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O fado dos subúrbios

Falta qualidade de vida aos milhões de habitantes dos arredores de Lisboa e do Porto. A Domingo Magazine desvenda dez casos, entre o betão, o cimento e o asfalto.
24 de Julho de 2005 às 00:00
O fado dos subúrbios
O fado dos subúrbios FOTO: Marta Vitorino
Viver todos os dias cansa. Mas viver nos subúrbios cansa mais. Basta observar a névoa no olhar dos passageiros na hora de ponta dos comboios de Sintra, ouvir as buzinadelas furiosas dos condutores da Ponte 25 de Abril, reparar na segregação racial entre os brancos dos condomínios fechados e os africanos dos bairros sociais.
Estas são apenas algumas das feridas abertas na periferia. A lista de doenças é infindável. No entanto, é nos arredores de Lisboa e Porto que vive quase metade dos portugueses: são 4,5 milhões. A maioria está esmagada por pequenas rotinas. Um caso prático: os 400 mil condutores que viajam dos arredores para a capital perdem 76 minutos por dia ao volante. Num ano, são mais de 15 mil minutos no pára/arranca. Ou seja, cerca de dois dias perdidos no trânsito.
Outro exemplo estatístico: em 1991, viviam 250 mil pessoas no concelho de Sintra. Dez anos depois, eram 360 mil. Estima-se que o número dispare para os 460 mil em 2015. “Sintra corre o risco de se tornar um local de terceiro mundo se continuar a crescer e a receber mais pessoas”, defendeu a investigadora Regina Salvador.
Qualquer especialista em gestão urbana dirá que a qualidade de vida se degradou nas áreas metropolitanas. Para que um dia os seus habitantes se possam sentir bem nelas, será preciso dar alma a estes dormitórios: isso significa construir mais jardins e escolas.“Os subúrbios nasceram como uma ideia inovadora: a de cidade-jardim”, recorda Jorge Gaspar, especialista na matéria. Só que em poucos séculos, os jardins utópicos transformaram-se em selvas de betão.
Tal como numa impressão digital, não há subúrbios iguais. Cascais, Estoril, Gaia ou Matosinhos tornaram-se cidades autónomas. É para lá que se deslocam os casais novos, licenciados. “Em muitas delas existe uma actividade cultural superior até à de Lisboa” defende Jorge Gaspar.
Os casos de sucesso são eclipsados pelas gangrenas do tecido urbano: Tapada das Mercês, Casal de São Marcos, Quinta do Infantado são aglomerados de cimento construídos ao sabor das conveniências de construtores civis. “São os locais onde se verificou mais a especulação imobiliária”, acusa o geógrafo. “Onde estão os espaços verdes que amenizem o microclima e sirvam de espaço de convívio?” É a classe média que vai sendo empurrada para esses subúrbios sem dinheiro para adquirir uma casa no centro da cidade, que por sua vez se vai esvaziando. Só que Lisboa, como lembra Jorge Gaspar, Lisboa também se está a “suburbanizar”.
MARTA CAETANO E GRAÇA LACERDA: NO COMBOIO DA LINHA DE SINTRA
O despertador marca 06h30 da manhã. Em zonas diferentes do Cacém, Marta Caetano e Graça Lacerda saltam da cama como uma mola. O dia será comprido, não há tempo a perder. As rotinas matinais não são diferentes das da manhã anterior: acordar os filhos, tomar um duche rápido, engolir o pequeno-almoço, preparar a marmita das crianças, ajeitar-lhes as golas da camisola e sair até ao ATL.
07h30: Marta é a primeira a chegar ao portão de grades verdes, de mão dada com o seu Rafael, 8 anos e aparentemente sem sono. “Já está habituado a estas andanças”, declara a angolana, fazendo-lhe festas no cabelo. Graça aparece com a pequena Alexandra, menos desperta do que o amigo. Não há tempo a perder. Com um efusivo beijinho, um “portem-se bem” e brilho nos olhos, as duas mães despedem-se dos filhos que ainda há poucos anos usavam fraldas e mal sabiam andar a direito. “Logo vão para a praia de Carcavelos com o resto da turma”, conta Graça. Ela não se assusta em saber que a filha vai estar no mesmo areal onde um mês antes, um arrastão aterrorizou veraneantes. “Foi muito dramatizado”, frisa enquanto ela e Marta descem uma rua com carros estacionados em cima dos passeios. Um autocarro passa rente a elas. Nem reparam.
07h50: Uma bica rápida permite dar uma vista de olhos nos jornais gratuitos distribuídos na hora de ponta. Marta faz as contas de cabeça: vai fazer limpezas domésticas em várias zonas de Lisboa. Hoje terá de apanhar comboio e metro e ainda andar a pé entre Sete Rios, Entrecampos e Lumiar. Graça tem mais sorte. Trabalha como escriturária numa empresa no centro de Lisboa.
