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O controlo do doping

A polémica à volta do ciclista lance Armstrong relança a discussão sobre o combate a substâncias ilícitas no desporto.
9 de Setembro de 2012 às 15:00
Suplemento alimentar custou a sara moreira suspensão de seis meses
Suplemento alimentar custou a sara moreira suspensão de seis meses FOTO: LUSA / NUNO VEIGA

É tempo de seguir em frente e de não nos deixarmos distrair". Assim fala Lance Armstrong, o ciclista que venceu sete vezes a Volta à França e que chocou o Mundo com o anúncio de que não vai contestar as acusações de que é alvo. A USADA, agência norte-americana, diz que o ciclista se dopou, com base sobretudo em testemunhos de ex-colegas do ciclista que garantem tê-lo visto a injectar-se com substâncias ilícitas ao longo da sua carreira. O atleta de 40 anos, já retirado da competição, fartou-se. Empenhado na sua fundação de luta contra o cancro, diz que se quer concentrar nesse combate e aponta as centenas de análises negativas que fez ao longo da carreira como prova da sua inocência. E nem o risco de perder todos os títulos o faz recuar.

Mas se na justiça desportiva Armstrong parece condenado irremediavelmente, o homem que venceu um cancro nos testículos e voltou a competir para ganhar parece estar a sair triunfante na batalha da opinião pública. Os donativos à sua fundação Livestrong (Vive Forte, numa tradução literal) aumentaram consideravelmente e não falta quem acuse a USADA de promover uma perseguição implacável e injusta. Seja como for, de uma coisa Lance Armstrong não poderá livrar-se: da demolidora dúvida que fica associada ao seu nome.

Verdade nos testes

Para o ex-ciclista português Cândido Barbosa, o caso de Armstrong é um exemplo maior dos métodos excessivos das agências antidoping. Cândido, que em tempos acusou médicos e treinadores de equipas portuguesas de incentivarem o consumo de substâncias dopantes, diz que a verdade só pode ser uma: "É nos controlos de antidoping que se verifica se um atleta está ou não está dopado. Se nunca lhe detectaram substâncias proibidas, não percebo a razão desta perseguição." Barbosa correu na equipa Liberty Seguros, que protagonizou um dos maiores escândalos do desporto nacional – em 2009, três atletas da formação foram apanhados com doping, incluindo Nuno Ribeiro, o vencedor desse ano da Volta a Portugal. Apesar de ser cunhado de Ribeiro, Cândido fala sem contemplações. "O Nuno foi apanhado e levou um castigo de dois anos. Perfeito. Se cometeu um erro, deve ser punido." Barbosa apela à responsabilidade dos atletas. "O doping não cresce nas alfaces. Cada um tem de saber o que toma e se aceita ser injectado com coisas que desconhece. Eu nunca aceitei essas práticas e se comecei a ganhar provas aos 18 anos e me retirei aos 36 foi porque sempre recusei essa via."

Os dados da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) mostram que os atletas das duas rodas são dos que mais exames fazem anualmente – 205 amostras de urina recolhidas em 2011. Só houve mais amostras recolhidas no futebol (1097), mas o número de atletas federados é consideravelmente maior neste desporto, pelo que a percentagem de ciclistas rastreados é maior. As contas da ADoP mostram que houve 43 violações das normas antidopagem em 2011, com o futebol à cabeça – 12 casos. Voleibol (8 casos) basquetebol (5), ciclismo (3) e ginástica (3) completam a lista das modalidades com mais prevaricações, sejam testes positivos ou faltas a controlos.

Crime involuntário

Nem sempre um controlo positivo significa que um atleta se dopou para obter melhores resultados desportivos. Que o diga a fundista Sara Moreira, suspensa em 2011 depois de um controlo nos campeonatos mundiais de atletismo. "Tomava um suplemento alimentar recomendado por um nutricionista. Sabia quais eram os produtos proibidos, mas o rótulo do suplemento não mencionava qualquer substância ilícita. No entanto, o produto estava contaminado e fui penalizada com seis meses de suspensão."

 


 

Sara Moreira acusou a presença do estimulante meti-lhexaneamina no organismo. "Não sabia que o suplemento alimentar continha este produto. Consegui provar a minha inocência, mas ainda assim tive de cumprir o castigo mínimo de seis meses", conta a atleta, que esteve nos Jogos Olímpicos de Londres, onde foi 14ª na corrida de 10 mil metros. O caso fez Sara mudar de comportamento. "Percebi da pior forma que não se pode confiar apenas nos rótulos. Os suplementos alimentares são importantes porque nos ajudam a recuperar do esforço, mas deixei de os tomar. Agora só uso vitaminas receitadas por médicos e compradas em farmácias", explica.

Vigilância permanente

Como atleta de alta competição, Sara Moreira submete-se a um rigoroso sistema de vigilância. A cada trimestre tem de indicar o seu paradeiro para todos os dias, sendo obrigada a permanecer no local indicado uma hora por dia. "Afecta a nossa privacidade, mas concordo que haja uma vigilância apertada. Em 2012, já fui controlada cinco vezes, duas das quais fora de competição." Menos convencido, o ciclista Cândido Barbosa aponta "um desrespeito pelos direitos constitucionais dos atletas", que podem ser suspensos por não estarem no local indicado no dia do controlo-surpresa. "Quem toma doping deve ser punido, mas tem de haver limites. É impossível prever onde vamos estar todos os dias com a antecedência de três meses."

