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Correio da Manhã

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O adeus da craque portuguesa

Aos 38 anos, Ticha Penicheiro abandonou a competição. A atleta da Figueira da Foz recorda a carreira no basquetebol nos EUA
7 de Outubro de 2012 às 15:00
Ticha vai continuar nos EUA, a agenciar atletas
Ticha vai continuar nos EUA, a agenciar atletas FOTO: Luís Manuel Neves

Nos dias de chuva, a bola de basquetebol dava lugar à de ténis. Os irmãos Patrícia e Paulo Penicheiro faziam da sanefa dos cortinados o cesto e dedicavam-se ao desporto na casa dos pais. "A minha mãe não achava piada nenhuma ao facto de nós partirmos a casa toda. Era difícil para ela aturar-nos."

Patrícia, mais conhecida por Ticha Penicheiro, recorda assim a infância na Figueira da Foz, onde deu os primeiros passos na modalidade que lhe deu fama e sucesso. Aos 38 anos, acaba de anunciar o fim de uma carreira brilhante, que a consagrou como rainha das assistências na WNBA, a liga americana de basquetebol feminino.

EQUIPA DE RAPAZES

O gosto pelas bolas ao cesto corre há muito na família Penicheiro. O pai, João, jogou basquetebol e era treinador no Ginásio Figueirense. Aos dez anos, Ticha queria competir, mas não havia equipa feminina para o seu escalão etário. "Ela começou a jogar na equipa de mini-basket. Jogava com rapazes. Ao princípio, eles estranharam, mas, de facto, ela jogava melhor do que muitos deles, por isso, a integração foi pacífica", conta João Penicheiro.

Quando subiu de escalão, Ticha teve a primeira experiência de viver longe dos pais. A Federação Portuguesa de Basquetebol ia organizar o Campeonato Europeu de cadetes e conseguiu reunir em Rio Maior a selecção nacional de cadetes. As atletas, ainda adolescentes, viveram e treinaram juntas durante todo o ano escolar para preparar o campeonato. "A Ticha respirava basquetebol todos os dias. Era a sua paixão. Só a víamos aos fins-de-semana, quando íamos assistir aos jogos da equipa", lembra o pai da atleta.

A fase seguinte foi a universidade. Ticha trocou a Figueira da Foz por Santarém, onde iniciou o curso de Jornalismo, ao mesmo tempo que jogava no União de Santarém. Foi aí que começou a ganhar forma a ideia de partir para os Estados Unidos, muito por culpa de uma adversária que jogava na Amadora. "Havia uma jogadora americana nessa equipa, a Allison Green, que jogou em Portugal durante um ano e depois regressou aos Estados Unidos. Ela tornou-se treinadora adjunta na Universidade de Old Dominion e convidou-me a ir jogar para lá", conta Ticha.

A ideia de ir para a América tornou-se uma certeza na cabeça de Ticha, mas ainda estava longe de imaginar que poderia tornar-se jogadora profissional. Chegou a Norfolk, no estado da Virgínia, para aprender. "Quando parti para os EUA tinha 19 anos. Foi difícil deixar a família e os amigos para trás. A minha ideia era tirar o curso e melhorar o meu jogo. Pensava regressar à Europa ao fim de quatro anos, até porque ainda não existia um campeonato profissional para mulheres na América", lembra Ticha.


LUGAR CERTO NA HORA CERTA

A sorte sorriu à atleta portuguesa durante a estadia na América. Em 1996 arrancou a primeira experiência de liga profissional feminina na América. A liga ABL despertou o interesse de várias equipas, mas no ano seguinte surgiu a WNBA, que rapidamente se consolidou como uma competição capaz de levar os entusiastas do basquetebol aos pavilhões durante a pausa de Verão do campeonato masculino da NBA. Ticha soube esperar pela sua oportunidade.

O pai, João Penicheiro, lembra esses tempos. "No primeiro ano da WNBA, a Ticha ainda estava na Universidade de Old Dominion. Percebemos que, nesses primeiros tempos, a nova liga serviria sobretudo para receber as grandes estrelas americanas. A Ticha tentou a sua sorte no ano seguinte. Em 1998, foi a segunda jogadora a ser escolhida no Draft [o processo pelo qual as equipas escolhem as atletas que vêm dos circuitos universitários] e foi parar às Sacramento Monarchs, onde viria a ganhar o título de campeã."

Ticha Penicheiro tornou-se rapidamente numa das estrelas da equipa. Com 1,80 m de altura, agarrou a posição de base e ganhou o estatuto de rainha das assistências. Ainda hoje detém o recorde de assistências – fez 2597 passes para as colegas marcarem cestos – da liga norte-americana.

O momento mais alto da carreira da portuguesa aconteceu em 2005, quando as Monarchs ganharam o título de campeãs em casa, perante o seu público. "Foi o dia mais feliz da minha carreira desportiva. Só tenho pena de não ter conseguido repetir essa vitória", diz Ticha. As atletas receberam o anel de campeãs – que Ticha não usa por ser "muito pesado e masculino" – e foram recebidas na Casa Branca pelo presidente George W. Bush. "Foi uma alegria incrível."

ENTRE A EUROPA E OS EUA

Uma vez que o campeonato americano se disputa apenas no Verão, Ticha habituou-se a jogar na Europa durante o Inverno. Jogou em clubes como Gdynia (Polónia), Parma (Itália), Ekaterinburg (Rússia), Valenciennes (França), Spartak Moscovo (Rússia) – clube pelo qual ganhou a Euroliga –, Riga (Lituânia) e Galatasaray (Turquia), somando títulos pessoais e colectivos. Um esforço que lhe custou alguns dissabores. "A Ticha nunca parou de competir e isso reflectiu-se em lesões", conta João Penicheiro.

Na América, Ticha jogou em Los Angeles e acabou a carreira em Chicago. Na WNBA, os ordenados são tabelados. Variam entre os 30,7 e os 84,6 mil euros anuais, conforme os anos de carreira. Ticha saiu de cena ao fim de 15 épocas na WNBA, com salário de topo e o nome no livro de recordes.


AGENTE A CAMINHO

Apesar de ter arrumado as botas de competição, Ticha vai continuar a viver na América, onde tem casa na cidade californiana de Sacramento. Solteira, já tem planeado como será o seu futuro profissional. "Vou dedicar--me ao agenciamento de atletas, já comecei a fazer contactos e as coisas estão bem encaminhadas", explica. Os pais, o irmão e o sobrinho vão continuar a vê-la pouco por terras lusas, até porque Ticha está a tratar do processo para lhe ser concedida a dupla nacionalidade, portuguesa e norte-americana. "Houve uma altura em que pensei pedir a cidadania norte-americana, para ter a oportunidade de ir aos Jogos Olímpicos, mas a questão não se chegou a pôr." Mas a mulher que vestiu por mais de 100 vezes a camisola nacional não tem dúvidas de identidade: "Sou muito orgulhosa das minhas raízes portuguesas."

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