08h00: Os comboios da Linha de Sintra circulam com menor intensidade. São os efeitos da greve. Um mar de gente acotovela-se na gare, debaixo das sombras dos prédios disformes. “As pessoas não deixaram de andar de comboio, mesmo depois de verem as imagens de assaltos nas carruagens”, observa Graça. A amiga confessa que ficou com algum receio de andar nos transportes públicos, principalmente às horas mortas. É que muitas vezes só chega a casa às tantas: “O facto de eu ser africana não me proteje dos assaltos.” Há poucos dias, desviou-se de um caminho que faz habitualmente quando viu um grupo de miúdos com má fama no Cacém. “Fiquei com medo que me fizessem mal. Foi um gesto inconsciente, automático.” O fenómeno dos gangs continua na boca de toda a gente. Marta desdramatiza, recordando que há vinte anos também havia carteiristas na Linha. “E os bancos andavam todos rasgados das navalhadas. Os vândalos não eram africanos.”
08h20: Durante a viagem, as duas amigas discutem o caso de um miúdo africano que se tornou correio de droga. “Anda ao deus-dará: os pais trabalham o dia todo e não têm tempo de o acompanhar. Refugiou-se na companhia de mais velhos.” A falta de ocupação e o desejo consumista fizeram o resto.
08h30: As portas abrem-se em Entrecampos. É altura de Graça sair. Incólume. Não houve assaltos, pisadas de passageiros, nem desmaios. As férias do Verão tornam a viagem suportável. “Vemo-nos amanhã. À mesma hora”, graceja para Marta. Não são 9 mas ainda têm um longo caminho pela frente.
RUI FARINHA: POLÍCIA ‘VERSUS’ GANGS
O carro-patrulha circula a velocidade reduzida pela Torre, um dos bairros mais problemáticos de Cascais. Às onze da manhã as ruas estão desertas. Os mais velhos foram trabalhar, os mais novos ainda dormem, na ressaca de mais uma noite agitada. Na madrugada anterior, o corpo de intervenção da PSP deteve o cabecilha do bairro. XT, seu nome de guerra, era ‘dealer’ perigoso e ídolo dos mais novos. “Era o tudo ou nada. Mas reunimos durante anos provas mais do que suficientes para o prender”, conta o agente Rui Farinha, apontando para o prédio de habitação social, de tinta carcomida, onde morava o criminoso.
De tempos a tempos, as ruas esconsas transformam-se em campo de guerra entre gangs. Há um mês, foram os ‘dreads’ do Bairro da Cruz Vermelha que de caçadeira em punho e cocktails molotov, espalharam o terror. Portas e janelas ficaram esventradas na rua Estrela do Mar, mesmo ao lado do parque infantil onde miúdos de nove anos andam de baloiço. “É o duelo pelo controlo do negócio dos pitbulls”, explica o agente, sem pestanejar. “As lutas são organizadas por gente de alta sociedade. Ganha-se muito dinheiro com estas apostas ilegais.” Já nada o espanta.
Rui Farinha cresceu no meio deste caos urbano - entre o chique da Quinta da Marinha e o choque do bairro da Cruz Vermelha, onde morou na juventude. Aos 15 anos, já sonhava em ser polícia para poder acabar com os ajustes de contas que assistia todos os dias. O cancro da droga minava já o submundo da Linha. Ninguém se surpreendeu quando, anos mais tarde, se formou com uma das melhores notas na escola de polícia. “Pude escolher. Vim para Cascais.”
No início, limitava-se às patrulhas rotineiras em mansões de ministros. A boa vida não durou muito tempo. Nas brigadas anti-crime as operações passaram a ser de alto risco. Numa tomada de assalto ao bairro das Marianas uma bala passou-lhe a um palmo da cabeça. “Nesses milésimos de segundo só pensamos em nos proteger e responder à altura.” Rui também já alvejou um traficante, em legítima defesa. “Ia aparecer nas costas de dois agentes. Não tive outra alternativa. Era ele ou eu. Não havia espaço para falhas.” Kalu, o malfeitor, sobreviveu. Já foi preso e libertado, novamente. Hoje, é um dos mais procurados nas Marianas.
Qualquer agente da PSP tem a vida no fio da navalha mas são poucos os que o confessam: “Pensamos mais nos perigos da profissão entre o briefing da operação e a entrada em acção. Depois, dá-se um ‘clic’ e concentramo-nos na missão que temos em mãos”, explica.
Quem sofre é a família, em casa, que aguarda pelo desenrolar dos acontecimentos em silêncio. Talvez a rezar para que tudo corra pelo melhor. “É muito injusto para a minha mulher e para o meu filho. Mas foi esta a profissão que escolhi e não me imagino a fazer outra coisa.” Tem um irmão gémeo na PSP. Está noutra divisão mas já trabalharam juntos. “Era cómico quando aparecíamos os dois. As pessoas julgavam que estavam a ver a dobrar.” Não há uma noite que não pense nele. Com preocupação.
