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O grande maestro

O livro ‘Jorge Coelho, o Todo-Poderoso' conta a vida de um dos políticos mais influentes do país
18 de Maio de 2014 às 15:00
O ex-ministro socialista já não tem cargos políticos, mas a sua influência perdura
O ex-ministro socialista já não tem cargos políticos, mas a sua influência perdura FOTO: LUSA / ANTONIO COTRIM

Em Contenças, aldeia de Mangualde, ainda o tratam por Jorginho. Mas o diminutivo engana, porque o filho de um pequeno empresário e de uma doméstica chegou a ser um dos homens mais influentes do País. Fernando Esteves, editor de Política da revista ‘Sábado', traça-lhe a biografia no livro ‘Jorge Coelho, o Todo-Poderoso'. Ali se explica como Coelho continua a ser uma figura incontornável para os socialistas.

O episódio da gaffe de António Guterres sobre o PIB, na campanha eleitoral de 1995, é um bom exemplo da intuição e do pragmatismo de Jorge Coelho. A ‘Domingo' publica o excerto do livro sobre esse caso.

"É fazer as contas"

Guterres tinha acabado de fazer uma visita aos Hospitais da Universidade de Coimbra para vincar, uma vez mais, a sua aposta na área da Saúde (...) começou a debitar informação:
- Desejavelmente, deveríamos poder atingir, num prazo tão curto quanto possível, um nível da ordem dos 6% do Produto Interno Bruto em despesa de Saúde.

Ricardo Costa, jornalista da SIC, fez a pergunta:
- Isso é quanto, em dinheiro?
A picareta paralisou:
- Eh... são... o Produto Interno Bruto são cerca de três mil milhões de contos... portanto, seis por cento... seis por cento de três mil milhões... eh... seis vezes três dezoito... eh... um milhão e... um milhão e... ou melhor... enfim, é fazer a conta.

Foram os mais longos 25 segundos da carreira política de Guterres. [pág. 121]

Jorge Coelho:
O Ricardo Costa transmitiu a notícia no Jornal da Noite e eu comecei a fazer contas de cabeça. Achava que aquilo nos podia prejudicar seriamente porque abalava toda a imagem de consistência e credibilidade que vínhamos construindo. Tinha de falar com o Edson Athayde."

Edson Athayde:
Eu morava entre Barcelona, Madrid e Lisboa. A campanha era algo que eu fazia nas horas vagas, no pouco tempo que me sobrava do trabalho na agência de publicidade que dirigia. Assim, por vezes ficava meio out do que estava acontecendo no terreno ou nos meios de comunicação. Foi o caso. Não tinha visto televisão no dia da gaffe. (...) Lembro-me de encontrar-
-me com o Coelho em Oeiras (o Guterres ia visitar uma escola na zona). Entrei no seu carro e ele logo perguntou a minha opinião. Eu disse que não fazia a mais pequena ideia do que ele estava a falar. Ele riu-se e comentou com alguém no carro algo como: "Tás a ver? Quem não está nisto 24 horas vive tudo com outra intensidade."

Explicou-me o ocorrido. Disse-lhe que só havia duas possibilidades: ou a coisa desaparecia rapidamente do ar, pela sua insignificância, ou seria bombardeada até ao fim da campanha, extrapolando a sua importância. Na segunda hipótese, o melhor era não tentar remediar a coisa. Um erro era um erro, e errar era humano. Logo, Guterres era humano. Isso até era positivo, pois vinha no seguimento de acusações de que ele era uma picareta falante, um robot com tudo bem decorado, um boneco de plástico a desbobinar uma fita. Mas eu achei que se a agitação em torno da gaffe continuasse, se se tornasse uma bandeira política de partidos e articulistas, provavelmente iria provocar um efeito de vitimização e até poderia ser positivo. Foi mais ou menos o que aconteceu. A cena foi tão pisada e repisada que acabou por transformar o Guterres em vítima. Detalhe: eu só vi a tal cena da gaffe anos depois. O mundo era diferente antes do YouTube e das redes sociais. [Pág. 123]

Resumindo: Guterres era oficialmente humano. Anos depois viria a considerar o erro como a gaffe mais útil da sua vida.

A campanha de 1995 foi fundamental para solidificar o estatuto de Jorge Coelho junto dos jornalistas enquanto efetivo número dois de Guterres. Nunca como naquele momento os profissionais puderam ver que era ele quem de facto dava cartas. É certo que António José Seguro também tinha algum poder, mas a palavra final sobre as decisões mais importantes ao nível da organização era de Coelho. Todos o sabiam. [Pág. 124].

Entrevista a Fernando Estevs, autor do Livro

"Ter o apoio de Jorge Coelho é ter o PS"

Como foi a reação de Jorge Coelho quando lhe disse que ia fazer a sua bigrafia?

