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O ATLETA ACIDENTAL

Não fosse a iniciativa de um professor de Vale de Cambra, e hoje João Paulo não seria campeão. Afinal o medalha de ouro é tímido, muito apegado à família, e precisou de um pequeno empurrão
10 de Outubro de 2004 às 00:00
João Paulo Fernandes nasceu com paralisia cerebral. A lesão impediu-o de ter um desenvolvimento normal do funcionamento motor. Ao contrário do que tendencialmente se pensa, o jovem de 20 anos é um exemplo a nível intelectual – acabou o ano passado o 12º ano e entrou para a faculdade. Mas outros motivos ainda fazem dele um orgulho para familiares e amigos: João Paulo foi o único português de Paralímpicos a trazer de Atenas uma medalha de ouro na modalidade de boccia, individual.
Falámos com o atleta e o respectivo treinador, Luís Ferreira, poucos dias depois de aterrarem em Portugal, vindos da XII edição dos Jogos Paralímpicos de Atenas 2004. Apesar da timidez, própria da idade, João Paulo revelou-se uma pessoa segura. “Sempre consegui aquilo que queria”, disse.
ADAPTAÇÃO DIFÍCIL
Natural de Vale de Cambra, onde vive desde sempre com os pais, João Paulo pratica boccia há seis anos. Frequentava o 6º ano de escolaridade quando a professora de Educação Física contactou a Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC) a solicitar alguém para ir à escola fazer demonstrações de modalidades desportivas para deficientes.
Habituado à rotina casa/escola e vice-versa, João Paulo mostrou-se pouco aberto a qualquer coisa que viesse alterar o seu dia-a-dia, menos ainda se isso implicasse ter de se afastar dos pais por longos períodos.
“Quase que foi forçado”, afirma o treinador Luís Ferreira. E justifica: “Ele é uma pessoa muito nervosa, ansiosa e agarrada à família. Insisti na participação dele porque achei que valia a pena. Sabia que ia ajudá-lo muito a nível social, ia torná-lo mais independente”.
“Uma vez, durante um estágio que decorreu em Lamego – na altura, o João Paulo teria uns 14 anos –, pensei mesmo que teria de o levar de volta a casa. Era a sua primeira competição a nível nacional, e ele começou a chorar e a ficar muito aflito. Mas depois lá consegui acalmá-lo, falei com ele e adormeci-o”, recorda Luís Ferreira.
“Foi uma luta, principalmente porque tinha de ir muitas vezes para fora. Mas tive um grande apoio da APPC e de familiares”, acrescenta o jovem atleta.
De acordo com Luís Ferreira, estes jovens têm sempre uma forte ligação a alguém – no caso de João Paulo há uma relação intensa com a mãe. É por isso que o treinador tem a acompanhá--lo no exercício das suas funções treinadores auxiliares, fisioterapeutas e psicólogos. “Situações como a do João, quando correm pelo melhor são para nós uma vitória”, diz Luís Ferreira.
EXEMPLO ESCOLAR
Neste momento, João Paulo está de férias escolares. Em tempo de aulas, acorda todos os dias por volta das sete da manhã. Toma o pequeno-almoço e segue para as aulas. Normalmente, apanha boleia de um vizinho taxista de quem já se tornou amigo.
Ao fim do dia, o transporte é o mesmo. Mas João Paulo só regressa a casa depois de fazer fisioterapia ou de ir aos treinos, que se repetem três vezes por semana. “Só se intensificam na altura dos campeonatos”, explica o jovem atleta. Mas este ano as coisas vão ser diferentes.
João Paulo terminou o ano passado o 12º ano de escolaridade, a nível tecnológico. Inscreveu-se na faculdade e entrou para o curso de Ciências da Comunicação e Multimédia, em Coimbra. Contudo, a frequência universitária terá de ser adiada por, pelo menos, um ano.
O transporte e o alojamento são um entrave para o jovem que, apesar de “já ter gostado mais de estudar”, quer pedir transferência para uma universidade do Porto, onde acredita ter a vida mais facilitada. “Não tenho uma pessoa que possa estar comigo 24 horas. Lá terei mais meios para me movimentar sozinho”, justifica.