Rui sente que a criminalidade cresceu e ganhou níveis impensáveis de sofisticação. Desde quando? Nos últimos seis anos. “Uma farda já não significa nada para os delinquentes. Há um sentimento de impunidade.” Nas intervenções policiais a bairros degradados já não vão apenas dois agentes num carro-patrulha. As carrinhas de intervenção estão preparadas na retaguarda para o que der e vier. “A violência dá-se principalmente às noites de fins-de-semana.”
Sinais dos tempos. Ainda assim, sente que a autoridade é mais acarinhada do que hostilizada quando entra em bairros como os da Torre. “Quando o XT foi preso, desataram a bater-nos palmas.” Esta noite irá novamente percorrer estas ruas. Uma patrulha de proximidade “para que os moradores se sintam mais seguros.” Talvez um dia possam finalmente suspirar de alívio.
ISABEL DE MELO: VENDER T-2 AO PREÇO DA CHUVA
A crise quando chega é para todos. Isabel de Melo, agente imobiliária, habituou-se a vender T-2 com boas áreas por 75 mil euros. Não é pechincha de Verão. Os apartamentos ficam em prédios plantados em locais inóspitos, as paredes estão escavacadas até ao tutano, a vista dá para o bloco da frente e os vizinhos do lado fazem barulho até às tantas. Bem-vindos ao pesadelo dos subúrbios: Santo António de Cavaleiros. “Só vendo essas casas a quem precisa muito de um tecto ou está com problemas económicos. Ou seja, a quem não tem alternativas”, resume com pragmatismo.
Os compradores são, regra geral, imigrantes, casais novos, desempregados e divorciados nas lonas. A exigência deles é mínima e muitos nem dinheiro têm para pagar as despesas iniciais com o banco: 50 euros para abrir uma conta ou os 150 da avaliação da casa? Nem vê-los. O saldo pessoal está no vermelho. “Quando isto acontece, perguntamos ao proprietário da casa se mesmo assim quer continuar a fazer o negócio com o cliente.” As respostas são positivas, porque também eles estão desesperados para vendê-la.
Moral da história: os bancos fecham os olhos, acabam por emprestar o dinheiro na mesma, o comprador fica endividado até às orelhas mas feliz porque vai ter um tecto para viver durante os próximos anos. “Não me esquecerei nunca de um casal de sexagenários que morava em Cascais e veio ter comigo à procura de casa na zona de Loures. Não tinham muito dinheiro para gastar. Tinham perdido toda a sua fortuna.”
Isabel ainda procurou alternativas baratas na Póvoa de Santo Adrião, mas o ‘plafond’ era baixo demais. Resultado: foram morar para um prédio sem placa, de doze andares e com sete vizinhos em cada piso. Um luxo. “Não devem ter ficado muito felizes. Mas fui sempre sincera com eles.”
Apesar da recessão, ela garante vender entre quatro e cinco apartamentos por mês, uma média que não baixou desde que trabalha há três anos no ramo imobiliário. Durante este tempo, descobriu que, mesmo para o cliente à beira de um ataque de nervos, caves e os últimos andares, nem pensar. “Ficam muitos meses vazios. É muito difícil fazer negócio com eles.” A única solução viável é baixar os preços, mas os senhorios não estão para isso. “Se compraram por 70 mil, julgam que têm de vender por 75.” Nada mais errado. É por estas e por outras que a especulação imobiliária continua de vento em popa.
Isabel também vende condomínios caros na zona da Flamenga e da Póvoa, procurados por gente abastada. “Estas pessoas podem ir para Lisboa de carro, metro ou autocarro. Não demoram mais de uma hora.” Mas se um dia fosse obrigada a mudar-se para Loures torceria o nariz. Conhece demasiado bem os cantos ao concelho. “Não gosto do sítio e dos acabamentos das casas. E é cada vez mais perigoso sair à noite.”
ORLANDA VIEIRA E JOSÉ ROSENDO: CASA COM VISTA PARA O VIADUTO
E um dia a vista privilegiada para o rio desapareceu. Não foi magia negra. Foi o progresso. “Fiquei estupefacta quando vi as movimentações dos operários em frente à minha janela”, recorda Orlanda Vieira, viúva e moradora do 4.º C. “Isto nunca mais foi a mesma coisa”.
O Verão de 2001 era o início do pesadelo para ela e para os restantes inquilinos dos dois prédios da Rua Damião de Góis, em Algés. Os alicerces que lhes tapavam as janelas estavam apenas a proteger do pó das obras que se iniciariam meses depois. Só então perceberam que as suas casas passariam a dar para um enorme viaduto. A pouco mais de dez metros de distância. “Eu tinha-me mudado do Restelo. Para aquilo?”. A surpresa não demorou a transformar-se em revolta. Os moradores não perderam tempo, resolvendo avançar para uma acção no Tribunal Arbitral e pedir uma indemnização.
Dois anos depois tiveram uma inesperada vitória: o Estado foi condenado a pagar-lhes um milhão e 100 mil euros, por perda de qualidade de vida e transtornos provocados pelo barulho de uma obra pública. “Abrimos um bom precedente mas nada paga o facto de ter um mamarracho à minha frente”, queixa-se José Rosendo, o vizinho do 1.º andar.
