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O governo de Sócrates é feito de enganos

Moldes. Há quem não lhes dê importância. É um erro. Para sectores que vão desde o automóvel até aos brinquedos, nada existe sem esses chavões. O ex-deputado socialista Henrique Neto é o dono da Iberomoldes, a empresa que se tornou numa destacada referência mundial. O militante só tem uma linguagem. A directa. E uma frontalidade acima da média.
6 de Maio de 2007 às 00:00
O governo de Sócrates é feito de enganos
O governo de Sócrates é feito de enganos FOTO: Pedro Catarino
- Como é que um filho de uma família originária da Marinha Grande nasce em Lisboa?
- O meu pai fez muita coisa na vida. Foi polícia em Lisboa... Por isso nasci na capital. Mas não tardou para que regressássemos à Marinha Grande.
- Onde, desde muito novo, começou a trabalhar...
- É verdade. Aos 14 anos como aprendiz na indústria de embalagem de madeira e aos 16 anos, na indústria de moldes para matérias plásticas.
- O que lhe despertou a atenção?
- Naquela época, a indústria de moldes representava uma verdadeira novidade no País. E eu, em miúdo, muitas vezes, passava à porta da fábrica de moldes para vidros do Sr. Aníbal Abrantes – um homem bastante conhecido na zona, tinha sido futebolista do Sporting, e mais tarde no marinhense – e através das janelas, conseguia ver o que lá se passava. Aquilo despertou-me a curiosidade. Um dia pedi-lhe emprego.
- Sabe como é que Aníbal Abrantes conheceu Tony Jongenelen, um ex-espião da CIA durante a II Guerra Mundial?
- Nos anos 50, o Sr. Aníbal fez um molde para um brinquedo (uma televisão). O director da empresa que fornecia essa maquineta era Tony Jongenelen, um judeu holandês, que durante a II Guerra Mundial, foi espião para a CIA. Ao verificar que o Sr. Abrantes tinha feito um molde que funcionava, propôs-lhe ser seu agente no estrangeiro. Ele sabia que os amigos, ex-espiões, tinham ido para os Estados Unidos com o objectivo de edificar fábricas de plásticos. Assim que se iniciou a exportação portuguesa de moldes.
- A empresa ficou sempre nas mãos de Aníbal Abrantes?
- Nos finais dos anos 60 vendeu-a a um grupo organizado pelo antigo regime. A dificuldade em conseguir material, devido à Guerra do Ultramar, acelerou a criação de um grupo que tivesse competências para fazer material bélico.
- Em que ano deixou a empresa?
- Na altura das nacionalizações, em 1975. E com o Eng. Joaquim Menezes fundo a Iberomoldes. Depois de uma década, comprámos a empresa do Sr. Abrantes. Foi a primeira operação de privatização feita em bolsa.
- De que maneira a política entra na sua vida?
- Já em 1969 tinha sido candidato de oposição democrática. A oposição ao antigo regime na Marinha Grande era muito forte. Nós tínhamos um movimento que, ao contrário de outros, era de unidade. Tanto pela parte do PCP na clandestinidade, como pelo movimento chamado “legal”.
- Ingressa no Partido Socialista (PS) em finais dos anos 80. É deputado entre 1995-1997. Mas ficou-se por aí. Fartou-se da política?
- Fartei-me! Ser deputado não correspondia às minhas características: ser frontal. Dizer, sem preocupações, aquilo que penso. Ser livre.
- No seio do PS foi muito crítico, nomeadamente em relação ao Dr. Joaquim Pina Moura...
- Devo dizer que eu era amigo dele, agora estamos afastados. Tudo começou quando ele, na qualidade de ministro da Economia, aprovou a compra da posição da Petrocontrol, presidida pelo Prof. Freitas do Amaral, cujos accionistas, eram, entre outros, o Grupo Amorim e o Espírito Santo. Digamos que um grupo juntou-se numa empresa chamada Petrocontrol com o intuito de comprar a Galp. E compraram-na! Dirigiram-na mal, ou menos bem, durante anos. Zangavam-se uns com os outros. O Dr. Pina Moura, ministro da Economia, resolveu a coisa adquirindo a posição dos accionistas.
- Qual é a sua interpretação?
- Que não tinha legitimidade para pagar aquilo que pagou. Duzentos milhões de euros! Novecentos milhões de contos! Com enormes mais-valias. Foi um favor que o Estado fez a grupos privados. Eu cheguei a levantar esta questão na comissão política do PS.
- O partido não gostou?
- Não gostou mesmo nada. Lembro-me que o Dr. Pina Moura estava lá e não abriu a boca. Ninguém me apoiou. Na venda da Petrogal à ENI foi ele que fez essa operação, indo contra a lei das Privatizações. Esse negócio que foi feito entre o Dr. Pina Moura e o Prof. Freitas do Amaral prejudicou o Estado. A Galp nunca mais foi a empresa que podia ter sido. Há anos e anos que anda nesta baralhação. Despediu Ferreira de Oliveira – um gestor bastante competente, para colocar os seus amigos, nomeadamente o Mexia e companhia.
