma voz com três anos. A lição está na ponta da língua. Do Pré-escolar ao Secundário, todos reconhecem os ensinamentos e os uniformes azuis que dão seguimento ao projecto Escola Segura, lançado no ano lectivo 96/97, agora em novos moldes. “A base é preventiva.
Todos os dias estamos na rua. Há escolas onde a certas horas estamos sempre. Já nem ligam para a polícia ou para o 112, ligam logo para o nosso telemóvel. Sentem a falta se não estamos lá”, explica o agente Tomás Lacerda. Novos problemas e novos desafios estão na mira das duplas de agentes no âmbito da valência EPE do programa de proximidade. “Fazemos muitas diligências devido ao abandono escolar e, por vezes, deparamos com estas realidades chocantes”.
A proximidade firma-se com outras intervenções activas e campanhas de sensibilização. O trabalho é de bastidores mas visa benefícios aos olhos de todos. O PSP não se limita a participar os casos e enjeita cada vez mais a figura de bicho papão. “Ainda se ouve dizer: ‘Se não comes a sopa chamo o polícia!
Se a criança um dia precisar dele, tem receio’”, lembra a chefe Sandra Augusto. “O espírito é envolvermo-nos e não descansarmos até que os problemas sejam resolvidos, pressionando as entidades, sendo ‘chato’”. O trabalho do polícia que “não passava da escola para a frente” envolve agora toda a comunidade. Faz-se por ela. E com ela. Com os miúdos e os graúdos.
O renovado Grémio Liberal, em Campo de Ourique, é um dos pontos de paragem. “Aqui vamos agendar uma acção de sensibilização e prevenção rodoviária com os mais pequenos e outra sobre toxicodependência com os mais velhos”. A cooperação é assente. A escola é mais uma que entranhou a presença assídua da PSP.
SUBINTENDENTE LUÍS ELIAS, DIRECÇÃO NACIONAL PSP
Quais são as grandes vantagens deste projecto?
O relacionamento dos polícias com os cidadãos é mais humanizado e tem objectivos definidos. O programa pretende reformular o patrulhamento tradicional, essencialmente aleatório. Tentamos que sejam sempre os mesmos agentes a policiarem os mesmos sectores. E que tenham uma relação estreita com outras valências policiais (investigação, trânsito, etc.)
O programa segue o modelo dos países pioneiros?
O PIPP é uma adaptação à realidade portuguesa.É uma longa tradição na Grã-Bretanha, nos E.U.A e em outros países europeus.
Em Portugal e concretamente na PSP já se praticava o policiamento de proximidade, mas quisemos congregar os projectos existentes que se encontravam algo espartilhados.
Que balanço é possível fazer até à data?
O ‘feedback’ é muito positivo. É inovador o facto de procedermos a uma avaliação externa. Entre Novembro e Dezembro foi feito um estudo preliminar.
Em Novembro de 2007 procederemos à segunda fase da avaliação. No início de 2008, em princípio, o programa poderá ser alargado a outras zonas.
PROJECTO DE POLICIAMENTO DE PROXIMIDADE
De norte a sul do País, o PIPP visa sistematizar mecanismos de articulação entre as valências de prevenção da criminalidade e policiamento de proximidade e as valências de ordem pública, investigação criminal e informações policiais.
Agentes de 19 subunidades da PSP trabalham já no terreno. No final do ano, prevê-se a extensão do projecto a outras localidades.
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