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Correio da Manhã

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O ESPELHO

“A noite transforma os sons, os gestos e as palavras. Os sons que pontilham aquilo que ouço seriam iguais aos que, durante o dia, se misturam”
23 de Março de 2003 às 16:20
A noite é a sua presença. Lá fora, a Lua e as estrelas seguram a noite sobre as árvores, sobre as casas e sobre qualquer pessoa que ainda caminhe sozinha pelas ruas da vila. Aqui, a noite é a cama de ferro e os lençóis brancos, estendidos, limpos. O meu quarto é o sítio onde posso existir sozinha e sem segredos. Aqui, a noite é o som quase silencioso do pavio do candeeiro de petróleo a arder lentamente. Aqui, o meu rosto reflectido no espelho. E, atrás dessa imagem vaga de mim, os ruídos da minha mãe ainda acordada: uma cadeira a arrastar-se durante um momento, ou os seus passos, ou objectos debaixo das suas mãos. O candeeiro de petróleo ilumina as sombras paradas do quarto. Vejo-me no espelho e espero. Os meus olhos são como cristal. Através deles, consigo ver depois deles. No espelho, como se a vida estivesse organizada numa superfície; nos meus olhos, como se existisse um brilho ou qualquer coisa inexplicável a organizar a vida, vejo os primeiros dias em que fechei a porta do quarto e em que fechei a amargura dentro de mim.

Eu era demasiado pequena para entender. À noite, a minha mãe cantava-me canções. A sua voz estendia-se sobre o meu rosto deitado na almofada. Eu sentia a suavidade da almofada e, ao mesmo tempo, sentia a suavidade da voz da minha mãe. As suas palavras, como a sua voz, eram a paz, e tudo era essas palavras e essa voz. Antes, a minha mãe despia-me. Eu brincava e falava de coisas que eram distantes daquele momento. A minha mãe, antes de cantar canções para me adormecer, despia-me. O seu rosto estava parado naquele momento e era sério. Eu não entendia porque motivo o rosto da minha mãe era tão sério. Eu sorria, brincava, falava de coisas distantes.

A minha mãe permanecia séria enquanto os seus dedos, a tocarem levemente a minha pele, me despiam. E havia a noite. Eu ainda não sabia que a noite é a sua presença. Depois, no início da manhã, a minha mãe voltava a entrar no quarto. Com ela, entrava também a luz. O dia começava. O meu corpo, de pé, ao lado da cama. A minha mãe tirava-me a camisa de dormir. Os meus cabelos negros, despenteados, cobriam-me ligeiramente o rosto. E a minha mãe começava a vestir-me. Mesmo nos dias mais quentes do Verão, eu sentia sempre os dedos da minha mãe a abotoarem--me o último botão do colarinho. Com o pescoço apertado, eu pedia à minha mãe se podia desabotoar um ou dois botões. A minha mãe tinha o rosto sério quando dizia que não. Eu voltava a pedir.

A minha mãe voltava a olhar para mim com o mesmo rosto sério e voltava a dizer que não. Com o tempo, aprendi que não valia a pena pedir, por isso não o voltei a fazer. Nesse tempo, havia meninas que vinham a minha casa para brincar comigo. Ficávamos na sala sob o olhar da minha mãe. Numa dessas tardes, houve uma menina que tentou desabotoar-me a camisa para pôr-me no pescoço um colar de plástico das bonecas. A minha mãe, no mesmo instante, saltou da cadeira, segurou as mãos da menina e disse que eu não gostava que me mexessem na camisa. Eu fiquei em silêncio a olhar para a minha mãe. Eu era demasiado pequena para entender.

Enquanto me vejo no espelho, os ruídos da minha mãe: a minha imagem e os ruídos da minha mãe ainda acordada: os seus passos, os seus passos a subirem os degraus da escada, os seus passos sobre o tecto do quarto, as suas mãos a abrirem a tampa de madeira de uma arca e o som límpido do cristal. Debaixo disto, a minha imagem no espelho, eu a ver os meus olhos que são os mesmos do dia em que a mestra se sentou na secretária e disse que íamos começar a estudar o corpo humano. Era uma tarde do início do Verão. O sol entrava pelo fundo das portadas e lançava-se plano sobre a mesa. A mestra abriu um livro com fotografias.

Foi essa a primeira vez que vi um corpo nu. Foi nesse dia que soube. Depois, houve outros dias. Houve as tardes em que eu era já uma rapariga e, da janela, via raparigas que caminhavam no passeio com blusas que deixavam os ombros à mostra. Eu tinha a camisa abotoada até ao último botão do colarinho e caminhava pelos corredores, passava em silêncio pela minha mãe, séria, parada a olhar para mim, e entrava no meu quarto, neste quarto, e, depois de fechar a porta, chorava.

Passou tempo e eu não esperava que, um dia, chegasses. Mas passou tempo. Um dia, chegaste. Caminhávamos na rua. Eu pensava em qualquer coisa que não era a ideia de chegares, como uma avalanche que arrasta tudo à sua passagem, como uma multidão a pisar cada pedaço de terra. E a rua ficou deserta quando nos aproximámos. Éramos desconhecidos no instante em que olhámos um para o outro. Passou esse instante e, dentro de nós, conhecemo-nos. Chegaste.

Eu não te esperava. Contigo, trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo, soubemos que não nos tínhamos separado. Em casa, nos corredores, passei em silêncio pela minha mãe, séria, parada a olhar para mim. Olhei para o seu rosto e vi tudo aquilo que sabia impossível. Entrei no meu quarto, neste quarto, fechei a porta e chorei.

A noite transforma os sons, os gestos e as palavras. Os sons que pontilham aquilo que ouço seriam iguais aos que, durante o dia, se misturam uns com os outros. No entanto, aqui, são únicos e nocturnos. Os gestos são únicos e nocturnos. Quase em silêncio, digo: amor.

na noite, entre os sons, entre os gestos. A minha mãe já adormeceu. Existo eu e existem as paredes da casa. A solidão. Reflectida pelo espelho, começo a despir-me. Nos meus dedos, os botões da camisa, um a um. Devagar, pouso a camisa direita, sem vincos, sobre a cadeira. No espelho, a imagem do meu corpo: os músculos e as veias, a carne e o sangue. No espelho, a minha barriga, o meu peito e os meus ombros são como se estivessem em carne viva.

A pele, transparente, fina, segura os músculos que me envolvem. Ao fazer um gesto, os músculos mexem-se como um feixe de carne viva. Entre mim e a minha mãe, o silêncio. Entre o olhar da minha mãe e o meu, tantas coisas que nunca dissemos e que só nós duas sabemos. Tu nunca saberás que sou um monstro. A ternura e o desejo não são suficientes para vencer aquilo que é invencível. Como o veneno, como capricórnio, como o Inverno, suporto o segredo que descubro sozinha. A pele do meu peito, transparente, demasiado fina, é como os meus olhos a mostrarem tudo o que escondo. Eu sou um monstro.

Como o veneno, como capricórnio, como o Inverno, o meu caminho é inevitável. Eu sou um monstro. Nunca ninguém me passará os dedos pelos ombros. Os lábios. Nunca ninguém me fará carícias nos seios.

Beijos. Eu sou um monstro. No corredor, a minha mãe continuará séria, parada a olhar para mim. No meu quarto, neste quarto, continuarei a esperar que adormeça antes de me despir. Tu continuarás longe, a imaginar-me sem entender. E a noite continuará para sempre reflectida neste espelho.
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