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O Francisco que o Vaticano escolheu

Sócio de um clube de futebol, defensor dos pobres e confessor do ditador argentino. A vida do novo papa.. A vida do novo papaargentino. A vida do novo papa

17 de Março de 2013 às 15:11
Jorge Bergoglio tornou-se o primeiro sul-americano a ser eleito Papa
Jorge Bergoglio tornou-se o primeiro sul-americano a ser eleito Papa FOTO: EPA

Dois minutos depois de anunciado ao Mundo o novo papa - o argentino Jorge Mario Bergoglio -, a página do Facebook criada por um grupo de fãs do até então arcebispo de Buenos Aires - com vista a apoiá-lo rumo ao trono de São Pedro - tinha 38 mil ‘gostos'. Quinze minutos depois, 45 mil. Duas horas mais tarde já eram cem mil. As felicitações chegaram-lhe ali maioritariamente escritas em espanhol, italiano e português. ‘Roma vai-te amar, Bergoglio'. ‘São Francisco de Assis regressa ao mundo'. ‘Que a Nossa Senhora de Fátima ilumine o seu caminho'.

O anúncio do nome do argentino, com formação em engenharia química e doutoramento em Teologia na Alemanha, fanático de futebol e com pé para o tango, deixou de boca aberta os católicos do Mundo inteiro, incluindo os argentinos. Francisco é o primeiro papa latino-americano e o primeiro jesuíta a sentar-se na cadeira deixada vazia por Bento XVI. Antes dele, o único papa não-europeu foi São Gregório III, da Síria, entre 731 e 741.

"Nada fazia prever que fosse ele. Temos um colega que é amigo dele [Sergio Rubin, o seu biógrafo oficial, em Roma na altura do Conclave] que nos contou que para o próprio Bergoglio foi uma surpresa imensa receber a notícia", contou à Domingo o editor de política e internacional do diário argentino ‘Clarín'. "Mas quando foi anunciado o seu nome ouviu-se um grito por toda a Argentina: primeiro, de assombro, depois, de alegria e muita comoção. Os sinos começaram a tocar, os carros a buzinar, para os argentinos a notícia foi vivida como se de um campeonato de futebol se tratasse. Há aquela sensação popular de ‘Ganhámos'!", acrescentou Gustavo Sierra.

Como o próprio Sumo Pontífice disse aos 150 mil fiéis na praça de São Pedro, "os irmãos cardeais" foram buscá-lo "quase ao fim do Mundo", à terra onde nasceu há 76 anos, um entre cinco irmãos, filhos de um ferroviário e de uma dona de casa de origem italiana.

"(...) Este homem com grandes qualidades humanas protegeu, ensinou e deu grandes momentos de felicidade na Igreja San Francisco Javier de San Miguel no Bairro Manuelita a todas as crianças carenciadas de afetos materiais e espirituais. Fui uma dessas meninas pobres", lembra por sua vez Carmen Figueroa. O papa Francisco nunca escondeu a sua preferência pelos pobres na sua doutrina. Nas villas argentinas a rebentar pelas costuras no pós-ditadura - onde durante muito tempo nem a polícia se aventurava a entrar - era comum ver Jorge Bergoglio. Deixava a Cúria da plaza de Mayo, apanhava o metro, depois o autocarro, e corria para abençoar um novo restaurante popular, celebrar batismos e crismas, inaugurar uma nova capela, participar da festa de algum santo. Parava até para comer com eles ‘el locro', uma sopa de carne e milho.


Aliás, na altura da sua nomeação para cardeal, a 21 de fevereiro de 2001 por João Paulo II, pediu aos argentinos que queriam celebrar a sua eleição que não voassem para Roma e antes doassem o dinheiro que iriam gastar nos bilhetes de avião aos mais pobres. Diz-se dele que nunca quis ser papa. Sabe-se agora, oito anos depois do Conclave que elegeu Bento XVI, que Bergoglio conseguiu dez votos logo à primeira volta e que, em lágrimas, terá pedido aos apoiantes da sua candidatura que não o elegessem.

Até aqui preferiu morar num apartamento de duas assoalhadas (em vez de luxuosos aposentos num palácio em Buenos Aires), onde era ele próprio que vestia o avental e cozinhava as suas refeições diárias. Sofre de ciática e perdeu um pulmão uma década antes de entrar no seminário.

PASSADO POLÉMICO

Ainda assim, não se livra de telhados de vidro. Bergoglio estava à frente da Ordem Jesuíta quando os militares tomaram de assalto a Argentina e o seu nome é associado a episódios obscuros. Acusações a Bergoglio são feitas no livro ‘Iglesia y Dictadura', de Emílio Mignone, publicado em 1986, e em ‘O Silêncio', de 2005, escrito pelo jornalista e ex-guerrilheiro argentino Horacio Verbitsky.

Há testemunhos de que em 1976 Bergoglio teria "retirado a proteção" da Igreja aos sacerdotes jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics, que foram torturados. Os autores alegam que Bergoglio teria advertido os dois sacerdotes de que eles deveriam abandonar o trabalho social ou renunciar à Companhia de Jesus - o que, segundo o jornal ‘Pagina 12', teria sido interpretado como "luz verde" para a repressão. Em 2010, Bergoglio negou todas as acusações. Um ano depois foi acusado de, durante a ditadura, encobrir os roubos de bebés recém-nascidos.

