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O eterno guerreiro

Herói da Guerra em África, Alpoim Calvão foi bombista do MDLP no Pós-25 de Abril. Conta em livro uma vida de batalhas
José Carlos Marques 7 de Outubro de 2012 às 15:01
Fotografado quarta-feira na sua casa em Cascais
Fotografado quarta-feira na sua casa em Cascais FOTO: Vítor Mota

Com apenas um ano de idade, Guilherme Almor de Alpoim Calvão deixa para trás a sua Chaves natal e parte com os pais para Moçambique. Ganha em África o gosto pelo mar. Descendente de uma família de militares, Alpoim toma para si o chamamento da farda e nunca quis outra coisa que não fosse a Marinha. "Aprendi a nadar aos quatro ou cinco anos nas praias de Lourenço Marques e interessava-me por navios. Lembro-me ver os avisos de primeira classe a passar. Quando passei para o sexto ano, escolhi a alínea F do curso, que era a que dava acesso à carreira militar", conta na entrevista à Domingo.

Quando a Guerra Colonial rebenta em Angola, em 1961, Alpoim está colocado nos submarinos. Percebe que nunca seria mobilizado para a guerra, como tanto desejava, se continuasse nos submersíveis. Pede então para ser transferido para os fuzileiros. Em menos de um ano, está a comandar um destacamento na Guiné – onde se notabiliza pela destreza em combate.

Ao longo da Guerra Colonial, Alpoim Calvão recebe as mais altas condecorações por feitos em combate: tem uma insígnia da Torre e Espada e duas Cruzes de Guerra. Na segunda comissão na Guiné, já sob as ordens do comandante-chefe António de Spínola, assume o comando das operações especiais. Protagoniza acções espectaculares, como a operação ‘Mar Verde’, em que toma de assalto a capital da Guiné-Conacri para libertar 24 prisioneiros portugueses.

De regresso a Portugal, Calvão chega a comandante da Polícia Marítima. Em 1974, é convidado para se juntar ao Movimento dos Capitães, que fariam o 25 de Abril. Recusa entrar no golpe porque os militares "não tinham definido o futuro do Ultramar". É o início da luta contra a esquerda. Combate o PCP à bomba: acredita que "Portugal corria então o risco de se tornar um país comunista" – e assume-se como o cérebro operacional do MDLP. Exilado após o golpe falhado de 11 de Março de 1975, inicia uma carreira empresarial no Brasil e na Guiné-Bissau. Hoje, aos 75 anos, com três filhos e sete netos, diz-se "um homem em paz".

- Como surgiu a escolha da vida militar?

 

- Eu sou natural de Chaves e venho de uma família que tem muitos militares no seu seio. Aconteceu naturalmente. Tinha um ano quando parti com os meus pais para Lourenço Marques, em Moçambique, e desde cedo fiquei com a ideia de que haveria de escolher a vida militar. Acabei por ir para a Marinha porque tinha um grande interesse pelo mar. Aprendi a nadar aos quatro ou cinco anos, nas praias de Lourenço Marques lembro-me ver os avisos de primeira classe a passar. Quando passei para o sexto ano escolhi a alínea F do curso, que era a que dava acesso à carreira militar. Vim para Metrópole em 1953 para concorrer à escola do Exército. Na altura os cursos preparatórios de acesso às armas era comum aos três ramos. Entrei num curso engraçado, porque estavam lá o Jaime Neves, o Ramalho Eanes, o Melo Antunes. Havia uma grande diversidade.  Foi interessante, porque quando mais tarde nos encontrámos em África como capitães e primeiros-tenentes e os assuntos eram resolvidos entre nós com grande facilidade.

 

VOLUNTÁRIO PARA A GUINÉ

 

- Quando a guerra começa em Angola, em 1961, onde é que estava colocado?

 

- Estava na Direcção do Serviço de Submarinos, com os mergulhadores da Armada. A primeira especialização que tive foi a de mergulhador sapador, aquilo a que chamávamos os mergulhadores de combate. Fui fazer um curso de especialização em Inglaterra, em Portsmouth. Era um curso duro e prolongado. Quando voltei a Lisboa, fiquei encarregado do grupo de mergulhadores da Armada e fiz a especialização em submarinos. Na altura tínhamos três submarinos, era material do tempo da II Guerra Mundial. Quando aparecem os fuzileiros eu já tinha duas especializações.

