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O craque dos matrecos

A brincadeira de criança tornou-se assunto sério e levou-o além-fronteiras. O nono lugar no Campeonato do Mundo surpreendeu-o tanto como algumas regras que só descobriu no início da prova.
17 de Janeiro de 2010 às 00:00
Para aprender a dominar os matrecos, André Mendes juntou-se a jogadores mais velhos
Para aprender a dominar os matrecos, André Mendes juntou-se a jogadores mais velhos FOTO: Bruno Colaço

Uma mesa de matraquilhos de plástico era o brinquedo preferido de André Mendes, hoje com 26 anos. Os campeonatos familiares, com o pai e o irmão mais velho, marcavam o ritmo dos dias mas, sem que o futuro campeão nacional de matraquilhos soubesse, também escreviam algumas linhas do seu futuro.

"Desde que tenho memória que aquela era a minha brincadeira favorita, tanto que passava os dias agarrado à mesa. Lá para os dez anos é que comecei a ir com o meu irmão jogar para os cafés de Almada, até descobrirmos que em Corroios parava a malta mais velha e experiente, que tinha a fama de jogar muito bem. Como queria aprender mais, comecei a aparecer por lá e a jogar com eles. E esse foi o passo decisivo na minha evolução", conta o jovem, de 26 anos, que na semana passada ficou em nono lugar (entre 54 jogadores) no Campeonato do Mundo da modalidade.

Na prova, disputada em Nantes, França, o jogador driblou as dificuldades de quem vem de um país onde até as mesas e as bolas são diferentes das usadas pelos seus rivais. "Só comecei a treinar nas mesas homologadas pela federação internacional (de plástico em vez de chumbo e madeira) dois meses antes do campeonato. A velocidade e a aderência são diferentes, as nossas mesas permitem fazer um manancial de manobras que não são repetíveis nas outras. Mas também as bolas e as regras são distintas. No primeiro jogo fiz faltas que nem sequer sabia que existiam. Não sabia, por exemplo, que o jogador que domina a bola não pode ser o mesmo que a passa a seguir", confessa.

A seu lado, José Duarte, um dos tais ‘compinchas’ de Corroios, actual presidente da Associação de Matraquilhos de Setúbal e principal ‘adversário’ de treinos de André, confirma a proeza com sorriso tingido de orgulho. "Os 16 melhores do Mundo são profissionais. Ganham a vida a correr o seu país e o Mundo participando em campeonatos pagos. Ele não tem sequer as condições ideais para treinar e mesmo assim ficou em nono", confirma.

André, que ganha a vida no Aeroporto de Lisboa numa companhia de voos privados, não é tão exigente. "A federação trabalha bem. Surgiu há dois anos e em pouco tempo já nos pôs a competir internacionalmente." Sabe que o desporto que pratica tem limites. "Na profissionalização não acredito. Não há clubes que paguem. Mas poderão vir patrocínios", diz.

Apesar de jogar ao mais alto nível, treina só aos fins-de-semana: "Deveria jogar mais mas não conta só a minha disponibilidade. Tenho também de ter um adversário à altura para se bater comigo."

LESÕES ATACAM ATLETAS

Os matraquilhos também são um desporto arriscado. Que o diga José Duarte, presidente da Associação de Matraquilhos de Setúbal, que se vê a braços com problemas nas articulações depois de décadas de vida como ‘matraquilheiro’. "As articulações sofrem desgaste mas também são vulgares as tendinites. Calos então nem se fala", diz André, voltando as mãos para cima e deixando a descoberto os ‘ossos do ofício’.

NOTAS

‘SNAKE’

A ‘finta’ favorita: rodar o varão com o pulso.

GANCHO

O terceiro avançado faz um arco com a bola em direcção à baliza.

PICADINHA

A bola é dominada com pancadinhas de calcanhar.

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