O escritor Luis Sepúlveda recordou no dia da eleição as histórias na sua página pessoal do Facebook. "Há jesuítas e jesuítas (...). É público que [Bergoglio] jamais condenou os ditadores argentinos, apesar de saber que na Argentina de Videla [ex-militar argentino que ocupou a presidência do país entre 1976 e 1981 e instaurou a ditadura] se torturava, assassinava (...), violavam-se todos os mandamentos que supostamente regem a conduta dos católicos. Videla era católico fanático (...) e sabendo disso Jorge Mario Bergoglio não abriu a boca. Não pode alegar que não sabia porque era o confessor dele e quem lhe dava a comunhão. O que lhe confessaria o chefe sobre os torturadores?".

CONSERVADOR

O papa Francisco, jesuíta conservador, é um feroz opositor do casamento homossexual, mas mostra-se mais flexível quanto ao uso do preservativo (‘metem o mundo num preservativo', desvalorizou quando questionado sobre o assunto) e ao batismo de crianças filhas de casais em união de facto. Entre 2005 e 2011 foi presidente da Conferência Episcopal Argentina, uma época em que manteve duros confrontos com o presidente Néstor Kirchner e com a sua esposa e sucessora Cristina Fernandéz. Em 2010, a controvérsia com a atual presidente tornou-se pública, ao afirmar que a adoção por casais gays provoca discriminação entre as crianças. Criticava-lhes também "os delírios de grandeza". Sabe-se agora também que despachos oriundos da embaixada de Buenos Aires, vazados pela WikiLeaks, revelam que o novo papa da Igreja Católica era um nome bastante citado pela oposição argentina em conversas com diplomatas americanos. "A relação entre eles era tensa, sem nenhuma simpatia. Tanto que os Kirchner não assistiram a nenhuma missa dada por Bergoglio", comenta o jornalista Gustavo Sierra. Nomeado arcebispo em 1998, chegou a cardeal em 2001 e pouco depois a presidente dos bispos argentinos. Nessa altura ficou conhecido por celebrar missas para indigentes.


Sócio nº 88 235 (desde 2008) do San Lorenzo de Almagro, "não perdia um jogo. Tive oportunidade de o conhecer e de falar com ele várias vezes e até lhe ofereci uma camisola do clube. É uma pessoa sensível, carinhosa", contou à Domingo Alberto Acosta, que jogou no clube do papa durante quatro épocas e também em Portugal, no Sporting. No clube, o ambiente era, na noite de quarta-feira, de grande euforia. "É uma honra para nós, o nosso clube vai ser abençoado. A missa que celebrou no centenário do clube na capela do estádio ficou para sempre na nossa memória".

Bergoglio apaixonou-se aos 12 anos (pediu-a até em casamento), frequentou a escola pública e trabalhou em laboratórios químicos antes de entrar, aos 21 anos, no seminário jesuíta (foi ordenado sacerdote aos 33).

O ex-governador de Mendoza, José Borbon, que o conhece há 40 anos, disse ao ‘El País': "É demasiado humilde para ser argentino."

JESUÍTAS: A ORDEM DO NOVO PAPA

O papa Francisco era o único jesuíta do Conclave no Vaticano. É agora o primeiro papa jesuíta. A Companhia de Jesus foi co-fundada no século XVI por São Francisco Xavier e passou a ser conhecida pelas suas ações missionárias, nomeadamente na educação das crianças. Os jesuítas defenderam as primeiras reformas da Igreja Católica Apostólica Romana. Durante todo o século XIX, a vida da Companhia de Jesus foi atribulada: quando os governos eram conservadores, os jesuítas eram chamados e exaltados, quando os governos eram liberais, eram perseguidos e expulsos. Os jesuítas têm como votos, além da pobreza e da castidade, a "obediência ao Sumo Pontífice quanto às missões".

SAVERIO QUERIA UM PAPA FRANCISCO

Logo na segunda-feira, um dia antes do início do Conclave, um homem de cabelo grisalho empunhava, à entrada da praça de S. Pedro, uma tarja, com letras incertas, a reclamar que o novo papa adotasse o nome Francisco.

Saverio, assim se chama este habitante de Roma, estava longe de imaginar que o Espírito Santo haveria de levar a sua mensagem àquele que acabou por ser eleito sucessor de Pedro, o cardeal Jorge Bergoglio, agora papa Francisco. Mas o homem de cabelo grisalho pedia mais. Que, além de se chamar Francisco, o papa coloque em prática as virtudes que canonizaram o ‘poverello' de Assis. "Ele deve adotar o nome e aplicar as virtudes de S. Francisco de Assis, como a pobreza, a obediência, o amor, a verdade, a alegria e a santidade", disse à Domingo.

E manda a justiça dizer que, embora o Conclave tenha decorrido no mês de S. José e a cerimónia de início do pontificado esteja marcada para o dia do pai adotivo de Jesus, esta eleição papal teve marcas franciscanas. Já falámos da vitória de Saverio, mas podemos falar de um franciscano que era um dos mais sérios candidatos à sucessão de Bento XVI: o cardeal Sean Patrick O'Malley, arcebispo de Boston, que ganhou a simpatia quando, ao assumir a liderança da diocese, uma das mais atingidas pelo escândalo da pedofilia, pôs em prática a chamada "política de tolerância zero".


Mas voltemos à praça de S. Pedro e ao dia de arranque do Conclave, terça-feira, 12, para falar de outro franciscano. A cidade acordou debaixo de chuva e os fiéis tratavam de abrigar-se debaixo da colunata ou de guarda-chuvas. Ao fundo, ajoelhado, fincado num cajado, rezava um homem vestido de serapilheira e com os pés em ferida. Era um frade franciscano que tinha caminhado, descalço, os 200 quilómetros que separam Assis de Roma. "Vim rezar porque a Igreja precisa muito de oração", disse. Ao vê-lo, assim, cansado e ajoelhado à chuva, um executivo, de fato e gravata, ajoelhou-se e rezou também.

E o papa chama-se Francisco.

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