 


 


 

 

- Como é que aconteceu a sua mobilização para a guerra colonial?

 

- Quando se começou a desenhar a possibilidade de haver problemas nos territórios ultramarinos a Marinha começou a preparar-se. O então subchefe do Estado –Maior da Armada, que depois foi um grande Chefe do Estado-Maior da Armada, o Almirante Armando Reboredo fez uma proposta para a criação de um corpo de desembarque, que deu origem a uma nova classe da Marinha,os fuzileiros. Eu tentei sair dos submarinos, mas não me deixavam porque eu tinha duas especializações que eram muito necessárias lá. O comandante da esquadrilha não me queria deixar sair e eu disse-lhe que ia falar com o chefe do Estado-Maior da Armada. Em princípios de 1963, expliquei ao Almirante Reboredo que eu achava que a finalidade última das Forças Armadas era combater. Não me sentia bem, tendo a possibilidade de combater, estar num serviço que tão cedo não ia entrar em combate. O Almirante compreendeu e deu-me ordem de transferência para os fuzileiros, onde fui tirar o curso. Mas expliquei claramente ao Almirante que ia tirar o curso para combater. Não queria ficar como instrutor na escola, queria liderar um destacamento na Guiné-Bissau.

 

- Porquê a Guiné-Bissau?

 

- Era o cenário ideal para  a utilização dos fuzileiros. Havia muitos rios, água, grandes extensões e isso para mim era o terreno por excelência dos fuzileiros. Tinha um desejo real de conhecer o que era a guerra. Tinha ânsia de combater. Tive sempre o feitio aventureiro e queria participar. Cheguei à Guiné em 1963, quatro dias depois de acabar o curso. Aos 26 anos, casado e pai de um filho, era primeiro-tenente , o que equivalia a capitão. Fiquei a comandar o destacamento nº8, com 75 homens.

 

- Combater por aqueles territórios era um dever que não se questionava?

 

- A maior parte das etnias que estavam na Guiné-Bissau chegaram depois dos portugueses. E ainda para mais na Guiné-Bissau havia mais de 30 etnias cujo único traço de união eram a administração e a língua portuguesas.

 

- Como foi a adaptação ao terreno?

 

- Não precisava de me adaptar. Eu era um africano. Nunca tive o problema do ‘outro’. Desde que me lembro que os meus melhores amigos eram todos africanos. No liceu havia todas as modalidades de melanina possíveis. Pretos, mulatos, chineses, indianos, para mim a convivência era natural. A Guiné lembrou-me logo toda a minha infância. Passados quinze dias de ter chegado ao território já estava em combate. Nas primeiras semanas, habituámo-nos aos tiros, ao ‘frisson’ das balas que vinham sem sabermos de onde. Não há ninguém que não tenha medo. Só um inconsciente é que não tem medo. A grande habilidade é engolir o medo e não o deixar manifestar-se. Nunca parámos durante os dois anos daquela comissão. Participei na Operação Tridente, na Ilha do Como. Durou 70 dias e foi a maior operação de toda a guerra colonial. Foi a minha verdadeira escola de guerra, em que estive envolvido em mais de 30 combates, com muitos mortos e feridos. Quando saímos, a ilha estava limpa de inimigos, mas este tipo de guerra não tem frentes.

 

- Quando termina essa primeira comissão?

 

- Estive na Guiné-Bissau de 1963 a 1965. Regressei a Lisboa e fui promovido com distinção a capitão-tenente. Colocaram-me na escola de fuzileiros. Não me aborrecia porque estava ligado à guerra e preparei muita gente. Era o único oficial e cheguei a ter 2033 homens sob o meu comando. Tive depois um desaguisado com o Ministro da Marinha e o ‘castigo’ foi ser mandado de volta a Guiné. Parti em 1969, em Fevereiro, no dia em que houve um terramoto em Lisboa.

 

SPÍNOLA INTENSIFICOU A GUERRA

 

- Quando conheceu António de Spínola?

