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“O batismo de fogo durou dez minutos”

Fomos apanhados de surpresa, no monte Jambê. Felizmente, durante a minha permanência na companhia não houve feridos nem mortos
13 de Janeiro de 2013 às 15:00
Em Vila Cabral (hoje Lichinga). Os militares tocam música num momento de descontração no regresso de uma operação. Sou o sexto, em cima
Em Vila Cabral (hoje Lichinga). Os militares tocam música num momento de descontração no regresso de uma operação. Sou o sexto, em cima FOTO: Direitos reservados

Iniciei o serviço militar em 1967 e, sendo natural de Moçambique, fiz incorporação e recruta no Centro de Instrução de Boane. Fui colocado na Companhia de Caçadores de Vila Cabral (hoje Lichinga), também conhecida por 4ª Companhia Indígena, por a maioria dos combatentes nela incorporados ser natural de Moçambique: Ajauas, Nianjas, Macuas e de outras etnias. Também os graduados eram africanos brancos, e o lema da Companhia era ‘Bravos Leões do Alto Niassa’.

Saí de Lourenço Marques numa coluna militar em novembro de 1967, de madrugada, levando material de guerra e viaturas, 40 unimogues, 50 militares e algumas Berliets para serem distribuídas a norte. De Nampula, segui de comboio até Catur, onde terminava a linha, e cheguei a Vila Cabral no dia 30, às 06h00, após uma atribulada viagem e a travessia da célebre estrada do caracol, onde havia a flagelação habitual. Tive sorte, pois nesse dia estava calmo.

BATISMO DE FOGO

Chegado à nova unidade, cansado e sem tempo para recuperar, fui integrado no 1º grupo de combate para uma operação em que era o único branco. Saímos à uma da manhã do dia 1 de dezembro de 1967. Andámos 12 horas sem parar, a comer rações de combate e a urinar em movimento. Havia pressa de chegar ao local, dizia o guia africano, que pensávamos ser da PIDE.

Passámos pelo Luiça, atravessámos o rio Luxeringo, cheio em época de chuvas, subimos ao monte Jambê e instalámo-nos lá. Fomos seguindo as indicações do guia, que informara de um acampamento tipo base de guerrilheiros da Frelimo. Chovia torrencialmente e, ao começarmos a comer, eram 13h43 (sei porque o fixei no meu diário), tive o batismo de fogo. Faziam fogo ao pé do monte, de baixo para cima, e nós ripostámos. Fomos apanhados de surpresa e durou cerca de dez minutos.

Acabado o tiroteio, o tenente ordenou a saída imediata pelo lado oposto àquele por onde tínhamos entrado, pois desconhecíamos o número de guerrilheiros e o material que tinham. Chegámos à base de Luiça já alta noite, estafados, mas felizmente sem mortos nem feridos.


Posteriormente, já com experiência, tomei parte em inúmeras operações, patrulhas e abastecimentos em Metangula, Meponda, Unango Maniamba, Cantina Dinas e tantas outras localidades. Por vezes, havia contactos com o inimigo e fogo.

Tenho de prestar homenagem ao valor dos soldados africanos da companhia, pelo seu arrojo e combatividade. Durante a minha permanência na companhia, não houve mortos nem feridos. Soube mais tarde, já estava em Lourenço Marques no Batalhão de Transmissões, que num rebentamento de mina terá morrido o soldado 32, o homem do morteiro do meu grupo. Era um bom soldado, que tinha ganho o prémio Governador-geral de Moçambique, e senti a sua morte.

Recebi um louvor do comandante do Batalhão nº 20, pela prestação que dei ao 1º grupo de combate, outro do comandante do BT2 em Lourenço Marques e, na passagem à disponibilidade, um outro louvor do comando territorial do Sul, CTC. Questiono-me, como natural de Moçambique, se a guerra foi justa; porém, fiz o que o meu país pediu e hoje voltaria a fazer o mesmo se me fosse pedido, pois não há guerras boas nem más, há pontos de vista políticos diferentes. Já lá vão 40 anos e tudo passou.

Cumpri na totalidade três anos e nove meses de serviço militar em plena juventude, e queria deixar o testemunho dos falecidos, em combate e por morte natural, oficiais, sargentos e praças que comigo contactaram.

PERFIL

Nome: Reinaldo Manuel Pereira

Comissão: Moçambique, 1967 a 1970

Força: C. de Caçadores Vila Cabral

Atualidade: 66 anos, secretário de Justiça aposentado

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