O EX-PRIMEIRO MINISTRO DURÃO BARROSO

Durão Barroso queria ser primeiro-ministro. E contra tudo e todos conseguiu-o. No princípio, foi o único a acreditar que chegava lá. Hoje, são muitos os que lhe gabam a sua experiência diplomática e de negociação, para o que contribuiu ter estado dez anos no Ministério dos Negócios Estrangeiros, primeiro como secretário, depois como ministro.
04.07.04
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É combativo e perseverante – qualidades que lhe terão sido úteis na altura de ser escolhido como presidente da Comissão Europeia, sucedendo a Romano Prodi, cargo a assumir a partir de Novembro e com um mandato de cinco anos.
O estilo discreto de Durão Barroso conquistou os líderes europeus, que preferirão ter como presidente da Comissão Europeia uma pessoa competente mas, ao mesmo tempo, que não represente uma ameaça.
Em Bruxelas consideram mesmo que Durão corresponde ao perfil considerado necessário para o cargo: é primeiro-ministro de um pequeno país que está dentro de todas as políticas comuns europeias, pertence à família política de centro-direita (o Partido Popular Europeu) e domina línguas. “Entendo que um político, ao assumir responsabilidades no seu país, assume igualmente responsabilidade no plano da União Europeia”, disse ao País. “Portugal deve muito à Europa e quando esta pede a colaboração de um português para uma missão importante, não deve dizer que não”.
A mudança vai render ao futuro presidente da Comissão Europeia 20 mil euros por mês. Cerca de quatro mil contos a que serão retirados os impostos comunitários e os descontos para a segurança social. Ao salário, Durão Barroso vai juntar ainda um subsídio de residência de três mil euros. Várias indemnizações relativas à mulher e filhos a cargo e o reembolso de todas as despesas efectuadas no exercício da função. Na lista de regalias inscreve-se ainda um carro com motorista e 10 colaboradores directos.
Durão Barroso, 48 anos, cedo sentiu a política como uma missão. Aos 13 anos foi à sua primeira manifestação e distribuía propaganda política. “Deste então nunca mais consegui ver-me livre deste vírus”, disse sobre a política. Mantinha, porém, o sonho de crescer como escritor – um devaneio que hoje se traduz na vontade de um dia escrever as memórias e na paixão pelo Livro do Desassossego.
QUEM É JOSÉ MANUEL?
Homem de uma só mulher, dado à família e aos filhos, soube sempre esperar pelo momento de mudar. Sabe rir, mas não suporta incompetentes.
Origens
Filho de Luís António Barroso, contabilista, e de Elisabeth Freitas Durão, professora de liceu, ambos transmontanos. José Manuel nasceu em Lisboa, a 23 de Março de 1956, numa casa da Avenida João XXI. Os avós paternos pertenciam à grande burguesia, eram proprietários de terras; os avós maternos eram comerciantes e liberais. O avô paterno foi monárquico, exilado no Brasil com a República, e nomeado por Salazar presidente da Câmara de Valpaços. O avô materno foi comerciante e trabalhou como construtor civil na Régua.
Escolaridade
Começa na Escola Primária Actor Vale, perto da Praça Paiva Couceiro. Zé Manel dividia as melhores notas da turma com o seu amigo e colega de carteira Joaquim Leitão, hoje realizador de cinema. Foi sempre invejado por colegas e amigos na adolescência porque tinha as namoradas mais bonitas do liceu e da Faculdade de Direito. A juventude foi vivida em casa dos tios, ambos médicos a residir em Almada – o pai encontrava-se doente, e os familiares convenceram a mãe a mudar-se para perto deles.
Carácter
Foi sempre intelectual, embora indisciplinado e um pouco traquina. Gostava de ler e escrever e foi a mãe que o incentivou a seguir Direito. Os colaboradores consideram-no exigente, rigoroso (talvez até em demasia) muito disciplinado e persistente. Também garantem que é emotivo e sensível embora de carácter temperamental. Consegue rir à gargalhada e contar anedotas numa roda de amigos, mas zanga-se facilmente com algum sinal de incompetência dos que trabalham com ele. Tem horror a expor-se demasiado e incomodam-no as críticas alheias. Foge da rotina como diabo da cruz.