 

- Conheci o então brigadeiro António de Spínola, que era o comandante-chefe e governador da Guiné, logo no aeroporto. Foi-me apresentado por um amigo. Ele estava como sempre, impecável no seu monólogo e casaco aprumado. Não suava, era uma coisa formidável. Disse-me ele: ‘Sr. Comandante, espero que nos vamos entender muito bem’. E eu respondi ‘não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’. Ficou um silêncio de morte, que ele quebrou ao rir-se à gargalhada. Fui colocado a comandar o COP 3 a Norte em Bigene. Tínhamos uma actividade de assaltos, operações, golpes de mão, patrulhas nos rios… Além dos fuzileiros tinha uma unidade do exército. Depois fiquei a chefiar as operações especiais no território.

 


 


 

 

- Spínola alterou a estratégia da guerra. O que mudou?

 

- A guerra teve uma continuidade, mas Spínola tornou-se mais agressivo. Intensificou as operações, mas também o apoio às populações. No COP3 fartei-me de fazer casas que eram entregues aos nativos. As populações gostavam mesmo do Spínola. Ele aparecia de helicóptero, com o ajudante, fosse onde fosse. Tinha um certo carisma, aparecia com o monóculo, luvas, camuflados retocados pelo alfaiate, fazia figura. Além dele, conheci dois outros comandantes-chefes na Guiné-Bissau. Louro de Sousa era um bom oficial do Estado-Maior, mas não tinha jeito nenhum para comandar as tropas. Arnaldo Schulz era muito inteligente, mas levava as coisas com mais calma. Para Spínola, para a frente é que era o caminho. Com Schulz eu fazia operações no Sul da Guiné, em que entrava na Guiné-Conacri e ele chegou a suspender-me os movimentos para não criar problemas. Só pude realizar esse tipo de operações cinco anos depois, com o Spínola, que me deixava fazer tudo.

 

A INVASÃO DE CONACRI

 

- Como é que chegaram a essa ideia de atacar um país estrangeiro, invadindo a capital, concretizada na Operação Mar Verde, em 1970?

 

- Essa operação obedeceu a muita reflexão. Nós éramos um estado legítimo e não podíamos atravessar a fronteira. Mas os tipos que nos atacavam ultrapassavam a fronteira quando queriam e as autoridades locais até os ajudavam. Era preciso irmos ao lado de lá. Havia o caso de um piloto da Força Aérea, o Lobato, que estava preso em Conacri há sete anos. Ao todo, estavam lá 26 prisioneiros portugueses. Uma das primeiras preocupações que tive foi libertar o Lobato, mas demorei anos a consegui-lo. Um dia Spínola disse-me que havia um movimento de contra Sékou Touré [presidente da Guiné-Conacri] que tinha ido a Lisboa pedir apoio para fazer um golpe de Estado. Lembrei-me de fazer uma incursão a Conacri e aos poucos fomos evoluir para isso. Os tipos do Front de Liberation iam tentar um golpe de Estado, com o nosso apoio. A nossa função era libertar os prisioneiros e afundar as lanchas do PAIGC.

 

- Quem é que planeou a operação?

 

- Fui eu que planeei e executei. Mas houve muitas dificuldades. Não havia nem o princípiozinho de uma rede de informações. Não sabíamos nada do que se passava em Conacri. Fui ao comando naval de Bissau pedir uma carta do Porto de Conacri e nem isso tinham. Tive de usar um estratagema. Os navios que ainda hoje entram na Guiné têm de ter um piloto a bordo. Entrei num navio polaco fazendo-me passar por ajudante do piloto e roubei uma carta do porto de Conacri. Foi o meu ponto de partida, mas a carta tinha muitas imprecisões. Disse a Spínola que tinha mesmo de ir a Conacri. Mandei pintar um navio patrulha nosso de cinzento claro, com a bandeira do PAIGC hasteada e lá fomos. Um militar das nossas tropas africanas fazia a continência sempre que nos cruzávamos com algum navio. Entrámos no porto de madrugada e fizemos as correcções à carta. Tivemos um momento de grande emoção quando houve uma avaria na máquina e ficámos parados no meio do porto. Mas saímos sem ninguém dar conta.

