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O filme que vivemos

“Contágio” de Steven Soderbergh estreou em 2011, mas antecipava a realidade atual
João Pereira Coutinho 5 de Abril de 2020 às 14:00
Contágio
Contágio FOTO: Warner Bros/Kobal/Shutterstock

O vírus nasceu na Ásia. Começou num morcego, foi parar à alimentação humana. Os primeiros sintomas confundiam-se com uma gripe normal. Febre, tosse, espirros, transpiração. Depois, chegavam as complicações respiratórias. E a morte para muitos casos.

As autoridades começaram por desvalorizar, depois levaram a sério a ameaça. Sobretudo quando esta começou a ter um crescimento exponencial.

Fecharam-se escolas. Fábricas. Serviços não essenciais. Isolaram-se certas comunidades. Quarentena, eis o termo. Mas a sociedade já estava alarmada e começou a acorrer aos supermercados para açambarcar o que podia. A polícia e o exército entraram em cena. Os funerais foram apressados: sem velórios, sem audiência. E todos, civis ou militares, olhavam para os cientistas como os povos primitivos olhavam para os feiticeiros da tribo. Haverá tratamento? Haverá uma vacina? E para quando? Até lá, "distância social" e higiene redobrada. Lavar as mãos com insistência e persistência deixou de ser tique de obsessivo-compulsivos.

Se o leitor pensa que estou a falar do novo coronavírus, que paralisou o mundo e ameaça lançar a economia global numa recessão profunda, desengane-se. As linhas acima são um resumo do filme "Contágio", filmado por Steven Soderbergh em 2011. Repito: 2011. Premonitório?

Seguramente. Não apenas pelos contornos da narrativa. Mas porque Soderbergh ilumina um aspecto decisivo das pandemias contemporâneas: um mundo globalizado não é um almoço grátis. E, por baixo das mil virtudes, avançam ameaças que, nos velhos tempos, consumiam e se consumiam em paragens distantes.

Ignorar este facto, e fazer de conta que nada deve mudar, a começar pela relação de vassalagem económica, tecnológica e farmacológica que o Ocidente mantém com a China comunista, seria pior do que esta pandemia.

Até porque ela será vencida, mais cedo ou mais tarde. Ou, pelo menos, ela é vencida no filme de Steven Soderbergh, quando a vacina aparece e a civilização regressa ao seu compasso normal.
Esperemos que, também aqui, a realidade imite a ficção.

PORMENORES

Livro: Para ajudar à sanidade mental
Portugal elegeu um deputado liberal – e o meio, invariavelmente socialista, olhou com horror para a extravagância. Isto nada diz sobre o deputado em causa; diz é muito sobre o estado intelectual em que o país se encontra. Ler Bastiat, sobretudo ensaios clássicos como ‘O Estado’ ou ‘A Lei’, ajuda à sanidade mental da espécie.

Livro: Sobre a fúria dos miseráveis
Qual a importância de Thomas Müntzer, importante figura do protestantismo germânico do século XVI, para as atribulações do nosso presente? Vuillard responde: Müntzer representa o arquétipo intemporal do fanático que congrega a fúria dos miseráveis contra
as "elites". Tema mais contemporâneo, não há.

Livro: O espectáculo da nossa decadência
A derrota das civilizações não começa pela economia. Ou pela política. Começa pelas ideias – ou, melhor dizendo, pela representação mental que fazemos de nós próprios. O espectáculo de decadência (e de penitência) com que o Ocidente gosta de se olhar ao espelho só pode acabar de uma forma: mal. 

Fugir de…Covid-19
Estamos mal-habituados. Desde o século XVIII, para ser mais preciso. A humanidade pode ser senhora do seu destino? Não, não pode. Haverá sempre uma margem de contingência que não antecipamos nem controlamos; e que destrói os nossos sonhos racionalistas, exactamente como o Terramoto de Lisboa destruiu o optimismo de muitos filósofos. O novo coronavírus, antes de ser um terror sanitário e económico, começa por ser uma brutal lição de humildade. Nada de novo debaixo do sol.

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