Ambições
Em adolescente, enquanto os colegas e amigos se entretinham com as bicicletas, motos e o futebol, Durão Barroso dedicava-se à leitura e à política. Aos 13 anos já distribuía prospectos da CDE e participava como espectador na campanha de 69. Lia todos os jornais da oposição – ‘Comércio do Funchal’, ‘Jornal do Fundão’, ‘Diário de Lisboa’, ‘República e Seara Nova’. A influência do avô materno, socialista, terá contribuído para isso.
Modelos
Dizem que gosta demasiado de si para se confessar fã de alguém. Mas é conhecida a admiração que nutria por Francisco Sá Carneiro, cuja morte o fez regressar a Portugal. Depois de assistir ao funeral, inscreveu-se de imediato no PSD. Também foi apoiante de Cavaco Silva, na Figueira da Foz, e retribui a confiança e o apoio do então primeiro-ministro com uma lealdade e admiração a toda a prova.
Faculdade
Entra na Faculdade de Direito de Lisboa no ano lectivo de 1973-74 e tem 18 anos acabados de fazer quando se dá o 25 de Abril. Entra para a Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEM-L) da faculdade, o braço estudantil do MRPP, e os seus notáveis dotes oratórios marcam a sua geração. ‘Camarada Veiga’ foi o nome de guerra que Durão Barroso adoptou naquilo que dizem ser “as lutas heróicas pela liberdade de Abril”. São desses tempos os amores com Margarida, menina bem que estudava em Letras, e as amizades com Santana Lopes, fundador do Movimento Independente de Direito.
Vida académica
De cabelo comprido, chapéu castanho-claro de aba larga, camisa de flanela, calças boca-de-sino e colares de missangas – era assim que Durão Barroso se passeava pelos corredores da Faculdade de Direito de Lisboa. O momento de glória da juventude foi ser eleito presidente da associação académica, a 25 de Novembro de 1975, dia de anos da sua namorada, Margarida. Repetia uma frase que o imortalizou junto dos seus inimigos: ‘Cairão todos na valeta do oportunismo”.
Amigos
Depois de acompanhar a morte do pai em Londres, Durão, quase a completar 21 anos, fez-lhe a vontade e largou vida revolucionária. Regressou a Lisboa com o cabelo curto, aprumado, pronto para uma nova etapa. Aproxima-se da ala moderada e torna-se no melhor amigo de Santana Lopes, activista do MID, que também combatia o PCP na faculdade.
Os dois serão inseparáveis até 1990, ano em que, por razões do foro íntimo, se zangam por dez anos. As verdadeiras razões da ruptura entre os dois nunca foram reveladas ou assumidas. Sabe-se apenas que são mais de natureza pessoal do que política. A 20 de Janeiro de 2001, Santana Lopes e Durão Barroso fazem as pazes em público em Ourique. Um aperto de mão que será vital para a pacificação interna do PSD.
Percurso Profissional
Acabada a licenciatura em Direito, com a mais alta classificação da turma – 17 valores – muda-se para Genebra onde se irá diplomar em Estudos Europeus e fazer um mestrado em Ciência Política. São seis anos na Suíça interrompidos em 1980 por dois acontecimentos marcantes: o casamento e a morte de Sá Carneiro. Já nos EUA, como professor convidado da Universidade de Georgetown, recebe o convite de Cavaco Silva que o convence a regressar ao País.
Em 1987 tornou-se secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros. Sobe a ministro em 1992, quando João de Deus Pinheiro vai para a Comissão Europeia. Em Maio de 1999, é eleito presidente do Partido Social-Democrata, sendo reeleito em 2000. Nas eleições legislativas de 2002 chega a primeiro-ministro.
Família
Muito ligado à família, vive ainda preso à recordação do pai falecido há 27 anos. Nutre grande afecto pela mãe (com que se assemelha fisicamente), uma das primeiras mulheres a terminar a licenciatura em Régua. Tem um irmão, Luís.
Casamento
Conheceu Margarida Sousa Uva na cantina da Universidade de Lisboa em 1975. Casaram-se cinco anos depois na Sé de Lisboa. O copo-d’água foi em casa dos pais da noiva, à Junqueira, e haja o que houver, esse dia de Setembro é sempre assinalado com um jantar especial.