 

- Houve mais percalços nessa preparação?

 

- A seguir veio outro problema que era o de saber como era a cidade de Conacri. Até os tipos da Front de Liberation estavam há muito tempo afastados do país e não nos davam informações precisas. O problema resolveu-se por uma casualidade. Quando estava a comandar no Norte da Guiné-Bissau houve dois tipos que desertaram. Um deles apresentou-se em Lisboa meses depois. Quando eu andava a tentar resolver estes problemas da operação, ligaram-me de Lisboa a dar conta de que ele se tinha apresentado. Perguntei por onde ele tinha andado e disseram-me que estivera em Conacri. Pedi imediatamente que o mandassem para Bissau e foi ele que nos ajudou a completar o mapa que tínhamos da cidade, localizando todos os pontos que precisávamos de atacar, incluindo a prisão onde estavam os portugueses.

 

- Como correu a invasão?

 

- Nós éramos trezentos homens para atacar uma cidade de 50 mil habitantes. Tínhamos bem definidos os pontos a atacar. Chegámos à 1h00, numa noite de sábado para Domingo numa noite de Lua Nova. Correu tudo como planeado.

 

- Era vosso objectivo eliminar Sékou Touré?

 

- Não, o Touré era um alvo de passagem, como seria o Amílcar Cabral ou outro dirigente do PAIGC. Os objectivos eram libertar os prisioneiros e afundar as lanchas. Se por acaso apanhássemos algum tipo desses, era um bónus e seriam mortos. Ocupámos quase todos os pontos planeados. Capturámos a Guarda Republicana toda, com o Marcelino da Mata que era furriel. Para nossa surpresa libertámos 400 presos políticos que estavam na sede da Guarda em celas subterrâneas . Capturámos o ministro da Defesa, que entregámos aos tipos do Front de Liberation. A prisão foi tomada à força de bazucas que derrubaram os muros. Conseguimos retirar os 26 prisioneiros. Estivemos na casa de Amílcar Cabral, mas ele não estava. O presidente também não se encontrava na cidade. Destruímos muito material do inimigo, mas falhámos a destruição dos aviões MIG porque não tínhamos informação sobre a presença deles no aeroporto. Falhei a promessa que fiz ao Marcelo Caetano de não deixar vestígios.

 


 


 

 

- Então Presidente do Conselho sabia da operação?

 

- Fui eu que apresentei o plano ao Marcelo Caetano. Foi uma ‘esperteza’ do Spínola, mandou-me a Lisboa para dar conhecimento da Operação ao Presidente do Conselho. Levava uma carta de Spínola para Marcelo Caetano num envelope fechado, que não abri. Só anos mais tarde li essa carta num livro que dizia apenas que eu estava ali para explicar o plano da operação.

 

- Como é que Marcelo Caetano reagiu a uma ideia tão radical?

 

- Para minha surpresa, ele ouviu tudo sem pestanejar. Eu ainda não tinha acabado de explicar e ele disse que autorizava. Até fiquei gago. Só me pediu para não deixar vestígios e eu prometi que o faria.

 

AMÍLCAR CABRAL E AS HESITAÇÕES DE LISBOA

 

- Os portugueses tiveram alguma coisa a ver com a morte de Amílcar Cabral, em 1973?

 

- Não. Toda a gente sabe quem matou o Amílcar Cabral. Ainda um dia hei-de escrever a história do PAIGC . Tenho acesso a todos os arquivos, só ainda não tive paciência. Dentro do PAIGC havia rivalidades terríveis e eles resolviam a coisa matando-se uns aos outros. Havia um ódio grande entre eles. O tipo que matou Amílcar Cabral chama-se Inocêncio Kani, que era o líder da Marinha do PAIGC. Matou Cabral com um tiro no fígado. Durante a Operação Mar Verde estivemos na casa de Cabral e disparámos tiros, mas não estava lá ninguém.

 

- Acompanhou a viagem secreta de Spínola ao Senegal para se encontrar com Léopold Senghor, para estabelecer uma ponte com o PAIGC?

