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“Nunca me esqueci do vale da morte um só dia que fosse"

Estávamos na fronteira com a Tanzânia e completamente isolados. A nossa companhia perdeu sete homens na guerra.
Marta Martins Silva 18 de Fevereiro de 2018 às 11:50
“Nunca me esqueci do vale da morte um só dia que fosse"
“Nunca me esqueci do vale da morte um só dia que fosse'

Chegámos a Moçambique, à cidade da Beira, em fevereiro de 1972 a bordo dos boeings que o governo   de   Marcelo   Caetano   tinha comprado para fazer o transporte de tropas para África. Dali partimos para Porto Amélia   e   só depois   o   nosso   destino   final:   o aquartelamento Tartibo, junto ao rio   Rovuma.  

Do   outro   lado   da fronteira estava a Tanzânia, ali tão perto. Batizámos este sítio de Vale da Morte porque estávamos completamente isolados. Um piloto de helicópteros   que   um   dia   foi   fazer abastecimento acompanhado   por   um   caça   terá   dito: "Porra,   é   uma   sensação   muito   estranha   que   se   vive   aqui   em cima, até parece que estes gajos foram mandados para morrer".

Pensei nisto toda a vida, nunca me esqueci do Vale da Morte um dia que fosse, só quem passou pela guerra do Ultramar é que sabe.

Aquela zona era muito difícil por ser uma zona de fronteira. As bases   da   guerrilha   estavam   na Tanzânia   e   eles   atravessavam   o Rovuma   e   faziam   bases   para   se abastecerem de material de guerra. Morreram-nos sete camaradas e só não tivemos mais baixas porque tivemos um capitão à altura; chamava-se Gabriel Monteiro Magno de Barros, conhecido por Capitão Pistolas, porque usava duas pistolas de cowboy e era um homem que tinha uma pontaria extraordinária. Na guerra era um por todos e todos por um, por isso quando algum homem morria vínhamos abaixo moralmente.

Mortes de amigos
Todas as mortes me custaram, mas mais   a   de   Carlos   Teixeira   e   a   do Aguiar, que tiraram a recruta comigo. Um morreu de acidente: estava de guarda a uma ponte de madrugada e deixou-se dormir no caminho de ferro. O cansaço era tanto que a gente não sabia quando era sábado ou domingo, o camuflado era sempre vestido e passavam-se dias e dias a suar na mata sem alternativa para coisa nenhuma.

Já o Aguiar   morreu   por   causa   do   rebentamento   de   uma   mina   num carro de transporte de explosivos, junto com o Carlos Santos, também da minha companhia, que ia ao   lado   dele.   Foram   logo   dois   de uma assentada. Para se andar quatro quilómetros, tinha que se picar quatro ou cinco horas porque não sabíamos onde as minas estavam postas, bem como picar o terreno. A nossa coluna estava sempre a ser atacada e houve um dia em que um pelotão da minha companhia saiu e foi fazer a picagem para a coluna que   vinha de   Palma...   Acontece que três guerrilheiros da Frelimo com kalashnikov atravessaram-se à   frente   dos   picadores   e   fizeram fogo para matar os que vinham à frente, só que eles foram mais rápidos, atiraram-se para o chão e mataram dois dos guerrilheiros. É claro que estas coisas trazem sempre represálias.

Eles queriam vingar–se e, mais tarde, puseram minas de fornilhos em que a gente sem se dar conta tropeçava num arame, provocando   uma   explosão.   Eles levavam horas e horas a escavar a picada   por   baixo   para   fazer   esta armadilha,   mas   resultava,   tanto que numa destas morreu um camarada nosso. Ficou de tal maneira que eu até andei a apanhar bocados   de   carne   para   meter   num pano de tenda para o helicóptero o levar para Moeda - ele ficou completamente desfeito.

Quando se deu o 25 de Abril, andava em operações no mato, o transmissões recebeu uma mensagem   a   dizer   em   código   que mandavam   regressar   todas   as tropas aos quartéis porque se tinha dado um golpe de estado na metrópole.

Nessa altura, o nosso capitão já não era o Pistolas, era o António José Correia do Ouro e viemos   para   Vila   Fontes   fazer proteções   aos   comboios,   com Carga Critica para a Barragem de Cahora Bassa, de Inhaminga a Sena   Mutarara.   Dois   meses   depois da revolução, embarcámos na cidade da Beira com destino a Lisboa. Hoje há quem nos veja como os maus da fita mas nem éramos assim tão maus, nem merecíamos ter sido esquecidos.

EX-COMBATENTE
Nome 
Dário Venâncio
Comissão
 Moçambique (1972-74)
Força
Batalhão de Artilharia 3877 Cart 3506
+ Info
66 anos, é casado, tem duas filhas e dois netos

A Minha Guerra Moçambique Dário Venâncio
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