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O dever acima de tudo

Todos os anos, o fogo deixa os bombeiros de luto. Histórias de quem não se cansa de ajudar
11 de Agosto de 2013 às 15:00
O fogo de Moimenta da Beira foi um dos mais violentes deste verão
O fogo de Moimenta da Beira foi um dos mais violentes deste verão FOTO: Nuno André Ferreira / EPA

Para alguns é o inferno. Para nós é missão’, partilhou a 21 de julho António Nuno Ferreira no seu Facebook. A frase ilustra bem a forma – dizem amigos e colegas – como vestia a farda há mais de vinte anos. António não resistiu às queimaduras sofridas num traiçoeiro incêndio em Miranda do Douro, no primeiro dia de agosto, que lhe cobriram mais de 90 por cento do corpo. Tinha 45 anos e é por estes dias o rosto de todos os bombeiros do País. "Era um bom camarada, sempre pronto para ajudar os outros, um dos bombeiros mais experientes que tínhamos. Isto para ele era uma causa", diz Luís Pestana, da corporação de Miranda de Douro.

‘Isto’ era ser bombeiro, sonho de infância que se concretizou na idade adulta. Vestia a farda como voluntário, mas no quartel era operador da central telefónica. No funeral, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, disse que António é o exemplo dos homens e mulheres que dão a própria vida para salvar os bens da sua pátria. Nos últimos 33 anos – desde 1980 – morreram 207 bombeiros em serviço. "O trabalho dos bombeiros é uma guerra sem quartel. Morre-se e continua-se a lutar dia após dia, porque os bombeiros renascem das suas próprias cinzas", acredita o presidente da Liga. "Os bombeiros não são melhores nem piores do que os outros homens e mulheres, mas têm um sentido de abnegação diferente, um sentimento de serviço e entrega a uma causa de uma dimensão sem dimensão."

"Apesar da dor que sentimos pela morte do António nunca pensamos em desistir, não é isso que nos vai parar. Temos de continuar todos os dias a fazer o que sempre fizemos. Por nós, pela comunidade e por ele, para que o António ‘veja’ que não desistimos", diz o comandante da corporação de que fazia parte, Luís Martins.

Ajuda sem perguntas

"Cada vez que um bombeiro sai em serviço não pergunta quem vai ajudar: vai e pronto. Nunca pensamos no risco, pensamos, sim, em socorrer o próximo. A família fica em casa com o coração apertado, mas sabe que é assim que somos e que a nossa vida é esta." Ironicamente, António "era sempre o primeiro a dizer para os colegas terem cuidado, que tinham de regressar", lembra Luís Martins. Mas ele não regressou.

No hospital ainda está internado, em estado grave, o camarada que combatia o mesmo fogo. "As nossas orações agora estão com ele", partilha José Abílio, presidente da Junta de Cicouro (Miranda do Douro) sobre Daniel Falcão, de 25 anos. José Abílio tem um filho deficiente e durante anos foram os bombeiros que o transportaram. Entre eles, António. "Tornou-se para nós como uma segunda família e foi também por isso que a minha mulher não hesitou em saltar para o meio das chamas para tentar salvá-
-lo, quando o viu naquele desespero". Ester "esteve mais de uma hora sozinha com o António todo queimado, foi ela que o levou para a lagoa para ver se o conseguia salvar. Ele ainda falou com ela: pediu-lhe o telemóvel para ligar para o 112". Os membros da corporação foram surpreendidos numa mudança brusca de vento e ficaram encurralados no meio do fogo, entre Cicouro e São Martinho de Angueira, junto à fronteira com Espanha. Dias depois, um capotamento feriu quatro bombeiros em Alcobaça, que estavam a caminho de um incêndio.

Fogo em Moimenta

Também em Moimenta da Beira se viveram momentos dramáticos. As chamas começaram na localidade de Castelo, pelas 13h30. Naquele primeiro dia de agosto os termómetros marcavam 30 graus. No quartel dos bombeiros voluntários a sirene soou. Pela vasta experiência no combate a incêndios, o comandante José Requeijo tem instruções claras para os seus homens: "Atacar de imediato as chamas para que o incêndio fique dominado pouco tempo depois." Vinte homens, apoiados por quatro viaturas, deslocaram-se de imediato para a frente de fogo. Na zona abundavam combustíveis finos – palha seca – e esta foi a primeira contrariedade. Além desse "rastilho", a temperatura estava alta e o vento soprava com intensidade. Depressa as chamas alastraram a localidades vizinhas. E os meios foram reforçados. O fogo tomou a direção do vale e os acessos eram cada vez mais difíceis. O cruzamento de ventos rapidamente formou duas e três frentes de fogo.

Os bombeiros de Moimenta da Beira "atacaram" a zona entre Paradinha e Granja do Tedo, em Tabuaço. Com uma rapidez estonteante, o fogo lavrava também em Nagosela. A prioridade era agora defender as pessoas e as propriedades. Felizmente, não se registou qualquer ferido grave, mas não foi possível evitar que muitas centenas de hectares de olival e vinha ardessem por completo.