 

- Não estive lá mas sei de tudo o que passou. A ideia era conversar com os líderes do PAIGC. O que estragou tudo foram as hesitações de Lisboa.

 

- Spínola convenceu-se de que não seria possível uma vitória militar…

 

- Desde o princípio que nós sabíamos que aquele tipo de guerras não tem solução militar. O que fizemos desde o princípio foi dar tempo e espaço para que se fizesse a manobra política, que nunca se conseguiu fazer. Marcelo Caetano teria as suas razões. Lembro-me de falar com ele, já em 1973, e sugeri-lhe uma maneira de ganhar tempo. Disse-lhe que deveria fazer um anúncio de que nós estaríamos prontos a fazer um referendo à independência das colónias, que avançaria desde logo nas províncias pacificadas de Cabo Verde, São Tomé e Timor, e que só se faria nos outros territórios quando cessasse a guerra. Isto passaria a iniciativa para o lado dos que nos combatiam. Ele não foi capaz de levar à frente esta ideia.Nessa altura, em Angola já não havia quase guerra. A UNITA trabalhava connosco, a FNLA - disse-me o próprio Holden Roberto -  estava a passar por grandes dificuldades e o MPLA também estava nas últimas. Em Moçambique a situação também estava controlada.

 

- Mas na Guiné a chegada dos mísseis anti aéreos ‘strella’ não desequilibrou o conflito para o lado dos independentistas?

 

- Não, os mísseis criaram uma dificuldade acrescentada. Tivemos problemas até descobrirmos a maneira de fintar o míssil. E a solução era simples: o míssil funcionava por infra-vermelhos e procurava o calor. No caso dos helicópteros bastou virar a saída das turbinas para cima. Os aviões voavam mais alto, porque o míssil só tinha um alcance de 800 metros. Fiquei na Guiné até ao final de 1970. Vim para Lisboa chefiar o gabinete de estudos de guerra subversiva. Ia muitas vezes aos três cenários de combate, verificar o que estava acontecer no terreno, corrigir tácticas… Viajava muito para os cenários de conflito.

 


 


 

 

- Manteve a ligação com Spínola?

 

- Sim, eu era muito próximo dele a vida toda, até ele morrer. Dávamo-nos muito bem. Mas tivemos pegas enormes, que resolvíamos prontamente.

 

A RECUSA DO CONVITE DOS CAPITÃES

 

- Pouco antes do 25 de Abril de 1974, chegou a ser convidado para pertencer ao Movimento dos Capitães. Porque recusou?

 

- Por causa do Ultramar. Foram a minha casa explicar-me o que pretendiam, mas não sabiam ainda qual a posição a tomar sobre as províncias ultramarinas. E eu disse-lhe logo que sem ter isso definido não podiam contar comigo. A partir daí entrei num combate constante contra o ‘25/A’, que dura até hoje.

 

- Qual era para si a solução para o Ultramar?

 

- O Caetano teria ganho muito tempo se tivesse seguido a minha sugestão de avançar com referendos à auto-determinação nos territórios pacificados. Isso poderia ser a solução. Não entrei no Movimento porque temi que acontecesse o que veio a acontecer – um abandono desorganizado das colónias, em que quem lá estava perdeu tudo.

 

BOMBA CONTRA TRÁFICO DE ARMAS

 

- Um episódio marcante desses tempos foi o caso do ataque ao navio Esperanza II, ordenado por si. O que aconteceu?

 

- Em Fevereiro de 1974 apareceu na barra do Tejo o navio Esperanza II, que teve problemas nas máquinas e fundeou junto a um dos pilares da ponte. O navio vinha carregado de armas e o manifesto dizia que ia para Lagos, na Nigéria. Fui alertado pelo Ministro da Defesa de que as armas tinham como destino os guerrilheiros da Frelimo, que nos combatiam em Moçambique. Perguntei ao ministro o que é que ele achava que se devia fazer e ele disse que isso era comigo. Falei depois com o Ministro da Marinha e expliquei-lhe que não ia deixar o navio passar. Não tinha andado a comandar soldados em África para depois deixar passar armas que os iam combater. Até lhe disse que não conseguiria dormir descansado se um soldado português perdesse um pé por causa de uma mina daquelas. O ministro disse-me para ter paciência, porque podia haver represálias contra navios portugueses. Respondi-lhe que já sabia o que havia de fazer, mas não lhe disse o quê. Para mim só havia um remédio, meter o navio no fundo.