- Qual era a sua alternativa?
- Fazer uma holding que englobasse as três empresas da área energética (EDP, Galp, Gás Portugal). O objectivo era simples: manter o controlo dessas empresas em mãos portuguesas, e de uma maneira que a União Europeia, mais tarde, não pudesse levantar grandes questões. O intuito estratégico principal assentava na criação de uma empresa capaz de concorrer com os espanhóis.
- Durante a governação do Eng. António Guterres, as suas críticas foram bastante acentuadas.
- A nossa relação azedou quando ouvi numa reunião do grupo parlamentar, alguém chamar a atenção em tom de crítica, de que havia pessoas que escreviam nos jornais contra o partido. Lembro-me que um dos nomes era Dr. António Barreto. No final, o Eng. António Guterres disse que não estava preocupado, porque no fundo “o que eles têm é inveja de nós estarmos aqui”. Eu respondi-lhe que, a partir do momento que os governos deixam de ouvir, perdem legitimidade. Acabei por escrever uma carta. Lendo-a hoje, dá-me vontade de rir. Tudo o que lhe aconteceu está lá escrito: o governo não governou bem.
- E o actual?
- Também não. É um governo feito de enganos. Os portugueses estão a favor do governo, dizem que o Eng. Sócrates governa bem, mas é pura ficção. O governo é muito hábil em fazer passar objectivos consensuais: umas vezes não tem levado à frente esses objectivos, porque não quer, e outras vezes, por- que não sabe. Tem muitas manobras de diversão. É muito difícil saber se o Eng. Sócrates quer ou não uma coisa. Lança até ideias que não quer, com o intuito de serem queimadas
- O que diz à nomeação do Dr. Pina Moura à presidência não executiva da Media Capital?
- Ele agora pode dizer que está livre dos seus cargos políticos. Eu não vejo grandes problemas nisso. O que me faz impressão é o facto de uma televisão privada ser presidida por um espanhol. A Prisa entrou a papo-seco.
Como assim?
- A licença da TVI foi-lhe dada pelo Estado. Houve um concurso público com vários concorrentes e quem ganhou foi a Igreja Católica. Quando acabou o tempo da concessão, esta devia ter sido renovada com outro concurso público, no contexto de que existe uma empresa espanhola que entrou na luta. Era normal que qualquer país defendesse os interesses nacionais reabrindo um concurso. Na verdade, não sabemos se o Dr. Pina Moura irá no futuro dirigir desta ou daquela maneira. Mas a questão não é essa, mas saber em que medida ele teve influência na decisão do governo.
- O primeiro-ministro é, ou não, engenheiro?
- Isso é irrelevante! O grave é ele já ser membro do governo e não se ter apercebido da fragilidade da universidade. E sendo primeiro-ministro não ter feito nada para que as universidades privadas dessem maior garantia.
- A Independente irá fechar?
- Posso enganar-me, mas o Governo prepara-se para não a encerrar. Quando o ministro denunciou fechar a Independente, deu logo um sinal... bem sei que estava na lei... mas as pessoas quando querem fazer uma coisa, não dizem: “Vamos fechar, mas eles podem responder e apresentar razões”.
- Já disse que o governo não queria a OTA...
- O que eu disse foi que tinha dúvidas.
- Vai haver?
- O ministro dos Transportes afirmou que não há tempo para fazer outras opções. Mas a questão não é essa. É preciso saber se a solução é boa ou má.
- E qual é a solução boa?
- O novo aeroporto em Portugal, que tem de ser feito no Tejo (na Ota ou noutro sítio), porque é aí que está a economia e as pessoas, deve ambicionar ser um “Abe” – um aeroporto que recebe passageiros e mercadorias, mas que concentra e transporta para locais longínquos. Podemos ser um “Abe” para o Brasil e África. Poderemos construir um pequeno para o Canadá e Estados Unidos da América. Hoje temos condições para ter um aeroporto que pode lutar, por exemplo, com Madrid. Bem sei que os espanhóis têm melhores condições, mas é uma luta taco-a-taco.
- Não gosta de espanhóis.
- Não é não gostar. Faço aquilo que os portugueses andam a fazer há oito séculos. Resistir.
- Durante a visita oficial do Presidente da República à Índia, criticou o molde da viagem.
- Já tinha dito aos anteriores presidentes que os empresários deveriam ser chamados a identificar os seus targets. Nessa viagem, o actual Presidente da República disse-me que eu tinha razões, que já estavam a organizar reuniões prévias. Respondi-lhe que era pouco. Mas é melhor que nada. São viagens de que não se tira partido.
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