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O ANO DA CEGONHA

A cada dez anos contam-se as cegonhas de todo mundo. Em Portugal a contagem começa em Março e qualquer pessoa pode participar na aventura. Basta consultar um "site"
8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
O biólogo Gonçalo Rosa tinha quatro ou cinco anos quando começou a contar cegonhas. A estranha actividade tinha-lhe sido incutida pelos pais, que dessa forma conseguiam entreter os filhos nas longas e aborrecidas viagens rumo ao Algarve, onde costumavam passar férias.
O passatempo era repetido anualmente, quase sempre no primeiro dia de Agosto. Estávamos na década de 70, o caminho pela velhinha estrada nacional chegava a demorar 12 horas. No carro, Gonçalo e o irmão contavam cegonhas como se de um concurso se tratasse, vencia aquele que visse mais – à falta das simpáticas aves, os camiões de palha, tão habituais naquele itinerário, também serviam.
Gonçalo achava graça à brincadeira e deixava os pais entregues aos muitos quilómetros por percorrer. Estava longe de imaginar que mais de duas décadas depois esse passatempo tornar-se-ia numa das tarefas mais importantes do seu trabalho. Entre Março e Julho, o biólogo, hoje com 32 anos, vai juntar-se a dezenas de outras pessoas que irão contar cegonhas. Agora já não se trata de um passatempo.
Durante aqueles cinco meses, as cegonhas-brancas serão alvo de um censo mundial dinamizado pela BirdLife International (BI), uma confederação de mais de 100 países, com sede em Londres. A organização luta pela conservação das aves selvagens e do seu habitat, sendo representada em Portugal pela Sociedade Portuguesa para Estudos das Aves (SPEA).
Será este organismo que, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza (ICN), fará o trabalho no nosso país. As duas instituições repetem um processo levado a cabo de dez em dez anos, e prometem identificar os ninhos espalhados de Norte a Sul do território.
Não vai ser fácil, como nos explica Gonçalo: “Existem zonas do Norte de Portugal onde o número de ninhos é reduzido, e isso desmotiva as pessoas. Além do mais, as características do terreno dificultam a contagem, em especial quando as cegonhas fazem ninho em regiões montanhosas ou ravinas.”
A ajuda da população Chegar a uma contagem precisa de cegonhas-brancas obriga a um esforço conjunto. SPEA e INC esperam ter o total apoio da população, que em Março poderá aceder aos formulários através da Internet (www.spea.pt).
A ideia é simples, não tem custos e tenderá a envolver um grande número de curiosos da natureza. Eles ficarão com um papel importante no processo e ajudarão na observação de todo o território.
Alexandra Lopes, directora administrativa da sociedade, revela-se optimista quanto à colaboração de voluntários: “A ‘net’ será a forma mais rápida e eficaz de chegarmos a todas as pessoas. A nossa página ‘on-line’ terá uma área só para o censo, e quem estiver interessado em colaborar terá apenas de imprimir o formulário, preenchê-lo quando localizar um ninho e enviá-lo para a nossa sede.”
O projecto vai ainda estender-se a escolas, associações de escuteiros e câmaras municipais. No ano em que todos falam do Campeonato Europeu de Futebol, os ambientalistas pretendem marcar pontos e mostrar que os portugueses não apoiam só a selecção nacional. Dentro de pouco mais de um mês, muitas crianças que frequentem escolas onde o projecto será divulgado terão oportunidade de passar pela experiência que Gonçalo Rosa viveu quando tinha a idade delas. E poderão dizer, orgulhosas, que contribuíram para um trabalho importante. Afinal, toda a ajuda parece pouca na tarefa da contagem de cegonhas-brancas.
Uma espécie em crescimento A divulgação de 2004 como ‘o ano da cegonha’ não representa qualquer resposta ocidental aos chineses, que entraram há pouco tempo no ‘ano do macaco’. E nem sequer se trata de inveja. É antes uma maneira de dar relevo à contagem da espécie, que em meados da década de 90 viveu um período complicado um pouco por toda a Europa.
Em 1994, data do último censo, havia 3302 casais de cegonhas-brancas em Portugal. Na região de Aveiro, por exemplo, os números eram dramáticos, chegando a falar-se da possível extinção das aves naquela região.