Na varanda vê os camiões TIR, que deixam um rasto de barulho e pó, cuspindo fuligem para as cortinas brancas. Tem de as lavar de dois em dois meses por causa da poluição. “Eles passam por aqui de noite. Estremecem tudo. É horrível.” Nem as bandas sonoras, nem os vidros duplos lhe atenuam a amargura. “Não me vou mudar, até porque as casas se desvalorizaram.”
Na porta do prédio, só há uma tabuleta com a palavra ‘Vende-se’, o que confirma que os inquilinos se conformaram à sua sina. Há dez anos, José comprou o seu T2 por 17 mil contos (85 mil euros), se o colocasse à venda não iria conseguir lucrar com o negócio. “Este era o local perfeito para se viver: perto de Lisboa, Cascais e do Interface de transportes públicos. Demoro dez minutos a chegar ao emprego.”
A década não foi pacata: o mesmo grupo de inquilinos já se havia unido num abaixo-assinado contra a presença de meia dúzia de agarrados/arrumadores que chutavam para a veia à vista desarmada. E também correram com os ciganos que causavam distúrbios no parque de estacionamento “É um prédio azarado”, resume José. Se ele pudesse viajar na máquina do tempo, não estaria aqui a morar hoje, certamente. “A barulheira vai aumentar quando daqui a uns anos construírem a ponte para a Trafaria. Foi para isso que este viaduto foi pensado.”
Três andares acima, Orlanda mostra menos indignação. Acabou por não ser tão prejudicada, embora o asfalto lhe tenha roubado parte da visibilidade. “Fui a que recebi a indemnização mais baixa, o que é natural”, confessa, sentada num sofá confortável. Desde que o marido morreu, a empregada doméstica é a sua única companhia. “A pessoa tem de relativizar os problemas.” O tom é inesperadamente conformado. Passa mais um pesado de mercadorias, mas ela já nem repara neles. O ruído do motor a diesel é abafado pelos vidros de dupla caixilharia, que desde 2001 não são abertos. “É a vida”, resigna-se.
JOSÉ MANUEL: O PADRE DE OUTURELA
Quando aterrou na Outurela, em Carnaxide, há um ano, o padre Zé Manel temia o pior. Os zunzuns dos crimes de sangue e assaltos à mão armada chegavam-lhe aos ouvidos como rajadas num ciclone. Por ironia do destino, a última vítima da insegurança no bairro fora precisamente o seu antecessor na paróquia. Tinham-lhe limpo o recheio do carro. Bastou, no entanto, que ele se queixasse do furto aos fiéis, para que no dia seguinte o auto-rádio, as colunas e os CD aparecessem como por magia à porta da capela. Afinal havia uma centelha de esperança entre as ovelhas tresmalhadas.
O clérigo de 45 anos recorda-se de perguntar todos os dias quando acordava: “Onde é que eu vim cair?” A adaptação à nova realidade foi lenta. Ele conhecia o continente americano e as capitais europeias, mas nenhum dos lugares por onde viajou o preparou para o choque cultural que viria a enfrentar. “Tinha vindo de Roma, onde há muitas igrejas bonitas mas vazias. Vim parar a uma igreja feia, sem torres nem sinos, mas cheia de gente.”
No início tinha até receio em fazer as rotineiras visitas domiciliárias, mas acabou por descobrir que Outurela tinha mais má fama do que proveito. “Quando me viam, com um ar atarantado, com um papel na mão à procura da morada de um paroquiano, perguntavam-me em tom de brincadeira: “Então, senhor padre, está perdido?” Ele sorria com a sua própria atrapalhação, e ficava logo menos tenso. Afinal, não ia ser assaltado num beco mais escuro por um gangue sem escrúpulos. “Fui aprendendo acerca da realidade desta gente humilde e passei até a deixar o carro destrancado.”
O facto de não usar batina nem ser rígido nos costumes aproximou-o da população local, principalmente a africana que vive nos célebres ‘capacetes azuis’ - prédios de habitação social com telhados azuis.
Aos domingos, as suas missas estão apinhadas. Os crentes, que o receberam de braços abertos, são na sua esmagadora maioria cabo-verdianos, que fazem da eucaristia uma festa religiosa. “Ao contrário dos europeus, eles não passam a vida a olhar para o relógio à espera que tudo termine. Gostam de partilhar a fé com os seus ritmos. Durante a manhã, vão chegando cada vez mais pessoas. Torna-se até difícil mandá-los para suas casas no final.”
O padre primeiro estranhou a magia africana, mas ela foi-se entranhando até se colar à pele. “Eles bem querem que eu professe em crioulo. Mas isso já é demais.” Talvez daqui a uns meses, quem sabe?
