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Correio da Manhã

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O amor está no ar

Não, não é tudo ao molho e fé em Deus. Há regras, explicadas na zona de embarque do Aeroporto de Lisboa. Elas ficam sentadas à janela enquanto os homens saltitam de assento em assento; ninguém tem apelido nem aliança; cinco minutos é o tempo máximo de troca de palavras.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
“Skydate” – ‘encontro no céu’ – chamou-lhe quem, na companhia aérea SkyEurope, olhou para o clube dos corações solitários não destituídos de recursos financeiros e viu uma oportunidade de negócio. O avião já descolou. Lisboa fica lá em baixo. Senhoras e senhores, “faites vos jeux!”
“Olá! Posso sentar-me?” O que já se sentou é um homem jovem, moreno, de cabelo claro e sotaque cantado. Não, não é do ‘Cont’nente”.
É de S. Miguel, desterrado em Alverca. Não é célebre a vida nocturna em Alverca. Por isso, volta não volta, ele vai com os amigos aos bares de Lisboa. É a vida. Pois é. Enfim. Salvos pelo carro das bebidas que chocalha no corredor. “Coffee? Water?” sugere o comissário de bordo, desafivelando um sorriso metade cúmplice e a outra metade brejeira.
O tempo acaba. O ilhéu passa para o banco de trás a sorver o café. Pelo porte, é marinheiro capaz de ter companhia feminina em terra. Mas isso não significa que desperdice marés propícias no ar.
O quarentão precocemente calvo vem abespinhado. Então não é que há mulheres que dormem – são três da manhã – e não se dignam a abrir a pestana quando um cavalheiro se senta? “É uma falta de respeito! Todos sabem ao que vêm. Isto é um ‘skydate’!” Então e Viena, Mozart, a princesa Sissi da Baviera e tal?
Conversa. Na vida, o que importa não é o destino mas a viagem. Nunca o aforismo soou tão exacto. E ele já conhece a capital austríaca. Já lá esteve duas vezes, uma delas, há dez anos, com a esposa. É um homem viajado. Tal como a nau Catrineta, tem muito que contar e ataca qualquer insinuação de silêncio na conversa com o relato daquela vez, quando atravessou África de automóvel com um amigo e depois... Muda de lugar.
O senhor que se segue é um homem do Norte. Tem duas casas: uma à beira-mar e a outra na serra. É um homem sério. Traz uma camisa com colarinhos aprumados e um único botão fora da casa – deve ser a terceira. Trabalha na área dos materiais de construção. Há-de aproveitar uma das tardes em Viena para pôr o serviço em dia.
Quanto aos amores, tal como canta SG, “são facas de dois gumes” – de um lado “têm a paixão do outro os ciúmes”. E os que não são facas são cacetes, mocas, marretas e outros utensílios de bater. O homem do Norte é solteiro mas já lhe bateram. “Houve uma em especial que me ‘bateu’.” Fala dela e as rugas dos cantos dos olhos pequenos juntam-se umas às outras de maneira que parecem multiplicar-se. Ela não era o que ele pensava. “As pessoas não têm paciência umas para as outras. É tudo muito rápido.” Essa é que é essa. O homem do Norte tem de passar para o banco de trás. Leva sob os colarinhos engomados uma amargura fininha.
Os ventos fortes assolam a Europa Central. O avião ressente-se. Turbulência. Ouvem-se gritinhos femininos. O medo disfarça bem a excitação. “O alcatrão está todo esburacado!”, galhofa o moreno reluzente, camisa aberta no peito e gel no cabelo curto com ligeiro bico à frente, antes de deixar-se cair no assento. O segundo nome dele é descontracção. Só não pousa o sapato brilhante sobre o joelho oposto porque não há espaço – afinal, o amor está no ar mas voa em “low cost”.
Risco, gestão de risco é a profissão que diz ser a dele. Tanta responsabilidade. Tanto stress. Tantas viagens. Não lhe deve sobrar tempo para encontrar a alma gémea. “O que é isso da alma gémea?”, filosofa, baixando ligeiramente as pálpebras sobre o sorriso branco a fazer-se sonhador, à espera de resposta. Ora, ainda bem que faz essa pergunta, mas assim de repente... O tempo acabou. Passa atrás.
UM FRUFRU DE TECIDO
Há um frufru de tecido a roçar nos bancos. É como se a turbulência afectasse apenas, sobremaneira, os lugares da coxia, obrigando os passageiros a saltar sucessivamente. Homens aguardam que outros libertem o assento. Duas ou três mulheres manifestam desinteresse em voz alta. “Quero dormir... qual ‘skydate’ qual carapuça.”
Desdenham. É a cartilha feminina da sedução em dois capítulos: recuos e avanços. São 18 – oito são enfermeiras e vêm em grupos –, mas sobram os dedos de uma mão para contar as que assumem pretender conhecer homens disponíveis para amar. O que move as outras é, ou pelo menos parece, exclusivamente o desejo de conhecer Viena.
“Dá licença?” Quem pergunta já entrou na casa dos 50 anos. É uma excepção à regra da relativa juventude do grupo masculino em busca de encontros talhados no céu. Há outra – um homem que veio ao ‘skydate’ com o filho. O que se ajeita aqui ao lado tem gestos delicados, puxa as calças antes de sentar-se e sorri. O trejeito simpático permanente acentua-lhe a flacidez das bochechas. É funcionário dos Correios.
O olhar procura distracção no presságio cor-de-laranja para lá da janela. Uma faixa refulgente arrasta a aurora como se fosse um pano de cenário. O avião parece tocar-lhe com a asa direita sem causar-lhe qualquer dano.
“O Sol! Também quero ver...” Tanto quer que se inclina para o lugar que não é o dele. Homens na coxia! De volta ao assento que lhe destinaram, fala, fala, fala. Usou a máquina zero para cortar pela raiz o mal da falta de cabelo prematura. Tem óculos de aros escuros e ar de geniozinho. Diz que é engenheiro informático. Há outros homens com profissões ligadas aos computadores no avião do amor.
Falta tempo para cada um dos 21 homens travar conversa com cada uma das 18 mulheres a bordo. Passa das seis da manhã. O comandante anuncia a aproximação à pista. “Fasten your seat belts” (apertem os cintos de segurança). Os rostos denunciam cansaço. Houve quem tivesse metido o dia de férias mas a maioria trabalhou sexta-feira. Neva em Viena de Áustria. Os ombros crescem para as orelhas. Manobra vã contra o frio. O grupo apressa-se na direcção do autocarro que vai levá-lo ao hotel.
O esforço de sedução continua à noite, numa discoteca. No regresso a Lisboa, amanhã, os “skydateres” hão-de formar um ruidoso grupo excursionista. Eles contarão anedotas e vão cantarolar “ponho o carro, tiro o carro à hora que eu quiser... na garagem da vizinha...” Elas hão-de simular o pânico nos instantes de turbulência. Todos vão rir-se por tudo e por nada. Haverá qualquer coisa no ar. Será... amor?
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