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O fado vivido

O novo livro de Inês Pedrosa é cruzado por personagens que correm todas à figura de Rosa Cabral. a fadista que vive um polígono amoroso
Francisco José Viegas 18 de Novembro de 2012 às 15:00
Razão e comoção
Razão e comoção

O que nós temos neste romance não é uma aventura pessoal – mas o nosso confronto com uma história individual, a de Rosa Cabral. Fadista. Isto não é um resumo; é um ponto de partida, porque todos os romances precisam de um, pelo menos. A chamada ‘galeria de personagens’ do romance tem níveis e estruturas muito complexas, evolui como se deseja que aconteça num romance; mas há um nó, uma espécie de núcleo mais poderoso do que os outros – e esse núcleo é ocupado por uma personagem tão poderosa quanto frágil, tão violenta quanto melancólica, tão injusta quanto injustiçada, que é Rosa Cabral. Fadista.

E, além disso, por uma ‘história de amor’. Essa história é dolorosa, porque o amor do fado é doloroso, porque as paixões têm um lado festivo e um lado punitivo, e porque as ‘histórias de amor’ tanto são histórias mais ou menos explosivas, de encontro, ou histórias de desilusões e de conformismo. Aqui, neste caso, temos um quadro mais ou menos clássico: Rosa ama Gabriel, que é um homem casado e que ama Rosa nos intervalos da sua vida. "Elas chamavam amor ao medo, eles chamavam amor ao poder" (página 278).

Não é preciso ser feminista para desenhar este cenário. Basta ter um mínimo conhecimento da realidade e saber o que é um polígono irregular. É uma irregularidade que marca muitas das histórias e das ligações entre personagens deste livro. Sabemos desde o início que Rosa vai sofrer essa irregularidade do polígono amoroso – e que essa relação está (como no fado) condenada ao sofrimento, ao fim, ao fracasso.

Seja. Mas não se trata de um ‘romance de género’, de uma história com personagens bacteriologicamente puras. Gabriel, o livreiro ‘de esquerda’, cultíssimo, elegante, educado, é afinal o verdugo de Rosa, a amante, e de Penélope, ‘a outra da amante’, a esposa a quem chama "companheira"... Ao escolher uma história individual, a solidão dolorosa de Rosa, Inês Pedrosa declara que o destino (o ‘fado’) só pode ser vivido como uma experiência pessoal, íntima, autobiográfica.

AMOR E SEXO

Há um momento extraordinário no livro: quando discute a tensão eterna entre ‘amor’ e ‘sexo’, ou à hipererotização e imposição do sexo na vida quotidiana. Rosa Cabral, a fadista, propõe-se então cantar o fado em latim, para que se ouvisse mais intensamente o som de um mar antigo que impedisse a destruição do amor. É uma personagem iraniana, Farimah, que exprime essa perplexidade um tanto ‘reaccionária’ para ouvidos modernos: "À medida que se iam vulgarizando as leis da igualdade, o amor era substituído pelo sexo como ideal civilizador." E é curioso como é através de um conceito ‘arcaico’, como o de "filiação", que o destino de Rosa se altera – na busca de um pai ausente.

A certa altura, a narradora, farta de "romances de hoje, atulhados de intelectuais e pensadores",aparece em carne e osso a um dos personagens – para "olhá-lo mais de perto". É esse o segredo. Olhar mais de perto até ver o mar, como se a ficção pudesse tudo. E pode. 

Título: ‘Dentro de Ti Ver o Mar’

Autor: Inês Pedrosa

Editora: Dom Quixote


CONCERTO: UTE LEMPER

Noite dentro, para o frio de sábado, Ute Lemper e o Quarteto Vogler. Lemper é uma presença mais ou menos memorável em Lisboa – o que convoca nostálgicos para este concerto em que interpreta, entre outros, Jacques Brel, Ravel, Piazolla ou Kurt Weill. Bom para rever a voz de Lemper, mas também a sua pose, o seu rosto, a sua imagem, o seu reflexo imaterial e perverso. Um luxo.

Local: Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, Lisboa

Data: sábado, 21hoo (www.gulbenkian.pt)

CONCERTO: DEAD COMBO

Quase à mesma hora – em Vila do Conde, onde começa a geografia romântica do Minho litoral, bom para passeios durante a tarde e o resto do dia –, eles (Tó Trips e Pedro Gonçalves) apresentam-se no palco e recomendo. Sou ‘deadcombomaníaco’, como já o escrevi aqui. Ouvir os Dead Combo transporta--nos a um mundo cheio de cinema e bairros silenciosos.

Local: Teatro Municipal de Vila do Conde

Data: sábado, 22h00

Contacto: 252 290 050

CONCERTO: GNR

E ainda à mesma hora – em Famalicão, onde a ironia de Camilo passou como um fantasma que pode temperar a ironia dos GNR –, aí estão eles em palco, assinalando 30 anos de carreira, de música, de atrevimento, de despudor, de imagem e, evidentemente, de alegria. De quase tudo o que a cultura pop produziu nesse período, eles são do melhor e do mais vivo que se pode ouvir.

Local: Grande Auditório da Casa das Artes de Famalicão

Data: sábado, 21h30 (http://casadasartes.blogspot.pt/)

FUGIR DE...

PARDAIS DA ECONOMIA

Durante anos, a economia pareceu-lhes uma coisa absurda. Desde há meses que não há "politólogo" (uma espécie de "astrólogo da política") que não perore, na televisão, sobre dívida soberana, juros, crise do euro e sistemas bancários – como se tivessem nascido a falar do assunto. Todas as semanas se desdizem, pelo simples facto de copiarem os delírios uns dos outros; e de todas as vezes perguntamos: por que não falam do que sabem? Porque custa, evidentemente.

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