Os brancos que vivem nos condomínios de luxo, pelo contrário, continuam de costas voltadas para a nova paróquia, ou simplesmente nem sequer sabem que ela existe, já que ela tem apenas um ano de existência. “Limitam-se a dormir cá e partir para as suas vidas. Não têm relações com o resto do bairro”, revela. Uma espécie de segregação racial, não oficial, que para o padre Zé Manel não faz sentido. “Este bairro não é menos seguro do que qualquer outro nos arredores de Lisboa. O medo é irracional.”, garante com indignação.
A sua grande preocupação é a extrema pobreza que ainda se vive em muitas zonas de Outurela. Mas como homem de fé, acredita que ela seja um dia extirpada. Seria como pôr fim a um tumor maligno.
FUSE, MUNDO, MASE, X-PIÃO, DJ GUZE: AO SABOR DO HIP HOP
A estação de comboios de Gaia, a General Torres, parece um cenário de um gueto nova-iorquino dos anos 80: carris abandonados e túneis fantasmagóricos a perder de vista, paredes cobertas de graffities coloridos, que dividem territórios. Entre os passageiros que sobem e descem a escadaria e os silvos estridentes dos alfas pendulares que passam a toda a velocidade sem parar, um grupo de cinco rapazes de ténis Nike e calções largueirões improvisa umas rimas.
Nome de guerra: Dealema. Conheceram-se há dez anos neste mesmo ambiente de betão e ferro oxidado, o reino de todas as tribos suburbanas de Vila Nova de Gaia: “Somos observadores deste lixo tóxico que é a cidade. Estamos no meio podre, mas não apodrecemos”, filosofa Nuno, ‘nick name’ Fuse, atrás dos seus óculos escuros. Ele já viu muitos dos amigos a enveredar “pelos maus caminhos.” Atalhos de vida que deram direito a overdoses, prisões e vidas de crime. “Só uma minoria arranja emprego”, conta.
Apesar da realidade inóspita que os rodeia, recusam-se a vitimizar esses rebeldes sem causas. “Já deixei de ter pena deles. Só entra num gang quem quer. E não me venham com conversas porque não roubam por necessidade, mas por prazer, ou por estupidez. O vandalismo é gratuito”.
André, que em tempos assinava graffities pela cidade, percebeu há muito qual o verdadeiro BI dos miúdos que assustam de dia e de noite os moradores do Grande Porto: “São de todas as classes. Hoje, os meninos bonitos querem ser maus e os maus é que querem parecer bonitos.”
Quando saem à noite, assistem em primeira fila a rixas entre grupos rivais, em discotecas ou ruelas esconsas, que não raras vezes terminam em facadas e tiroteio. “Há demasiadas mortes estúpidas. Elas vão continuar porque a polícia não tem mão neles. Continuam impunes.” A tensão paira no ar com um cheiro a pólvora à mistura.
Para o grupo, o fenómeno dos gangs não é recente. Apenas esteve adormecido. O monstro acordou depois de uma hibernação irrequieta. “Mas nem sempre um grupo de jovens tem necessariamente de andar armado até aos dentes”, frisa Edmundo. O grupo diz-se amigo até de alguns desses maus rapazes, como os do gang da Lapa, e garantem que a sua fama é maior do que o proveito. Com sangue ou não, a histeria está lançada. Não há saída. Quem vive nos arredores do Porto tem de se aguentar à bronca. “Não gosto de viver nos subúrbios”, declara X-Pião sem papas na língua. “Tem o pior da cidade e do campo. Está no limbo.
É que se por um lado a indiferença impera, por outro as pessoas aproveitam sempre para se meter na tua vida.” Uma asfixia que torna ainda mais deprimente o dia-a-dia debaixo das sombras dos prédios monocromáticos e arquitectura sem gosto.
As letras deste grupo de hip hop alternativo relatam estas pequenas novelas do quotidiano: a degradação da cidade, o desemprego, a falta de oportunidades, a insatisfação pelo ambiente urbano. “No meio de tanta porcaria, queremos criar algo de bom.”
Com pouco menos de 30 anos, os cinco já deixaram de estudar mas recusam vestir o fato e a gravata em empregos de escritório. Preferem viver de trabalhos temporários em bares e produtoras e do que a música lhes pode oferecer. “Dá para sobreviver”, suspiram. Com maior ou menor desafogo financeiro, têm a certeza que nunca irão enveredar pelo submundo do crime. Embora conheçam os vícios dos que os rodeiam, os Dealema não escondem as ambições debaixo das camisolas vistosas de basquetebol. “Vamos fazendo a nossa música, sem muitas ondas.” Passam os dias a ensaiar num estúdio em Gaia, à noite vão até ao Porto beber um copo onde calhar. De comboio ou de carro. “Já falta pouco para termos o Metro à porta. Faz-nos muita falta. O trânsito continua caótico.”