PROJECTOS FUTUROS
Apaixonado pela área da comunicação social, no futuro, João Paulo quer estar por detrás da organização de eventos e espectáculos. “É o que realmente gosto. A área jornalística não me atrai tanto”, diz.
Apesar do sonho ser agora adiado, não perde a esperança. “Vou lutar e lutarei até onde puder.” E como não há tempo a perder, João Paulo já tratou de se increver para um estágio na área tecnológica para “ir ganhando alguma experiência profissional”.
No campo desportivo, o atleta soma e segue triunfos. O ano passado conquistou a medalha de ouro em boccia, equipa e individual, na Taça do Mundo que decorreu na Nova Zelândia.
Este ano , naquela que foi a sua estreia em Paralímpicos, repetiu a proeza em Atenas, conseguindo bater o norueguês Roger Aandalen. O atleta português trouxe para casa a medalha de primeiro lugar, individual.
O boccia é uma modalidade paralímpica que existe desde os Jogos de Nova Iorque, em 1984. É exclusiva a atletas com deficiência, paralisia cerebral ou doenças neuro-musculares. Disputa-se num pavilhão com marcações próprias e envolve treze bolas: seis de cor azul, seis de cor vermelha e uma branca, o alvo (também denominada ‘Jack’). O objectivo do boccia consiste em colocar o maior número de bolas de cor próximo da bola-alvo. As bolas podem ser atiradas com a mão, o pé, uma calha ou um ponteiro.
FORÇA PARA VENCER
Há seis anos João Paulo nem sequer sabia da existência de desportos para deficientes. E apesar de não ter sido amor à primeira vista, com o tempo o atleta tomou gosto pela modalidade – a ponto de se fazer campeão. “Foi uma sensação muito boa”, diz o atleta, que ainda hoje garante não ter palavras para descrever o que sentiu na altura em que recebeu a medalha.
Em relação a futuras competições, João Paulo confessa que tenta não pensar muito nisso. “Tento abstrair-me um bocado para não ficar com muita ansiedade. Já chegam os nervos quando estou a competir. Houve uma vez que estava tão nervoso que ia caindo da cadeira abaixo”, conta sorrindo. De uma coisa o atleta tem a certeza: “Quero continuar a dar o meu melhor, sempre de cabeça erguida, mesmo nas alturas em que as coisas não corram tão bem”, afirma o jovem, cuja filosofia de vida é “lutar até à última”.
FORÇA DE VONTADE
“Ou quem treina tem grande motivação ou então não há nada feito.”É desta forma que Luís Ferreira explica o sucesso ou fracasso de um atleta.
Treinador de João Paulo Fernandes há seis anos, diz que essa motivação falhou inicialmente com o atleta. No entanto, hoje em dia, garante que isso faz parte do passado.
“Ele ganhou mais força de vontade quando introduzimos o boccia no desporto escolar.” De acordo com Luís Ferreira, a partir daí a evolução de João Paulo foi muito rápida. “Hoje é um indivíduo trabalhador e persistente, não desiste”, conta o treinador. “Ele até tem feito para que outros jovens na sua situação experimentem a modalidade”, acrescenta.
Gestor da área de desporto adaptado na APPC, considera João Paulo um jovem com potencial e afirma que seria uma pena ele desistir nesta altura do campeonato. “Ainda não falámos depois dos Jogos. Se ele quiser continuar a trabalhar terá todo o apoio.”
SELECÇÃO
Desde 1993 que Helena Bastos é seleccionadora nacional de boccia. Afirma que não é pretensiosa ao ponto de se considerar melhor que os outros treinadores, mas a verdade é que sempre se deu bem com os atletas que seleccionou.
De acordo com a treinadora, o seu papel não é fácil. “Há jogadores muito bons que por uma ou por outra razão tenho que deixar de fora”, diz. E explica: “Quando os escolho tenho de ter em conta o conjunto e não tanto os jogadores individualmente”.
Helena Bastos conheceu João Paulo na APPC . Reparou nas habilidades do jovem para o boccia ainda era ele muito jovem.
Para além do natural orgulho que sente por João Paulo, acredita que ele possa servir de exemplo a outros jovens na mesma situação e aos pais que não acreditam que seja possível vencer.
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