 

- O que fez então?

 

- Montei uma operação para afundar o barco. Aquilo era quase um navio pirata. A primeira vez que fomos a bordo foi por causa de uma queixa do comandante contra um imediato que tinha armado uma cena de porrada. A situação é que estavam 500 toneladas de munições e explosivos junto à ponte. A primeira medida foi afastar o navio para juzante. Depois, numa das visitas que fizemos a bordo levámos uma bomba relógio. Usámos explosivos trotil russos e um relógio comprado na Alemanha oriental. Se houvesse problemas, era impossível dizerem que a bomba era nossa. A bomba ia dentro de uma mala que foi posta num paiol de munições. Ficou regulada para rebentar dois dias depois, para dar tempo ao navio de sair da barra, mas sem conseguir chegar à Madeira. O nosso medo era que o navio parasse noutro porto português do continente, por isso havia um dispositivo que permitia desactivar a bomba se necessário. Certo é que o navio nunca mais se viu em lado nenhum. Não sei o que lhe aconteceu, pode ter havido uma vaga que o tenha virado ao contrário… Foi o que expliquei ao tipo do MFA que me interrogou sobre o caso mais tarde, se não há corpo de delito nunca se saberá o que aconteceu. Nunca deixei de dormir por causa disto…

 

CONTRA A DERIVA COMUNISTA

 

- O que estava a fazer na sede da PIDE na manhã de 25 de Abril de 1974, quando convence o grupo de fuzileiros que aí se dirigiu a desmobilizar?

 

- Estava na sede da PIDE [então já renomeada DGS] por inerência das minhas funções. Eu era o comandante da Polícia Marítima que era a entidade que dava saída aos navios mercantes. Só o podia fazer depois da sanidade marítima dar ok, da Guarda Fiscal aprovar, da capitania verificar as cargas e da PIDE – que fazia o controlo de fronteiras – também aprovar. Naquela manhã telefonaram-me para casa a dizer que não havia nenhum navio a sair. Os armadores queixavam-se à porta do serviço. Fui à PM e o que acontecia é que estavam 12 navios parados porque não apareceu ninguém da PIDE. Tomei então a decisão de ir à sede da DGS, onde ninguém atendia o telefone, ver o que se passava.

 


 


 

 

- Tinha consciência de que estava uma revolução na rua?

 

- Só sabia o que havia na rádio, mas percebi que teria alguma coisa a ver com o tal movimento para o qual me tinham convidado. Mas, fosse o que fosse, eu tinha que continuar o meu trabalho. Cada hora a mais que os navios ficassem retidos no porto custava 300 contos. Quem é que ia pagar a despesa? Fui à DGS perguntar o que se passava e encontrei os agentes muito agitados, com armas e granadas de mão. Cá fora estava o Eugénio Cavalheiro, que foi meu colega de curso nos fuzileiros, com uma força para tomar o edifício. Vim cá fora e expliquei-lhe que os tipos da PIDE estavam bem armados e que os fuzileiros estavam todos a descoberto. Fui com ele telefonar ao tipo que o comandava, o Vítor Crespo a partir da Pontinha, que lhe disse para retirar do local.

 

- Esteve envolvido no golpe do 11 de Março de 1975, em que Spínola e os seus tentaram tomar o poder. Porque falhou esse golpe?

 

- Falhou porque aquilo não foi uma acção, mas antes uma reacção. Não tenho nada a ver com o 11 de Março. Andámos a preparar outras coisas, tínhamos tudo montado para prender todo o conselho dos 20, mas não aconteceu nada. Nessa altura já estava fora da Marinha, já me tinha saneado a mim próprio antes que eles o fizessem. Antes do 11 de Março, vieram dizer-me que estaria eminente um golpe do PCP, a matança da Páscoa, para neutralizar-nos a todos e que devíamos ir para a Base de Tancos. Saí para Espanha onde depois fundámos o MDLP.