Durante o resto do dia, a estação suburbana de Gaia irá encher-se de skaters, breakers, Dj’s, tunings, punks. Os cinco hip hopers irão à sua vida…
FLORINDA CHUMELA: VIVER E MORRER EM ALVERCA
Veste de preto como uma personagem de tragédia. A morte recente do marido deixou-lhe uma ferida por cicatrizar nas emoções. Mas com 73 anos à flor da pele, Florinda teve tempo para se habituar às intempéries da vida. Uma vida tão densa como as nuvens das fábricas que davam alegria às gentes trabalhadoras de Alverca. “Não foi amor à primeira vista.”
Passados 32 anos, a septuagenária tem fresco na memória as primeiras impressões sobre a cidade ribatejana. Ela e o marido, um carpinteiro que ganhou reputação em Marinhais, estranharam as altas chaminés, alinhadas como um postal a preto-e-branco da revolução industrial, a contrastar com os quintais a perder de vista, carregados de pomares. “Viemos morar para cá por causa dos meus filhos, que iam estudar para a faculdade, em Lisboa. Assim poupámos dinheiro.”
O marido agarrou a pulso a primeira oportunidade de emprego na ICESA, uma imponente fábrica de materiais de construção. Ela ficava em casa a pedalar furiosamente na máquina de costura. “Eu chegava a ganhar dez contos por mês, não era nada mau para a época”, recorda.
Muito mais dos que os míseros quatro contos que o senhor Chumela levava para casa, depois de uma dura e repetitiva jorna. Nos tempos livres, os dois iam de braço dado até ao centro, mirar as montras da loja do Parreira, da Casa dos Barateiros ou da Loja do Quim, estabelecimentos comerciais que ainda hoje encantam os mais idosos. Florinda aproveitava para comprar resmas de tecido, embora o metro fosse mais barato nas lojas de renome do Chiado. Mas há três décadas Lisboa ainda ficava demasiado longe. “A viagem de comboio até à capital demorava mais de uma hora: tinha-se de mudar de carruagem no Braço de Prata, além disso, eles atrasavam-se muito…”.
Com os filhos encarrilados no seus cursos superiores, à custa de muita ginástica financeira, a família teve o grande revés com o enfarte de Chumela. Meses depois, novo murro no estômago: a fábrica que lhes servia de sustento encerrava as portas. “Ficaram a dever-lhe muito dinheiro. E ele nunca recebeu um tostão pela pensão de invalidez”, recorda.
Nos anos 70 e 80, outras fábricas iam capitulando, como frágeis castelos de cartas. A cidade minguava de actividade. Os homens envelhecidos pela fuligem perdiam a esperança nos amanhãs que cantam. “Só foi bom porque diminuiu a poluição.”
A vida e a morte das indústrias pesadas de Alverca confundiam-se com os passos dos Chumela. Como uma trágica dança a dois. “Sobrevivíamos da costura, trabalhava dia e noite. Foi um período negro. Mas nunca fiquei a dever nada a ninguém.” Florinda entristecia-se com as doenças do marido e com a metamorfose da vila em dormitório. Até o rústico fontanário desapareceu para dar lugar a um posto da GNR. “Não sou contra o progresso, mas perderam-se muitos valores pelo caminho. As famílias eram mais unidas, o dinheiro parece tê-las tornado mais egoístas.”
O seu mundo confinou-se à realidade da Associação de Reformados de Alverca, da qual é presidente há sete anos. O peso da idade não lhe retirou a genica: de manhã organiza excursões de sexagenários até à piscina municipal, à tarde sobe para o escadote e pinta o tecto da casa e à noite visita um dos filhos no alto de Alverca. “Não tenho medo de sair sozinha quando escurece, apesar das histórias de assaltos e assassinatos”, vangloria-se. “Só fico em casa porque o meu filho me pede, para ficar mais sossegado.” A sua neta teve mais azar: já lhe roubaram dois telemóveis.
Florinda recusa-se a aceitar o epíteto de saudosista mas suspira pelos velhos tempos em que cumprimentava as pessoas na rua pelo nome: ‘Como está a cunhada, melhorzinha? E os filhos têm tido boas notas?’ Diálogos como este entraram no domínio da ficção. “De dia, é só reformados e desempregados, o resto vem cá dormir”, relata a septuagenária que sonha regressar à terra onde foi feliz: Marinhais.
A morte do marido há cinco meses, deixou-a mais só. “Não gosto de cá viver, embora hoje não haja poluição. Qualquer dia é a vez das OGMA fecharem portas”, vaticina. Alverca já perdera a alma. Quando isso acontecer, perderá também o coração. Palavra de Florinda.
PAULO GARCIA: NO INFERNO DO TRÂNSITO
Todas as manhãs, quando roda a chave de ignição, Paulo sabe que o destino lhe vai pregar a mesma partida de sempre: uma fila interminável de carros espera por si entre a ponte do Feijó, o nó do Fogueteiro ou o garrafão da Ponte 25 de Abril. No entanto, nem os avisos metralhados de cinco em cinco minutos na telefonia o fazem mudar de rota.
