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O estuário do Tejo como já não se via

Os avistamentos de golfinhos têm alimentado a esperança de um estuário do Tejo mais limpo. Agora, Os biólogos confirmam-no
11 de Março de 2012 às 00:00
No mouchão do Tejo, os flamingos são uma das espécies de aves em crescimento
No mouchão do Tejo, os flamingos são uma das espécies de aves em crescimento FOTO: Bruno Colaço

Ouvem-se as corvinas. O pescador desliga o motor do barco e encosta o ouvido ao casco: já só se ouvem os sons deste peixe e a ondulação do Tejo. Nas marés mortas, com a água mais límpida, os golfinhos (roazes-corvineiros) entram pelo estuário até à Ponte 25 de Abril – e no Verão passado chegaram à Vasco da Gama. Este ano já foram mais as vezes em que se aventuraram. Vão à procura de alimento. Tal como o casal de pescadores, António José e Paula, no barco ‘Lobo do Mar’, de sete metros de comprimento, procuram corvinas. Se a poluição das águas não tivesse diminuído, nem os pescadores nem aquela espécie de golfinho estariam ali. "Por acaso, fui eu que pesquei a maior corvina com anzóis", garante António. Trinta e oito quilos e meio!

São dos poucos da arte do palangre – pesca com aparelhos de anzóis. A isca já nem é peixe, é borracha colorida que dentro de água oscila.

Já há dois anos, contam, estavam a pescar corvina – com redes – e os golfinhos faziam cerco ao barco. "Tive a sorte de apanhar um ‘tamagotchi’ – um cardume, como a gente lhe chama. Deu 700 e tal quilos" – recorda António. E Paula acrescenta: "Este barco ia cheio de peixe. Eu nem tinha onde pôr os pés."

Todos os dias, entre Janeiro e Maio, antes da invasão de alforrecas, António José, 49 anos, manobra o motor do ‘Lobo do Mar’ enquanto Paula, 48, puxa a linha e agarra o peixe capturado. "O rio está menos poluído. Vê--se pelas entradas de peixe. Há dez anos, era raro apanhar-se corvina. E viam-se naftas e óleos na água. Estava poluída. Cheirava a diesel" – conta o pescador. Mas o Tejo ainda não está livre da poluição.

Já passa das onze da manhã. O casal do Bairro dos Avieiros, da Póvoa de Santa Iria, dirige-se para o pontão sobre o lodo. Cheira mal – tresanda. Os afluentes dos esgotos desaguam ali, a céu aberto. Vinte e oito mil habitantes. São os resíduos da Póvoa e do Forte da Casa. Mais tarde, um técnico da Câmara de Vila Franca de Xira viria a explicar que está a ser construído um emissário que vai desviar os resíduos para a ETAR (Estação de Tratamento de Águas Residuais) de Alverca e "acabar com esta vergonha".

No ‘Lobo do Mar’, pescaram--se duas corvinas e uma dúzia de robalos (o mais pesado com dois quilos). "Daqui a um mês, se Deus quiser, já trazemos o barco cheio de corvinas."

António descai-se com uma inconfidência: quem compra o seu peixe, na banca do irmão no mercado de Alvalade Norte, em Lisboa, é o ministro das Finanças, Vítor Gaspar.

A ERA DA DESPOLUIÇÃO

Há 35 anos a estudar o estuário do Tejo, Maria José Costa, directora do Centro de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explica que "podemos afirmar que a melhoria das condições ambientais resultante da diminuição da poluição [no rio Tejo] é devido quer à redução do excesso de matéria orgânica pela entrada em funcionamento de várias ETAR, quer à diminuição da contaminação resultante de actividades industriais pesadas; o que potencia a instalação de novas espécies e o aumento do número efectivo já existente, sendo isto válido para todas as espécies, inclusive as de peixes".

Mas para a distribuição de espécies de peixes no rio contribuem também as alterações climáticas. Já é raro haver solha no estuário. E, pelo contrário, o linguado-do-Senegal e o sargo-do-Senegal são espécies mais frequentes. Por outro lado, as barragens têm também levado à diminuição de espécies como enguia, lampreia e sável. Este último foi o peixe que levou os antepassados de António José a migrar, a partir do início do século passado, da praia de Vieira de Leiria para as margens do Tejo – são estes os avieiros.

ESPERANÇA PARA O BARREIRO

A profusão de aves é outro dos indicadores da melhoria da qualidade ambiental. Helena Pinto, da Reserva Natural do Estuário do Tejo, que cobre cerca de 25% da zona do estuário, diz que tem sido possível manter a quantidade e variedade das espécies. Há 20 anos, viam-se poucos patos brancos, espátulas, garças brancas e íbis pretos. Agora, vêem-se mais. Já para não falar nos flamingos, que são o ex-líbris da reserva.