 

- Era o cérebro das operações do MDL…

 

- Sim, eu encarregava-me de todas as operações. Combinei uma operação com o Holden Roberto para fechar o porto de Luanda e ele entregou-me 2 mil armas. Tínhamos unidades dentro do país, mas era uma organização celular, à semelhança dos comunistas. Não sabíamos quantos éramos ao certo.

 

- O MDLP pôs bombas, destruiu sedes do PCP, como avalia a vossa acção?

 

- Havia problemas porque para uma organização destas funcionar tinha de haver uma disciplina de ferro. O PCP aguentou-se tanto tempo na clandestinidade porque quem saía fora do esquema era morto. Nós não queríamos fazer isso, mas havia gajos que agiam por iniciativa própria e entretinham-se a pôr petardos aqui e acolá e agiam por vinganças pessoais. Tive de puxar dos galões para pôr os gajos na ordem. Mas posso garantir-lhe que, depois do 25 de Novembro não pusemos nem mais uma bomba. Até lá foram todas da minha responsabilidade, mas depois disso acabámos as actividades e o movimento foi extinto. O regime entrou numa normalidade aceitável, com eleições marcadas, era tempo da luta política

 

- Essas bombas deixam-no dormir descansado?

 

- Descansadíssimo. A maior parte delas não fizeram mal a ninguém. Portugal corria o sério risco de se tornar um país comunista, era preciso agir.

 

REGRESSO A PORTUGAL E À GUINÉ-BISSAU

  

- Por onde esteve durante o exílio?

 

- Estava em Espanha sem fazer nada, à espera que a situação evoluísse. O Melo Antunes fez um pedido às autoridades para que eu fosse expulso. Fui visitado pela Direcção-Geral de Seguridad e transmitiram-me essa ordem. Nessa altura eu tinha um passaporte em nome de Guilherme Augusto Costa, que usei para ir para Paris. Depois segui para o Brasil, onde fiquei alguns anos. Ainda hoje tenho cartão de residente. Tinha mulher e quatro filhos, que me acompanharam sempre.

 


 


 

 

- Como se deu o regresso a Portugal?

 

- Vim do Brasil para Espanha e liguei para o Chefe do Estado-Maior da Armada. Disse-lhe que me ia apresentar com a condição de não ser preso nem interrogado. E eles cumpriram. Voltei no início dos anos 80, já tinha estado em Portugal clandestinamente várias vezes, mas pude voltar sem problemas. Nunca fui acusado de qualquer crime, nunca fui julgado.

 

- Investiu depois na Guiné. Sentiu o dever de voltar ao país onde combateu?

 

- Resolvi investir na Guiné para arranjar postos de trabalho para as pessoas que trabalharam comigo. O governo português abandonou-os miseravelmente. Fui à Guiné com uma equipa de jornalistas espanhóis e convivi com o pessoal que tinha combatido ao meu lado. Estavam num estado de miséria que me incomodou. A solução que arranjei foi investir numa fábrica de transformação de caju na ilha de Bolama. Tenho 250 empregados, 110 dos quais mulheres. Sou o maior empregador da ilha.

 

- É um homem em paz com o seu percurso?

 

- Completamente em paz. Só tenho mágoas com as entidades e pessoas de quem gosto. Ficaram-me algumas mágoas em relação à Marinha, mas já me passou isso tudo.

 

PRÉ-PUBLICAÇÃO: "QUERIA TODOS OS DIAS APANHAR UM OU DOIS INIMIGOS"

Em 16 de Setembro de 1963, por portaria do ministro da Marinha, são criados os DFE nº 6, 7 e 855. O primeiro destinava-se a Angola, enquanto os outros dois tinham por objectivo reforçar o dispositivo da Marinha na Guiné, onde o conflito se agudizava e assumia um carácter cada vez mais violento. [...] Para comandar o DFE8, é nomeado o primeiro-tenente Alpoim Calvão, que, tendo entretanto terminado o Curso de Fuzileiros Especiais, voltara a oferecer-se, desta vez, para uma comissão na Guiné. As motivações desta insistência explicou-as, mais tarde, o próprio no livro: "Sempre quis ir para a Guiné porque, devido à sua orografia, hidrografia, condições de terreno e clima, era o mais indicado para a actuação de fuzileiros. Acresce que tinha lido, em casa, vários relatórios e croquis feitos por um avô de minha mulher. Por decisão do CEMA [Almirante de Roboredo], fui nomeado comandante do DFE8, destinado à Guiné." [pág. 53]