Devastação

Numa primeira avaliação, os prejuízos ascendem aos quatro milhões de euros. Centenas de pessoas perderam uma vida de trabalho e dedicação. "Foi uma tolice ter apostado na agricultura. Investi milhares de euros, trabalhei muito e de repente não tenho nada. Pior é que sei que ninguém me vai ajudar", conta Maria Emília, 79 anos. A noite chegou e eram quase 400 os bombeiros que combatiam as chamas. A falta de visibilidade é uma das maiores contrariedades. A temperatura cai, mas o vento continua a soprar com intensidade. O cansaço toma conta de alguns. Outros parece que só descansam quando não virem nenhuma chama. Ao combate juntam-se alguns populares. Tentam defender os seus terrenos como podem, mas não atrasam a progressão das chamas.

O dia nasce com a paisagem preta, fumarenta e triste. Os helicópteros sobrevoam a zona e lançam água para os focos de incêndio. A meio da manhã, o fogo é dado como dominado, mas durante vários dias os trabalhos de rescaldo continuam. "Passados cinco dias ainda se registavam reacendimentos. A acumulação de manta morta é terrível. Pensamos que já não reacende, mas o fogo continua nas raízes", explica o comandante José Requeijo. Arderam pelo menos 1200 hectares.

Os números não mostram os sacrifícios de quem tenta conter o que as chamas arrasam. "Corremos muitos riscos, mas a alma de bombeiro é ser forte, é de querer apagar o fogo." José Requeijo lamenta a morte de António Ferreira, bombeiro de Miranda do Douro. "Infelizmente, acontece pelo menos um caso destes por ano e custa muito ver partir pessoas que dão tudo para salvar outras, mas o que mais me entristece é que o País não reconhece os seus bombeiros. Uns vão de férias e aparecem nas primeiras páginas dos jornais, outros morrem no combate e por um sentimento que só quem é bombeiro é que sabe. Ninguém liga", critica o comandante.

É esta "adrenalina" inexplicável que fascina e move Maria João Santos, 27 anos. A jovem viseense é bombeira há 13 anos e desfaz-se em elogios àquela que considera ser a sua "segunda família". O dia de Maria começa às 08h00. O turno de 12 horas pode prolongar-se noite dentro, caso haja alguma ocorrência. Maria é bombeira a tempo inteiro nos Voluntários de Viseu. Está na Equipa de Combate a Incêndios, formada na época do dispositivo de combate a incêndios.

Dia a dia

Num dia típico de trabalho, o chefe distribui as tarefas. Enquanto uns tratam dos carros e de outras tarefas de manutenção do quartel, outros dedicam-se a confecionar o almoço. Mas o que Maria gosta é de sair. Ser chamada para uma ocorrência e não ter horas para chegar. "Há um risco elevado e sabemos que o incêndio é uma situação complicada. Já todos tivemos alguns sustos, mas temos de agir segundo as normas de segurança que nos foram ensinadas."

Convívio entre fardas

Os bombeiros de Viseu estão a construir uma churrasqueira, querem tornar o espaço mais funcional e encará-lo como a sua própria casa. No quartel, os bombeiros jogam ténis de mesa, matraquilhos, vêm televisão e descansam. Os laços de amizade, partilha e compaixão fortalecem-se. "O espírito de camaradagem facilita muito, podemos confidenciar os problemas pessoais e profissionais. Há sempre alguém para nos ouvir e aconselhar." Os mais novos são sempre bem-vindos. Recentemente chegaram vinte e três. Terminado o turno, Maria, que se licenciou em Serviço Social, permanece no quartel e convive com os outros soldados da paz. Fora do teatro de operações, é uma jovem solteira, com os hábitos próprios da idade. Sai com os amigos, vai ao cinema, diverte-se à noite.

Cresceu entre os bombeiros e cedo definiu o seu destino: "Teria de vir cá parar, acho que é coisa do destino", diz. Não compreende o porquê de muita gente pensar que por ser bombeira é diferente das outras. A jovem garante que não perdeu pitada da sua juventude. "Todo o tempo dedicado aos bombeiros é uma aprendizagem. Aqui adquiri muitos conhecimentos e competências que não conseguiria noutro lado", diz. Maria João Santos também faz parte das equipas de apoio psicossocial. "Presto apoio a bombeiros e familiares que enfrentam situações críticas ou traumáticas", como a que aconteceu em Miranda do Douro. Já perdeu a conta ao número de vezes que a sirene tocou e largou tudo para apagar as chamas. O último grande incêndio em que esteve foi na freguesia de Cepões, Viseu, em 2012. Os Bombeiros Voluntários de Viseu não foram chamados para o maior incêndio de 2013 no distrito e que deflagrou em Moimenta da Beira. "Foram várias corporações do distrito acionadas e tivemos de ficar de prevenção caso surgisse outro incêndio."

18 mil hectares

Os incêndios florestais consumiram, até final de julho, uma área de cerca de 18 mil hectares, perto de um quarto da área ardida em igual período de 2012, diz o relatório do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Segundo o último relatório oficial, os 6950 incêndios queimaram menos 50 031 hectares do que em 2012. Os dados, ainda provisórios, referem também que o maior incêndio do ano, registado até à data, começou a 9 de julho, no concelho de Alfândega da Fé (Bragança). Estima-se que terá consumido uma área aproximada de 14 912 hectares, dos quais cerca de 8936 são espaços florestais. Com a subida da temperatura, esperam-se dias difíceis nas próximas semanas.

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