Carla Graça, da Quercus, confirma a melhoria da qualidade da água. O que "é facilmente explicável com o encerramento de indústrias pesadas como a Lisnave (Almada), Quimiparque (Barreiro) e Siderurgia (Seixal) e com a melhoria do tratamento dos esgotos nas ETAR de Alcântara, Seixal e Barreiro/Moita". Outro dos indicadores da despoluição é o reaparecimento da ostra portuguesa – ainda é pequena e sem valor comercial, mas o que é facto é que tinha desaparecido nos anos 60.

Já o presidente da Quercus alerta para os problemas que "ocorrem nas zonas mais a montante do rio, no Tejo internacional e em Vila Velha de Ródão, por exemplo, que têm que ver com descargas poluentes, fertilizantes e com a central nuclear de Almaraz. Mas junto ao estuário a melhoria é notória" – afirma Nuno Sequeira.

Segundo o Instituto da Água (INAG), "das 35 Águas Balneares Interiores existentes na bacia do Tejo, verificou-se que, no ano de 2000, 81,9% cumpriram os critérios de qualidade" e, já "em 2010, 96,3% cumpriram os critérios de qualidade para as águas balneares".

O delegado de Saúde Mário Durval acredita mesmo que em breve possa ser levantada a interdição a banhos nas praias fluviais do Barreiro. "Se a ETAR começar a trabalhar a 100% nos próximos dias, evitando as descargas para o rio Coina, no Verão até poderão já estar reunidas as condições mínimas para a prática balnear", afirma.

Também nos desportos náuticos – "agora menos molestados pelos maus cheiros e pela poluição" –, segundo André Bettencourt Correia, comodoro da Associação Naval de Lisboa, "a qualidade da água no Tejo não condiciona a navegação dos barcos de remo e vela, mas a sua melhoria tem um efeito benéfico ao nível social e da agradabilidade do convívio com o meio".

Mas quanto aos golfinhos, a investigadora Erica Sá, do Centro de Oceanografia, explica que "a única população de golfinhos residentes em Portugal continental é a do Sado. No Tejo, existiram até à década de 50. Os últimos avistados são golfinhos comuns, que vivem no oceano junto à costa e que entram no rio em busca de alimento. Comem peixes como a corvina, também cada vez mais frequentes no Tejo".

NOTAS

1989

Marcelo Rebelo de Sousa era candidato à Câmara de Lisboa e mergulhou no poluído Tejo.

1038 QUILÓMETROS

Do percurso do Tejo, 230 km são em território nacional. O estuário ocupa 320 km2.

BACIA

A bacia hidrográfica é a terceira mais extensa na Península, depois da do Douro e Ebro.

DOURO MAIS POLUÍDO MAS COM LONTRAS

Ir a banhos no rio Douro é um risco. "O nível de contaminação fecal é cem a 500 vezes superior, consoante a época do ano, aos critérios da Bandeira Azul", alerta Adriano Bordalo e Sá, professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto.

A estudar o Estuário do Douro desde 1984, o hidrobiólogo acrescenta que "o rio não tem mostrado, de maneira nenhuma, melhorias". O grande problema é justamente a contaminação fecal, já que persiste o lançamento de esgotos não tratados, ou "mal tratados", pelas oito ETAR que drenam para o estuário. "Porto, Gaia e Gondomar continuam a drenar parcialmente – na ordem dos 20 a 50% – esgotos sem tratamento." Dois problemas: primeiro, no Verão há pessoas a tomar banho no estuário – "gente de poucos recursos económicos, principalmente"; o segundo, os esgotos sem tratamento têm grande impacto no peixe e nos bivalves – "e numa situação de crise, há muitas pessoas a apanhar berbigão e amêijoa para consumo, outros pescam peixe para alimentar as famílias".

As espécies mais afectadas são as solhas e tainhas, mas o rio também é rico em robalos, enguias e lampreias. "Desde 1984, em termos de qualidade ambiental, o rio foi piorando até 2003. Depois, com a entrada em funcionamento da ETAR do Grande Porto, em Sobreiras, a qualidade melhorou, sem nunca estar boa." Anos mais tarde, voltou a piorar. "E, fruto também das alterações climáticas – redução da precipitação e o uso abusivo da água para regadio, especialmente em Espanha – o estuário tem recebido menos água e tende a salinizar-se" – explica Bordalo e Sá.

No ano passado foi fotografada uma lontra na Reserva Natural Local do Estuário do Douro, em Vila Nova de Gaia, o que significa que a população desta espécie é mais abundante do que se julgava. Desde 2007 que as lontras tinham regressado ao Douro, nas zonas de Foz Tua, Pocinho, Douro Internacional, Pinhão e Régua. Acontece que esta espécie de animais convive bem com a poluição.

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