José Manuel Meirim, advogado e professor de Direito do Desporto, concorda que há excessos nas regras. "Estamos perante uma questão que opõe os valores da verdade e lealdade desportivas a direitos fundamentais, em particular o direito à reserva da intimidade privada e à protecção dos seus dados pessoais. Tais regras deveriam ser escrutinadas pelos tribunais, incluindo o Tribunal Constitucional, pois existem legítimos fundamentos para questionar a conformidade de algumas dessas regras com a Constituição."

Casos no futebol

Um dos episódios mais polémicos aconteceu com o futebolista Nuno Assis, que em 2006 era jogador do Benfica. Um controlo detectou-lhe um derivado de nandrolona, hormona anabolizante na lista de substâncias proibidas. O jogador foi suspenso por um ano, mas a lei obrigava a que também o clube fosse investigado. O que só aconteceu dois anos depois, num processo sem consequências. José Manuel Meirim não se pronuncia sobre o caso, mas constata maus hábitos: "Em termos gerais, revertendo a todas as federações desportivas, ao Estado e a todo o tipo de casos – não só os de doping – sinto que existe uma cultura de não aplicação das leis, muitas vezes dominada por espíritos clubistas ou coloridos. E isso é muito mau para o desporto e para a sociedade em geral."

Outro caso famoso no futebol aconteceu com o futebolista Daniel Kenedy. Em 2002, o seleccionador António Oliveira surpreendeu ao convocar o então defesa do Marítimo para o Mundial da Coreia-Japão. Mas Kenedy não passou do estágio em Macau. Um controlo detectou o uso de furocenida, uma substância proibida. Kenedy justificou-se, dizendo que estava de férias e tomou um produto para emagrecer. Certo é que foi suspenso e acabou a carreira sem cumprir o sonho de vestir a camisola das quinas.

Combate reforçado

Se a luta entre quem usa doping e quem tenta encontrar casos de abusos é um combate condenado a durar até à eternidade, não há dúvidas de que as agências que fiscalizam o desporto contam hoje com um leque variado de opções. Uma das mais recentes é o passaporte biológico, em que se registam as variações do metabolismo dos atletas. Luís Horta, presidente da ADoP, explica à Domingo para que serve: "O passaporte biológico (PB) representa uma resposta para a detecção indirecta dos efeitos das substâncias e dos métodos que são difíceis ou impossíveis de detectar no momento actual. Não existe método de detecção para as autotransfusões, mas o PB pode detectar os seus efeitos. A detecção da EPO é muito difícil, pois a janela de actuação pode ser de menos de 24 horas, mas o passaporte biológico permite detectar os seus efeitos. Outra vantagem do PB é a de que representa uma resposta para futuras substâncias que possam vir a ser introduzidas."

 


 

Os avanços na medicina potenciam o uso do doping. Porque as descobertas com fins terapêuticos que salvam pessoas de doenças servem também outros propósitos. Carolino Monteiro, especialista em genética e professor na Universidade de Lisboa, explica: "O chamado doping genético segue o princípio usado na terapêutica – é possível introduzir um veículo (por exemplo um vírus) que faz chegar aos músculos genes que alteram o seu funcionamento. Isto pode significar uma produção de energia muito superior ou a inibição de toxinas produzidas pelo esforço, que em condições normais provocariam uma dor intensa."

Carolino Monteiro explica ainda uma mudança de estratégia na caça ao doping: "As autoridades passaram a procurar sinais do veículo que fez chegar genes alterados ao organismo, em vez de procurar apenas a presença desses genes." O especialista em genética lembra outra prática. "O uso de amostras congeladas ou ultracongeladas na terapia genética é vulgar. É perfeitamente possível descobrir no futuro substâncias que não foram detectadas no momento da primeira análise."

A USADA diz ter agora provas de que amostras conservadas de sangue e urina de Lance Armstrong provam os abusos. Cabe às autoridades demonstrar, sem qualquer dúvida, que o campeão texano falsificou as suas prodigiosas vitórias.


Luís Horta, presidente da ADoP

"ESTRATÉGIA VAI ALÉM DO CONTROLO"

A recusa de Lance Armstrong em colaborar com as investigações é um golpe para a luta antidoping?

Não conheço em pormenor as acusações que são imputadas ao ciclista, mas de acordo com o que tem sido publicado na comunicação social e com as declarações da USADA e da AMA, penso que este caso demonstra que a luta contra a dopagem tem estratégias inovadoras que vão muito além dos habituais controlos de dopagem. A possibilidade de se determinar uma violação de norma antidopagem por testemunhos de terceiros ou por existência de um perfil de parâmetros sanguíneos anormal representa um bom exemplo dessas estratégias. A possibilidade de as amostras de urina ou sangue poderem ser reanalisadas durante oito anos após a recolha levou a que vários atletas fossem impedidos de participar nos Jogos Olímpicos de Londres.

Como avalia a capacidade actual dos laboratórios antidopagem para detectar o uso de substâncias interditas?

Existem substâncias e métodos proibidos para os quais não existe método de detecção directa no momento actual, mas que estão devidamente identificadas. Para esses casos, o Programa Mundial Antidopagem tem a resposta adequada através do passaporte biológico, da colaboração com as entidades de investigação criminal (Europol e Interpol), com os serviços aduaneiros, com a industria farmacêutica e com a atenuação de sanções para os atletas dopados que desejem colaborar na descoberta de novas violações, como aconteceu com o caso Lance Armstrong.

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