Fui almoçar com o Jorge Coelho e informei-o de que me preparava para fazer uma biografia sobre ele. Havia duas possibilidades, ou ele colaborava ou não colaborava. Iria avançar com o livro independentemente da resposta dele e expliquei-lhe que a condição era ele não ler antes.

Ele concordou em participar e deu-me muitas entrevistas sobre as suas vivências pessoais e políticas. O livro demorou cinco anos a escrever.

 

Jorge Coelho esteve muito afastado das lides políticas. O subtítulo ‘O Todo-Poderoso' refere-se ao passado, ao presente, ao futuro?

O título tem a ver com o facto de ele, do meu ponto de vista, ter sido o militante socialista mais influente dos últimos 20 anos. ‘Todo-Poderoso' porque ele teve muito poder enquanto esteve no PS, não só pelos cargos que desempenhou ao mais alto nível - foi ministro em dois governos, foi membro do conselho de Estado, deputado - mas, mais do que isso, ele influenciou decisivamente uma série de acontecimentos que acabaram por se refletir na vida política do país. Foi fundamental na ascensão do António Guterres ao poder. Foi ele que lhe organizou a máquina eleitoral quando Guterres faz o assalto ao poder contra Jorge Sampaio quando este perde eleições para Cavaco Silva. A partir daí é o braço direito de Guterres no Governo. É ele que colmata todas as falhas de Guterres, nomeadamente quando Portugal tem a presidência da União Europeia e o primeiro-ministro se ausentou do país durante um período alargado. Era ele que na prática liderava o governo nessa altura e era ele que fazia as listas partidárias para deputados.

 

Ficou-lhe colado o rótulo de ‘homem do aparelho'...

Com alguma justiça, diga-se. Mas antes dele o homem do aparelho tinha sido o próprio António Guterres, Jorge Coelho limita-se a substituí-lo nessas tarefas. Mas Coelho passou a ser uma espécie de líder informal do PS. Ele é decisivo para eleger Guterres e é decisivo para fazer e eleger Ferro Rodrigues e, posteriormente, quando Ferro Rodrigues cai, é ele também que decide que não podia ser António José Seguro a avançar e seria José Sócrates, que era para ele a pessoa mais bem colocada para ganhar eleições nacionais. O poder prolonga-se depois da saída da política. Coelho entra para o mundo dos negócios onde, depois de uma fase em que abre uma empresa de consultadoria, faz a transferência para a liderança executiva da Mota Engil e torna-se um dos gestores mais poderosos do país.

 

Ainda nessa fase da política, considera que, se não fosse o caso de Entre-os-Rios (a queda da ponde que levou Coelho a demitir-se do Governo), ele poderia ter aspirado a ser primeiro-ministro?

Estou completamente convencido de que, mesmo depois de Entre-os-Rios, ele poderia ter sido primeiro-ministro, se quisesse. Jorge Coelho recusou ser candidato à liderança do PS pelo menos em duas circunstâncias. Quando António Guterres caiu, a possibilidade de ele avança foi posta de forma muito intensa. Ele recusou e indicou Ferro Rodrigues como sucessor de Guterres. Depois, voltou a colocar-se essa hipótese quando Ferro caiu. José Sócrates, antes de avançar, perguntou a Jorge Coelho se este estava na corrida e disse-lhe que só avançava com o seu apoio.

 

Como se explica essa recusa de Coelho, sobretudo a seguir à demissão de Ferro Rodrigues, em que havia muito boas hipóteses de o PS voltar em breve ao poder?

Se ele tem substituído o Ferro Rodrigues, provavelmente seria primeiro-ministro. Esse é um dos grandes mistérios da vida de Jorge Coelho. Parece-me que ele sempre se sentiu muito confortável com a figura de número dois de António Guterres. Não seria número dois de mais ninguém, há uma relação quase umbilical. Perguntei-lhe várias vezes porque é que ele nunca quis avançar e ele sempre me disse que achava que não tinha vocação para o lugar. Não concordo, acho que ele poderia ter sido primeiro-ministro, teria ganho eleições nacionais. Mas acho também que ele gostaria mais, se lhe dessem a escolher, de ser Presidente da República do que propriamente primeiro-ministro.

 

Uma candidatura de Jorge Coelho à Presidência da República é ainda um cenário possível?