É o fado de quem vive na Margem Sul e trabalha no centro de Lisboa. “O que hei-de fazer? Ir pela Ponte Vasco da Gama não é solução porque o meu emprego fica em Alcântara. Só se me levantar de madrugada. Mas tenho uma bebé para cuidar…” Com o desfiar de tantos quilómetros no asfalto, Paulo Garcia habituou-se ao pára-arranca no trânsito. “Não me chateia muito aquela lentidão. Só não suporto os iluminados que querem furar a fila a todo o custo”, conta.
O experiente condutor de 30 anos inventou dois truques para fazer uma viagem em espírito ‘zen’: 1) escolha criteriosa de CD para cantarolar em alta voz; 2) ouvir os noticiários em estações diferentes para não enjoar com as mesmas frases enfáticas. “Chego a ir em piloto automático…”, confessa. Mas não cai no extremo de aproveitar para fazer a barba ou ler o jornal enquanto conduz, como vê outros condutores a fazer. Excentricidades que dão origem aos toques, buzinadelas e sustos do costume. E que fazem aumentar ainda mais o caos na travessia da ponte. “Já me bateram. Uma pessoa que se tinha distraído com um urso de peluche que vinha no banco de trás. Uma chatice.”
Ainda assim, não troca o volante pelas carruagens de ar condicionado da Fertagus. Porque se a ida se assemelha a uma descida ao Inferno, o regresso é um passeio tão tranquilo como o de Alice no país das maravilhas. “Saio às três da tarde do trabalho. Como só tenho comboio às quatro, estaria em casa perto das cinco. E ainda teria de apanhar um autocarro pelo meio. De carro, ponho-me no Pinhal Novo num instante.”
Os minutos ganhos são para uma boa causa. Paulo aproveita-os para encher de mimos a filha de dez meses.
Um privilégio que poucos pais podem usufruir e que quer gozar pelo menos até Setembro quando ela entrar no colégio. “Nessa altura, talvez resolva deixar o carro na garagem e volte a experimentar os transportes públicos.” Talvez. Porque já fez as contas e concluiu só gastar mais vinte euros em gasóleo do que em passes sociais. “Não compensa de qualquer maneira. Só poupo no stress, porque no comboio sempre posso ler um livro ou pôr o sono em dia.”
A viver no Pinhal Novo desde que a mulher engravidou, ele descobriu que o substantivo subúrbio não tem de conjugar necessariamente com o adjectivo deprimido. “Isto é muito melhor do que o Seixal e a Sobreda da Caparica, os dois locais onde morei”, garante.
Mesmo a viver no centro, ao lado da estrada mais movimentada e da moderna estação de caminho-de-ferro, tem a sensação de ter aterrado no meio do bucolismo da província. “Troco dois dedos de conversa com o dono do café, vou passear a cadela ao jardim, dou uma volta até ao mercado ou à biblioteca e sou amigo dos vizinhos do lado. O que poderia querer mais?”
Paulo não confirma e também não nega que estes e outros pequenos luxos têm retardado as inevitáveis rugas de expressão. “Era impossível comprar um espaçoso T-3 com garagem por 24 mil contos em Lisboa ou Almada. A isto é que se chama de qualidade de vida”. Se um dia se mudar, guarda uma certeza: continuará a preferir ver a estátua do Cristo Rei de costas. Mesmo que isso signifique ouvir o noticiário das oito no auto-rádio, agarrado ao volante do carro comercial, entre condutores rabugentos. Todas as manhãs.
TIAGO: ÀS COMPRAS NO SHOPPING
Tiago está atento. Quando as letras gordas dos saldos são coladas nas vitrinas iluminadas, ele confirma os euros que tem na conta à ordem, entra nas lojas, vai direitinho à camisa de marca que namorava há meses e sai com um lustroso saco na mão. “Sou um pouco consumista mas não exagero”, confessa o aluno do curso de fisioterapia. “Até porque não tenho assim tanto dinheiro para esbanjar”, acrescenta. Só perde mesmo a cabeça durante a época de preços baixos.
No périplo pelos centros comerciais da linha de Sintra chega a gastar 150 euros em roupa. “É dinheiro que tinha poupado durante o ano especialmente para a ocasião.”
Todos os meses, recebe uma mesada dos pais de cem euros. Um terço vai direitinho para a roupa. A última peça que comprou foi a t-shirt da Gant que traz vestida. Ela condiz com as calças também de marca estrangeira. “Sou vaidoso. Não descuro o visual e não tenho vergonha de o confessar. Hoje os rapazes preocupam-se tanto com a aparência como as raparigas”. Não é por acaso que na estante do quarto, para além dos inevitáveis perfumes, guarda after-shaves e cremes hidratantes.
Tiago mostra-se à vontade no percurso pelos corredores ruidosos e assépticos do Cascaishopping. Sabe, por exemplo, que a Tommy Hilfigher fica mais perto da River Woods do que da Lyon of Porches. Ou que um par de calças da Zara é mais barato do que da Quebramar.