"Alpoim Calvão não mostrava grandes preocupações quanto à sua defesa pessoal. Usualmente armava de G3, mas muitas vezes optava por levar apenas uma pistola-metralhadora UZI, de origem israelita, oferecida por um homem da Direcção-Geral de Segurança (DGS), ou até mesmo uma simples pistola, e não costumava carregar com muitas munições. Entendia que a missão de um comandante não era estar deitado a dar tiros, como um simples atirador, mas sim permanecer de pé enquanto o tiroteio chicoteava as copas das árvores ou ceifava o capim e lhe assobiava aos ouvidos. Procurava estar o mais protegido que fosse possível, qualquer tronco de árvore, por mais estreitinho que fosse, servia. (...)" [págs. 79/80]


"Numa das fases da operação ‘Tridente’ seguia como observador o capitão-tenente Melo Cristino, director de instrução da Escola de Fuzileiros, que, nunca tendo participado em qualquer campanha, pretendia sentir ao vivo o comportamento das unidades em combate, razão por que entendera visitar o teatro de operações da Guiné e fizera questão em acompanhar pessoalmente uma acção. Nessa ocasião, quando algumas secções do DFE8 progrediam na retaguarda de um pelotão de pára-quedistas, a Unidade caiu debaixo de fogo inimigo, responsável por duas baixas. Durante o intenso tiroteio travado de seguida e enquanto o tenente Calvão de pé, como era seu hábito, simplesmente protegido pelo tronco de um coqueiro, procurava orientar a manobra dos seus homens, o comandante Melo Cristino, surpreendido pela violência do fogo e pela chuva de metralha que caía em seu redor, gatinha desorientado pelo chão em redor do coqueiro sem saber muito bem o que fazer, procurando encontrar um abrigo seguro que lhe garantisse protecção. A admiração e o respeito que passou a sentir pela coragem de Alpoim Calvão e dos seus fuzileiros deixou de conhecer limites. Ele mesmo confessava com regularidade o "cagaço" que tinha apanhado (...)". [págs. 79 /80]

"A operação ‘Tridente’ serviu como ‘laboratório’ ao DFE8. Nela se afinaram procedimentos e se experimentaram novas tácticas, nela se adquiriram a endurance e a tenacidade indispensáveis para o que ainda os esperava, testaram a força de vontade e cimentaram a amizade, a camaradagem e o espírito de corpo. E Alpoim Calvão assumiu para si mesmo um objectivo para aquela guerra: queria todos os dias apanhar um ou dois inimigos". [pág. 84]

"Felizmente, não era só de guerra que se vivia na Guiné. Quando se encontravam na cidade, os fuzileiros procuravam entreter-se conforme os seus interesses pessoais: uns a petiscar ostras e a beber cerveja Cristal, no "Zé da Amura"; outros recompondo-se das rações de combate com o frango à cafreal nos restaurantes da cidade; outros ainda deambulando pelo Altocrim à procura de negras, crioulas ou brancas que a troca de "patacão" ou por gosto lhes proporcionassem momentos de prazer ou passando as noites na animação do ChatNoire, que muitas vezes, quando o sangue fervia – e para isso bastava um militar sentir-se humilhado ou ver a sua unidade achincalhada – acabavam em pancadaria da grossa". [págs. 94/95]

"Na Guiné, ainda antes da independência e à medida que as Forças Armadas portuguesas retiram, explode o sentimento de vingança do PAIGC contra os seus concidadãos que estiveram ao lado de Portugal, e começam os assassinatos. A primeira vítima é o tenente Abdulai Queta Jamanca, que pertencera à 1ª Companhia de Comandos africanos e participara na operação ‘Mar Verde’, um herói condecorado pelo general Spínola [pág. 415].

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