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O caos controlado e as suas fronteiras

Sem pistolas, telemóveis e sexo, o cinema sobreviveria? Jim Jarmusch acha que sim. Em ‘Limites do Controlo’, aposta em quem aprecie um cozinhado sem esses ingredientes. O filme vive, como outros mistérios, da curiosidade.

Joana Amaral Dias 23 de Agosto de 2009 às 00:00
O caos controlado e as suas fronteiras
O caos controlado e as suas fronteiras

‘Limites do Controlo’ é um road movie com pouca estrada, um filme turístico sem turistas. Uma seita combate o ‘status quo’. São guerrilheiros existencialistas numa missão impossível. E a longa-metragem é uma metáfora da luta imortal do idealismo contra o pragmatismo (ou ‘real politik’). Há filmes--viagem que vão além do itinerário das personagens, da ficção. Apresentam-se como documentos de uma realidade (viajada). ‘Limites do Controlo’ também pode ser encarado como percurso duma equipa e de um actor que viaja de terra em terra, encontrando outros actores. Como sucessão de pontos de encontro de vedetas do cinema contemporâneo, instrumentos de uma orquestra de solistas.

No ‘cadáver esquisito’ cada jogador acrescenta uma frase, ignorando as anteriores. O resultado é uma sopa de palavras, surrealista. Neste filme, a intriga parece um pretexto e a conspiração um cine-‘Cadáver Esquisito’. As personagens trocam mensagens cifradas, teorias sobre a vida, arte, ciência. Só o espectador acede às frases desconectadas. Cada encontro é um caos controlado. Mas o filme também joga a favor das expectativas. A previsibilidade exprime-se por perguntas e hábitos repetidos, limites destas histórias caóticas, redes que tranquilizam as personagens-acrobatas.

‘Limites do Controlo’ não é Godard, nem um filme de ‘acção’. E um thriller ‘filosófico’ pode redundar num amontoado de citações acompanhado por uma bica. Este filme não se reduz a um crochet de clichés se o espectador se abandonar, estiver disponível para a narrativa e não questionar as regras do jogo. Jarmusch arriscou e, se o espectador também arriscar, apanha boleia sem rota marcada.

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