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O capitão das sevilhanas

Uma brincadeira de amigos levou o capitão da GNR, Manuel Jorge, a dar os primeiros passos na dança. Foi há dez anos, no casamento da irmã.
1 de Junho de 2008 às 00:00
O capitão das sevilhanas
O capitão das sevilhanas FOTO: Manuel Costelas

'Tenho amigos que dançam e despertaram-me o interesse e gosto pelas sevilhanas durante o casamento. Depois iniciei as aulas com professores e nunca mais deixei de dançar', lembra Manuel Jorge, oficial de relações públicas na Brigada n.º 3 da GNR, no Alentejo e Algarve.

A entrada no grupo de sevilhanas ‘Companhia de Triana’, onde é o único homem entre 20 mulheres, aconteceu anos depois através da sua amiga e professora de dança, Inês Ramalhinho.

'Desde cedo se percebeu que tinha jeito para dançar sevilhanas. Ficou no grupo e ainda continua a ser o único membro masculino', disse a responsável da companhia, que nasceu na cidade alentejana de Évora há dois anos.

O gosto pela dança típica de Sevilha levou Manuel Jorge a abdicar de outros hobbies para poder apreender todos os passos que caracterizam esta arte.

Todas as terças e quintas-feiras, o capitão fecha a porta do seu gabinete no comando da Brigada n.º 3 por volta das 18h00 e dirige-se a casa para trocar a farda de militar pelo fato e botas de dançarino.

Os ensaios começam por volta das 20h00 nas instalações da Associação Juvenil ‘4.ª Dimensão’, da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, situada na freguesia do Bacelo, em Évora. Manuel é dos últimos a chegar.

'Nem sempre é pontual', refere Inês, enquanto olha para o relógio.

À chegada, o capitão diz que os haveres profissionais estão sempre em primeiro plano. 'Dedico-me com afinco às sevilhanas, mas também à dança flamenca - às segundas-feiras em Montemor-o-Novo -, mas só depois de terminar o expediente', frisa.

O ensaio, a poucos dias de mais um espectáculo, decorre na perfeição. Manuel Jorge tem as coreografias decoradas e está apto a subir ao palco.' Às vezes merece um puxão de orelhas porque é desleixado e esquece-se das coreografias durante o espectáculo. A sorte é que dança bem e tem vindo a melhorar', salienta Inês, de 30 anos.

Apesar da recente formação do grupo, certo é que tem sido abordado para vários espectáculos e para festas. 'Vamos pela nossa qualidade, mas também um pouco pelo Manuel. Muitas pessoas vão de propósito só para o ver dançar', acrescenta a professora.

O sucesso de Manuel Jorge, um rapaz de 46 anos, solteiro, já levou as suas companheiras do grupo a apelidá-lo com o nome artístico de ‘Manolo’.

O capitão tenta corresponder com o que se exige da dança: exprimir a alma sevilhana.

'Gosto desta dança e do flamenco, pela sensualidade que se impõe em cada movimento. São danças onde se sente a paixão. Têm de ser executadas com muita atitude, alegria e com muita alma', explica o militar, que nutre também um grande carinho pelos cavalos. Tanto na quinta onde reside como na GNR, passa muito tempo a tratá-los e a experimentar novos métodos para os educar.

'A dança até foi muito boa para deixar de ter dores insuportáveis nas costas', afirma o capitão, que ao longo da carreira militar tem primado a sua acção no contacto com as questões sociais.

'As sevilhanas são um complemento do que faço no dia-a-dia e um escape para esquecermos os nossos problemas e os que encontramos durante a actividade profissional. Sou muito sensível às questões sociais e tenho privilegiado o contacto com a sociedade numa perspectiva de proximidade', refere.

O trabalho na área dos abusos sexuais, no serviço de prevenção e combate à toxicodependência, na solidariedade social e na Comissão de Protecção de Menores, levou Manuel Jorge a trabalhar com personalidades como a ex-provedora da Casa Pia de Lisboa, Catalina Pestana, assim como os inspectores da PJ ligados à investigação de casos de abuso sexual, Rosa Mota e André Dias.

Inês, que com o ‘Manolo’ e as dançarinas ‘Ni’ e ‘Anabé’, formam no seio do grupo o quarteto ‘D’Artagnan e as Três Mosqueteiras’, diz que, por vezes, o capitão transporta parte do trabalho para a dança. 'Tem dias que está mais motivado. Outros menos. Mas, tanto no grupo como na profissão, trabalha para ser cada vez melhor', diz a professora.

Um exemplo do seu carácter é, segundo Inês Ramalhinho, o facto de não se deixar abater quando houve algumas bocas em palco.

Para Manuel Jorge isso pouco importa. Em muitos dos espectáculos em que já participou até teve na plateia camaradas de armas, que lançaram algumas piadas.

'Mandaram bocas mas na brincadeira porque acham graça [ou inveja] ser o único homem no meio de tantas mulheres. Eu respondo que danço para fugir à rotina, para me divertir e para desenvolver a componente lúdica e física', refere.

Mas o capitão diz também que muitas pessoas acham que ser militar e dançarino é um acto de coragem. 'Dão-me os parabéns por acharem que não é fácil um militar estar tão à-vontade e sem complexos no meio das mulheres a dançar sevilhanas', acrescenta.

O único senão para Manuel Jorge é o facto de não ter outro homem no grupo para competir e evoluir. 'Às tantas, no meio da dança, procura-se referências de bailarinos masculinos. Se o grupo tivesse mais homens era bom para a aprendizagem. Mas não me importo de estar sozinho e sinto-me lindamente com estas mulheres, porque são muito queridas e tratam-me nas palminhas das mãos', frisa.

O grupo ‘Companhia de Triana’ actua hoje no Teatro Garcia de Resende. Dia 9 no torneio de ténis ‘Open Ladies’, em Montemor-o-Novo, e dias 26 e 28 de Junho na Feira de São João, em Évora. O último espectáculo da temporada está agendado para dia 5 de Julho, também nesta cidade alentejana.

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