Mas sopram ventos de mudança. Apesar de ainda não ser possível apontar dados exactos sobre o número de casais existentes neste momento, os membros da SPEA fazem apostas para ver quem fica mais próximo da realidade. Embora não divulguem os palpites, falam de um aumento considerável do número daquelas aves existente no território.
Alexandra Lopes está ansiosa por saber os resultados da contagem. Durante os últimos dez anos, foram vários os esforços para que os números indiquem um aumento de aves dessa espécie. Ou, na pior das hipóteses, que esteja estável.
O sucesso prende-se com vários factores. Um deles foi a colocação de plataformas-ninho em postes de alta tensão, que teve também uma vertente educativa. Mas não só.
Os resultados divulgados pelos vários países envolvidos serão mais tarde compilados e publicados numa obra que servirá de referência sobre o estatuto da espécie durante a próxima década.
Enquanto tal não acontece, as organizações envolvidas vão preparando o terreno. Na tentativa de cobrir pelo menos dois terços de toda a área portuguesa, as diversas equipas ficarão divididas pelos vários concelhos.
Certamente, terão mais trabalho as que percorrem Évora, Santarém, Setúbal e Beja. “São os concelhos com mais cegonhas-brancas, uma espécie migratória que faz ninho em qualquer local, desde o telhado de uma casa a um poste de alta--tensão. Daí a facilidade de serem avistadas”, explica Gonçalo, adiantando que, apesar de haver uma ideia inicial daquilo que será o trabalho, haverá sempre surpresas. Resta saber quem vai tê-las. N
COM OS BEBÉS NO BICO
No Ocidente, as cegonhas são símbolo de aumento da população. Afinal, quem não se lembra de ter ouvido em criança a história de que eram elas que traziam os bebés de França?
No Oriente a cegonha continua ser importante em matéria de mitologia. Simboliza felicidade, fortuna, sorte e saúde. É ainda considerada uma ave-símbolo do ‘origami’, aquelas pequenas construções feitas em papel, que obrigam a destreza e dedicação.
No passado, essas aves de papel, eram colocadas no tecto, para distrair os bebés, ou oferecidas nos templos e altares, juntamente com orações.
Actualmente, a figura da cegonha (ou "tsuru", como se diz no Japão) aparece nos enfeites ou nas embalagens de presentes de várias festividades, como o Ano Novo, o casamento, ou o nascimento. E mesmo no plano da saúde continua a ser uma referência. Quando uma pessoa é hospitalizada, oferecem-se mil origami com a forma da cegonha, para que ela recupere o mais depressa possível.
O mesmo número é utilizado como forma de apelo à paz. Acontece anualmente a 6 de Agosto, quando os japoneses depositam conjuntos de mil origami nos monumentos feitos em homenagem aos que morreram em Hiroshima. Nessa altura, rezam para que tal não volte a acontecer.
EM PERIGO DE EXTINÇÃO
A cegonha-preta é menos conhecida do que a branca, revela-se mais sensível à presença humana e tem por hábito construir o ninho em regiões de difícil acesso.
Cláudia Franco, 33 anos, faz parte do Instituto da Conservação da Natureza (ICN) e tem ocupado os últimos anos da carreira ao estudo desta espécie. Além da diferença na cor, a bióloga adianta que a cegonha-preta está dependente de habitats húmidos, sendo vista sobretudo no interior de Portugal, em especial nas bacias do Guadiana, do Douro e, principalmente, do Tejo.
Todos os anos é feita um reconhecimento do número de cegonhas-pretas existente e está a ser feito um censo desde há dois anos, que deverá terminar em Julho. A demora no processo prende--se com a dificuldade em encontrar os ninhos (alguns estão em ravinas), com a existência de uma equipa restrita e com o facto de se tratarem de aves nidificantes. Estão em Portugal entre a Primavera e Verão, partindo nessa altura para climas onde o Inverno não se faz sentir.
Os dados de 1997 apontam para a existência de 102 a 112 casais, número que Cláudia Franco acredita ter-se mantido ou mesmo subido ligeiramente nos últimos tempos.
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