Filhos
O filho mais velho chama-se Luís, tem 21 anos e estuda Direito Universidade Nova. Um dos seus hobbies preferidos é a política a faz questão de folhear os jornais todos os dias. Tanto ele como o pai são leitores assíduos da revista ‘The Economist’.
Guilherme, 18 anos e Francisco 16 frequentam ambos o liceu, na Escola Salesiana. O benjamim da família gosta de pintura como a mãe. Os três aprendem ténis num clube lisboeta.
Morada
A família vive há muitos anos num pequeno andar debruçado sobre as árvores do Jardim do Campo Grande, adquirido antes da partida para os Estados Unidos, em 1985. Dada a exiguidade do espaço, os três rapazes são obrigados a dormir no mesmo quarto. O andar foi posto à venda há mais de dois anos, a família encontrou um porto de abrigo para os lados do Rato, mas a falta de tempo do primeiro-ministro obrigou-os a suspender a operação. Passa as férias em Moledo ou em Montegordo, em casas de família ou alugadas.
LUÍS FILIPE MENEZES
Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, é um dos notáveis do PSD, voz activa nos grandes momentos do partido. Como os que vivemos agora. Não tem dúvidas: “Santana é a pessoa certa”
Qual a importância para Portugal da ida de Durão Barroso para a presidência da Comissão Europeia?
O presidente da Comissão Europeia tem poderes de isenção, mas na fase final de negociações, quando se discutirem os trocos, ele terá grande margem de manobra na distribuição desse dinheiro. Os trocos não são importantes para a Alemanha, mas para um país pequeno como Portugal podem representar a diferença entre a recuperação e a estagnação económica.
A nível interno, esta mudança não compromete a estabilidade política?
Somos um País de uma estranha puberdade democrática. Na Europa, é normal haver mudanças de PM a meio dos mandatos. É preciso lembrar que não se elegem primeiros-ministros, mas sim partidos, deputados e maiorias parlamentares. Até podíamos mudar de primeiros-ministros todos os dias.
Acredita que Jorge Sampaio marque eleições antecipadas?
O Presidente da República só deve intervir quando considere que essa mudança ponha em causa o funcionamento das instituições democráticas, o que não parece ser o caso.
Santana Lopes é a escolha natural do partido?
Sim, porque é o primeiro vice-presidente e tem um grande consenso partidário.
Mas existem vozes discordantes no interior do PSD, como é o caso de Manuela Ferreira Leite, que fala em golpe de Estado…
Qual é o peso de Ferreira Leite? Ela nunca ganhou uma eleição. Foi uma cinzenta secretária de Estado do Orçamento e uma medíocre ministra da Educação. É o rosto da crise e pouco mobilizador. Pelo contrário, seria o ministro mais remodelável do executivo de Barroso. Talvez seja por isso que esteja contra um governo de Santana.
Estas diferenças de opinião não deveriam ser medidas em congresso?
Se tivesse havido um congresso há um ano, essa questão ainda se podia colocar. Mas houve uma reunião magna há pouco mais de um mês. E Santana foi eleito o número dois.
Nos anos 80, o Governo de Balsemão teve problemas por não ter ido a votos…
Balsemão teve problemas porque não nasceu para ser líder e governou durante uma das maiores crises mundiais.
Não existe a probabilidade de este vir a ser também um executivo fraco?
O Governo de Santana será forte ou fraco, dependendo dos ministros que apresentar ao País. Se aparecer com rostos novos, de gente corajosa e daqui a quatro meses apresentar resultados, Santana será o primeiro a pedir eleições. Não terá dificuldade em ter maioria absoluta.
Gostaria de ver algum dos actuais ministros num executivo de Santana?
Sim. Marques Mendes – que não é adepto desta solução, mas foi excelente ministro – e Morais Sarmento.
Marques Mendes não seria uma alternativa a Santana para liderar o governo?
É bom que para o futuro existam reservas que salvaguardem eventuais orfandades no PSD. Mas agora, Santana Lopes é a pessoa certa.
Luís Filipe Menezes não se veria num futuro governo de Santana Lopes?
Já sou ministro, aliás, primeiro-ministro, no terceiro maior território nacional. É muito difícil que eu prescinda do meu cargo em Vila Nova de Gaia.

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