O estudante aplicado não podia concordar mais com as teses sociológicas em voga: “Estes espaços de consumo substituíram as igrejas como local de convívio das famílias.” No seu caso, uma ida ao shopping serve também de terapia: é simplesmente um escape ao stress dos exames. E não se deixa enganar: estas catedrais coloridas, perfumadas e aparentemente inócuas têm armadilhas espalhadas pelo caminho: “Quem vem cá, mesmo que só para passear, acaba por consumir.” Porque num shopping são as aparências quem mais ordena: “Vêem-se famílias cheias de sacos, telemóveis de topo de gama, a ostentar o que têm e não têm.”
Aos fins-de-semana, convida as amigas para passear, comem qualquer coisa numa cadeia de ‘fast-food’ e vão ao cinema, nas salas ‘cinemax’ do Beloura Shopping. “Não é o sítio mais romântico do mundo, mas não há muitas alternativas”, queixa-se enquanto sobe as escadas rolantes ao som de um acorde de Joe Cocker. “Quem vive perto de Sintra vai à praia, à vila ou ao centro comercial.” Em qualquer das opções sofre sempre com as filas intermináveis no IC19.
Com as histórias recentes de arrastões a ressoar na cabeça, acredita que muitas famílas passem lá fins-de-semana inteiros, porque com os seguranças fardados e câmaras de vigilância à vista desarmada, se sentem mais seguras. “Nunca vi roubos cá dentro”, corrobora.
Nos últimos tempos, Tiago também tem andado com mais precauções: “Passei a trancar as portas do carro e evito andar com objectos de valor à vista. Mais vale prevenir.” Até as suas roupas de marca são discretas. Mas a explicação é simples: as cores berrantes estão fora de moda.
GUILHERME SERRA: O VELHO E O RIO
Guilherme segura as amarras do Aroeira, que se prepara para atracar no cais do Montijo. Enquanto o catamarã desliza na água, o pescador de enguias e sável saúda os colegas de bordo. Ele sabe, por experiência própria, que mal o barco chegue a terra firme, os passageiros da hora de ponta vão sair a correr para apanhar o autocarro até ao Montijo ou Alcochete.
Quando voltar a zarpar, Guilherme irá, num coxear ligeiro, até à apertada cabina - a sua segunda casa. Poderá ver um documentário no pequeno televisor, tirar uma peça de fruta do frigorífico ou apreciar a serenidade do rio que o viu crescer. Meia hora depois, terá outro catamarã para receber. A rotina não se altera um milímetro. “Por vezes sinto-me só, no meio desta correria de gente”, confessa o funcionário da Transtejo.
Guilherme Serra suspira pelos tempos de juventude quando era cobrador nos velhos cacilheiros. Emoção não faltava: havia carteiristas apanhados em flagrante, passageiros sem dinheiro que fugiam aos ‘picas’, barcos que esbarravam em bancos de areia na maré baixa. “Numa viagem nocturna de regresso da Expo’98, um vendaval descontrolou o barco que encalhou. Estava muito frio. Tive pena de uma estrangeira grávida, que vinha acompanhada de uma criança e fui buscar a bandeira nacional para a agasalhar.” Um gesto cavalheiresco que ainda hoje é recordado pelos colegas. Uns tempos depois, seria obrigado a trocar as aventuras em alto rio pela monotonia da terra. Agora é só bom dia ou boa tarde com os passageiros.
Em Dezembro de 2002, o cais transferiu-se do Montijo para esta terra de ninguém, a vários quilómetros do centro da cidade. “Onde o diabo deixa as botas”, queixam-se os passageiros. Ele prefere chamar-lhe, em tom de brincadeira, de Tarrafal: “Tem mais espaço para os barcos mas foi uma má opção porque está longe de tudo.” Como consequência, o número de passageiros diminuiu. O homem de 56 anos ouve os queixumes, principalmente se há atrasos, mas limita-se a encolher os ombros: “Compensa-lhes mais ir de carro porque há falta de coordenação entre o autocarro e o barco. Só virá mais gente quando inauguraram o metro do Terreiro do Paço.”
Nos dias em que se sente melancólico, Guilherme deixa os pensamentos fluir e tenta imaginar o que vai na cabeça daquelas mulheres de cara fechada, homens enfiados no jornal e caloiros entusiasmdos com as fanfarronices de faculdade. “Muitos vão tristes, mas conformados. São gente trabalhadora, serena que não tem outro remédio senão sustentar a família. Só se revoltam quando aumentam o preço dos bilhetes.”
Sente-lhes a falta como de pão para a boca aos fins-de-semana. Nesses dois dias, a modorra toma conta do cais. Para a combater, organiza umas caldeiradas à beira-rio.
O peixe pescado por si nas águas ao largo de Alcochete no seu barquito de madeira, é um manjar dos deuses para os colegas. “Estão sempre a perguntar quando é a próxima”, recorda, sempre de olho ao movimento do rio. Já pressente a chegada de um novo catamarã e mais gente apressada para ir preparar o jantar. Mesmo estando em terra firme, flui-lhe nas veias o sangue de marinheiro. Porque a água é o seu território.
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