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O general pop star

Qasem Soleimani tanto tinha ajudado na luta contra o Daesh como a matar americanos.
Fernanda Cachão 12 de Janeiro de 2020 às 15:00

A execução de Soleimani, ordenada por Donald Trump a partir do seu resort de golfe na Florida, demorou pouco tempo e pôde ser confirmada imediatamente.

O homem que era uma espécie de "James Bond, Erwin Rommel e Lady Gaga" para os xiitas - segundo escreveu o ex-analista da CIA Kenneth Pollack no perfil que dele fez para a ‘Time’, no especial dos 100 mais influentes do Mundo em 2017 - pôde ser identificado pelo anel de rubi que este filho de um pobre agricultor usava, na mão decepada e coberta de cinza que escapou à força de dois mísseis.

O arquiteto dos esforços estratégicos do Irão [ver entrevista], várias vezes apontado como candidato a eleições no seu país, tinha evitado o imbróglio de um dos aeroportos mais protegidos do Mundo, o de Bagdad, e viajado num avião privado. À espera sobre a pista, pela meia-noite de 3 de janeiro, dois SUV e o antigo sócio Abu Mahdi al-Muhandis, líder iraquiano da milícia xiita Kata'ib Hezbollah, apoiada pelo Irão, a que tinha sitiado a embaixada dos EUA em Bagdad em retaliação aos ataques aéreos americanos de 29 de dezembro.

A pequena trajetória dos carros sobre a pista do aeroporto foi transmitida em direto pelo drone MQ-9 Reaper para o Pentágono, que pôde testemunhar a eficácia dos dois mísseis sobre o primeiro carro, no qual estavam Suleimani e Muhandis, e depois sobre o segundo, no qual viajava a guarda pessoal do general, cuja morte começou a ser vingada na madrugada desta quarta-feira, quando dezenas de mísseis atingiram a base aérea iraquiana de Ain Asad, onde estão tropas americanas.

Qasem Soleimani não era apenas um homem da guerra: estratega influente junto de outros influentes em todo o Médio Oriente, por detrás do charme grisalho estava o vaidoso que se fotografava nos palcos de guerra para postar no Instagram, onde tinha milhares de seguidores.

Na autobiografia, Soleimani escreveu que nasceu em Rabor e que aos 13 anos foi trabalhar na construção civil para pagar uma dívida do pai contraída com o governo do Xá Reza Pahlavi. Em 1979, durante a Revolução Iraniana, foi apoiante do governo do aiatola Ruhollah Khomeini e juntou-se à Guarda Revolucionária.

A fama e a carreira militar começaram nos anos 80, na Guerra Irão-Iraque. Soleimani foi comandante das forças iranianas e forneceu ajuda a grupos xiitas e curdos contra Saddam Hussein, auxiliou o Hezbollah no Líbano e o Hamas na Palestina; apoiou, na guerra civil fratricida, o presidente sírio Bashar al-Assad, bem como o governo iraquiano e as milícias xiitas contra o Daesh do Iraque e do Levante (EIIL), entre 2014 e 2015, e por isso mesmo foi caricaturado numa edição deste último ano da revista americana ‘Week’ deitado na cama com o Tio Sam.

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