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Correio da Manhã

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O encontro

“Ele assumiu o controlo e ela deixa-se conduzir, quando ele lhe abre a porta do carro”
Tiago Rebelo 27 de Novembro de 2011 às 00:00
O homem estátua
O homem estátua

Sentados numa esplanada na ponta do cais, ouvem o rumorejar das águas calmas a embaterem com uma cadência perfeita contra a pedra. A ponte à frente deles atravessa o rio ao final da tarde.

Os óculos de sol tapam-lhe os olhos, escondem a alma. Ele sabe o que faz e ela penaliza-se por não ter trazido também uns óculos para se proteger atrás deles. Porventura, ajudá-la-iam a sentir-se menos insegura.

Ele sugeriu aquele lugar encantador como se fosse apenas por uma questão prática, pois trabalha ali perto. Preciso de apanhar um bocado de ar, disse, se não te importas, vamos tomar um café. Não se importou, mas veio ter com ele com o nervosismo latente de um primeiro encontro. É uma parvoíce, diz de si para si, já não tenho idade, e no entanto não o consegue evitar.

Conheceram-se há dias num casamento de amigos comuns. Acabaram sozinhos na mesa quando os outros casais se levantaram para dançar no final do jantar. Ela não tinha par, ele também não. Ele, no lado oposto da mesa redonda, olhou para ela, sorriu-lhe, encolheu os ombros. Ela fez o mesmo. Ele levanta-se, rodeia a mesa e vai sentar-se ao lado dela. Apresenta-se, conversam, riem-se muito, chegam a dançar.

Ele telefonou-lhe, convidou-a para um café e ali estão. O sol vai caindo, as águas vão escurecendo. Ao longe, a ponte revela uma fila de pontos de luz dos faróis e, por baixo, a cidade ilumina-se. Ele retira os óculos, sorri-lhe, e ela sente-se menos ansiosa. A noite chega, ela estremece com um arrepio. Tens frio?, pergunta-lhe, atento. Um bocadinho, responde, esfregando os braços com as mãos. Ele chama o empregado, paga a conta.

Vão caminhando pela margem do rio. Ele despe o casaco, coloca-lho pelas costas, passando o braço por cima dos ombros dela e deixando-o ficar assim, como se fossem um casal de namorados. Mais quentinha? Muito melhor, obrigado, admite ela, dividida entre a ousadia dele, que se lhe afigura um pouco impertinente, e o agradável calor do seu corpo ainda presente no casaco. Leva os braços cruzados, vai um pouco rígida, o instinto diz-lhe que se liberte dele, mas a vontade derrete-se no seu abraço e dali a pouco relaxa, cede, encosta-se a ele.

Ele faz um comentário divertido sobre qualquer coisa e ela solta uma gargalhada espontânea, deixando escapar o último vestígio de resistência. Ele assumiu o controlo e ela deixa-se conduzir, quando ele lhe abre a porta do carro, dá a volta pela frente, abre a sua porta, entra, segura-lhe o rosto carinhosamente com as duas mãos, beija-a na boca. E ela, abandonada nas suas mãos, sentindo-se como se se dissolvesse nele, pensa, arrebatada, pronto, lá vou eu outra vez em direcção ao desconhecido.

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