Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

O génio de Cadilhe

“A troika delirou com a ideia de Cadilhe e Passos estalou os dedos: “Como é que não pensei nisso antes!”
Victor Bandarra 24 de Junho de 2012 às 15:00
Revolução, 24 de Abril, Eanes, Soares, Sampaio, Paulo de Carvalho, FMI
Revolução, 24 de Abril, Eanes, Soares, Sampaio, Paulo de Carvalho, FMI FOTO: João Miguel Rodrigues

Ar desdenhoso e porte altivo, pasta de couro na mão de unhas imaculadas, o homem arrasta a bengala de punho de prata até ao balcão das Finanças. Não coxeia, a bengala dá-lhe aquele je ne sais pas quoi que define um homem de posses com pedigree. Senta-se com displicência e anuncia: "Por uma questão de ética, responsabilidade cívica e consciência social, venho declarar todos os meus activos e passivos, incluindo títulos de investimento, obras de arte e jóias!"

O funcionário engole em seco e o homem prossegue: "Se insistirem muito, até lhes posso facultar as minhas contas em off-shores e na Suíça!" O homem do fisco, boca escancarada, vai-se interrogando - "mas quem é este louco varrido?" Muito sério, sem pestanejar, o homem conclui: "O senhor Cadilhe tem toda a razão: não custa nada pagar 4% sobre os meus bens! Que diabo! Então não há dias em que as cotações das bolsas sobem e descem mais do que isso?!"

Esta cena de revista à portuguesa, com citações de Miguel Cadilhe em entrevista recente, havia de pôr o povinho a rir até às lágrimas. Com a devida compostura, até os ricos haviam de sorrir. O ex-ministro das Finanças de Cavaco e ex-presidente do Banco Português de Negócios (BPN) desenvolveu uma ideia brilhante, qual coelho desencantado na cartola: um imposto sobre a riqueza de muitos portugueses para resolver os problemas de todos - podres de ricos, muito ricos, ricos, remediados, pobres, muito pobres e desgraçadinhos. Demarcando-se dos aldrabões dos gregos, Cadilhe explica que todo o património seria declarado pelo titular, "numa atitude de verdade e sinceridade". A troika delirou e Passos Coelho estalou os dedos: "Como é que nunca tinha pensado nisso antes!"

O meu amigo Zé dos Pneus, ex-amigo do Zé das Medalhas, sempre defendeu que o então ministro Teixeira dos Santos devia ter feito a vontade a Cadilhe - injectar 600 milhões de euros no BPN e não nacionalizá-lo. "O homem é um génio! Os 600 milhões tapavam logo os buracos maiores! E hoje, os clientes do BPN já podiam pagar à vontade os 4% do novo imposto!" Inspirado em Warren Buffet e Bill Gates, consta que Cadilhe teve esta noite uma ideia ainda melhor: pedir simplesmente aos portugueses que doem uma parte dos seus bens ao Estado.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)