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O cachimbo pensante

Esta semana, em Londres, uma ampla pesquisa revelou: 58% dos inquiridos crêem que ‘Sherlock Holmes’ foi um genial detective que existiu de verdade. Ora, durante a sua vida (acaba de sair a biografia definitiva e a edição completa da correspondência), Conan Doyle recebeu centenas de cartas a solicitar os serviços da personagem, várias oferecendo fortunas.
9 de Novembro de 2008 às 00:00
O cachimbo pensante
O cachimbo pensante

Não admira a longevidade da criatura, equivalente à de ‘Dom Quixote’. Num Mundo em que a insegurança e a angústia reinam, ‘Holmes’ é um bálsamo: nem sempre evita o crime ou pune o criminoso, mas sempre nos explica que raio aconteceu, como e porquê.Seéa quintessência da lógica indutiva, o ‘doutorWatson’ correspondeà mais prosaica banalidade – porém cheia de rectidão. O par de Baker Streetécomo aqueles casais felizes cimentados pela atracção dos opostos.

Ou, para invocar de novo Cervantes, como ‘Quixote’ e ‘Sancho’ (neste caso, o delírio substitui a razão). Enquanto ‘Watson’ lia o horário dos comboios ou espevitava a lareira, ‘Holmes’ consumia cocaína, tocava violino ou espremia os miolos. O próprio Conan Doyle era uma síntese precária daquelas antíteses. Escocês de Edimburgo, licenciou-se em Medicina, mas sem vocação e com fascínio pela aventura: andou de balão e conduziu carros e motos quando não passavam de geringonças excêntricas. E fervilhava de ambiguidades: autor do cerebral ‘Holmes’, converteu-se ao Espiritismo e escreveu livros a defender a comunicação com ‘Gasparzinhos’. Lembra Newton, o descobridor da gravitação universal, que dedicou mais tempo à Alquimia do que à Física…

Inopinadamente, Doyle acabou por odiar ‘Holmes’ (que o enriquecera) e decidiu 'matá-lo', na obra ‘O Problema Final’. A reacção do público foi histérica: houve até cortejos fúnebres nas ruas de Londres. O escritor resistiu às pressões por dez anos, mas lá ressuscitou o detective. Atenção: a célebre frase 'Elementar, meu caro Watson!', não figura em nenhuma das 70 narrativas protagonizadas por ‘Holmes’ – só nas adaptações para cinema eTV.Eisum exemplo paródico da lógica indutiva. ‘Holmes’e ‘Watson’ estão a acampar.

De madrugada, H acorda W: 'Olhe para o céu e diga-me o que vê'. W: 'Vejo milhões de estrelas'. H: 'E que conclui?' W: 'Que existem milhões de galáxias. Que Saturno está em Leão. Que serão três e um quarto. Que amanhã teremos um dia lindo. Que Deus é Todo-Poderoso e nós insignificantes. E você, o que conclui, Holmes?' H: 'Watson, sua besta, roubaram-nos a tenda!'

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