Acho que não, pelo menos neste momento. Acredito que ele tenha pensado no assunto para 2016, mas a transferência para a Mota Engil massacrou-o muito do ponto de vista da imagem pública. Ele é um grande especialista em comunicação política e sondagens e tem uma noção muito forte das suas próprias forças e fraquezas. Percebeu rapidamente que não era a pessoa indicada para avançar. Ele tem uma característica muito interessante - todas as decisões políticas que toma são puramente pragmáticas, só apoia candidatos para vencer. Fê-lo com Ferro Rodrigues e com José Sócrates e se achar que ele próprio não é a melhor solução para o partido ganhar eleições ele não avança

 

Sobrepõe o resultado à vaidade pessoal de ser ele o candidato?

Sim, claramente. Não é uma pessoa vaidosa a esse ponto.

 

Mas há nessa equação o nome de António Guterres, que no livro admite pela primeira vez que não pode recusar de todo a ideia de um dia concorrer a Belém...

Se António Guterres fosse candidato presidencial, jamais Jorge Coelho avançaria. Mas, independentemente disso, ele está convencido de que não é a melhor pessoa neste momento para avançar. Não sei se é uma porta que se fecha definitivamente, mas tem outras coisas na vida dele. Abriu uma empresa de consultadoria, em que apoia processos de internacionalização de empresas e vai montar um projeto agro-industrial  em Contenças, a terra onde nasceu. É uma espécie de regresso às origens que lhe está a dar muito gozo pessoal. Mas está tudo em aberto porque ele ainda é muito jovem. Vai fazer 60 anos e o PS continua a acarinha-lo imenso. Em todas as aparições públicas que faz continua a ter uma relação quase pavloviana com os militantes socialistas. Ele estala um dedo e há uma reação imediata. Construiu uma relação afetiva com os militantes que é muito rara. No PS, só Mário Soares conseguiu estabelecer laços tão evidentemente afetivos.

 

Temos a noção de que quando Jorge Coelho se mexe todo o PS estremece...

O facto de António José Seguro o querer agora na campanha eleitoral, à semelhança do que aconteceu com todos os líderes do PS desde Guterres é muito sintomático. Seguro sabe que se Jorge Coelho estiver com ele não está com o seu principal inimigo dentro do partido, que é António Costa. Ainda hoje, ter o apoio de Jorge Coelho é ter o apoio do partido. Ele já saiu da política ativa há mais de 10 anos e no entanto a capacidade de penetração  dele no aparelho partidário ainda é incrível. É impressionante vê-lo a discursar em comícios do PS. Há pessoas que choram.

 

O que o surpreendeu em Jorge Coelho?

A imagem pública que ele tem, ou pelo menos a que teve durante muito tempo, foi a de uma pessoa muito emocional, muito enérgica, mas também algo primária, no sentido em que não era visto como sendo muito culto ou muito preparado do ponto de vista teórico. Essa foi uma ideias que desconstrui quando agora tive oportunidade de o conhecer melhor e de falar com os que lhe são próximos. É um estudioso, lê imenso, é um apaixonado por arte, pintura, cinema, teatro. Aliás, fez teatro quando era jovem. Este livro traz uma dimensão diferente de Jorge Coelho enquanto pessoa.

 

Conhecemo-lo como o ‘bombeiro', sempre ponto a apagar fogos...

Percebi que ele é muito mais do que isso. Ele tem uma dimensão intelectual que as pessoas desconhecem por completo

 

Um dos episódios do livro é a célebre gaffe de Guterres sobre o PIB. Essa história mostra como Jorge Coelho se empenhava a fundo em gerir a relação do PS com os media para conseguir boa imprensa...

Ele era o grande orquestrador da comunicação dos governos de António Guterres. Controlava tudo ao milímetro. Ele é absolutamente viciado em jornais e sabe quem são os jornalistas que escrevem sobre política. E entre os que escrevem política, sabe quem escreve sobre o PS. E entre os que escrevem sobre o PS, sabe quais são especializados em determinadas pessoas, sabe quem são as suas fontes, sabe tudo.

 

Parece estar a descrever um indivíduo perigoso...

Não é perigos, é estudioso. Ele encara a relação com os jornalistas numa perspetiva quase científica. A primeira campanha de António Guterres trouxe a Portugal um novo nível de profissionalização da relação entre uma campanha política e os jornalistas. Jorge Coelho foi com António José Seguro assistir a comícios do PSOE, em Espanha, e percebeu muito rapidamente que os comícios eram feitos para a televisão. Foi isso que trouxeram para a campanha, a noção de que os comícios e as campanhas são espetáculos televisivos. Não são eventos para chegar às pessoas na rua.

 

Lembramo-nos  da música do Vangelis, das grandes encenações...

Foi na altura em que eles contrataram o Edson Athayde, na altura um publicitário que não tinha nada a ver com política. O Edson, juntamente com o realizador da RTP, Nuno Teixeira, monta toda aquele show à volta de Guterres. Mas esse episódio da gaffe do PIB é muito interessante. O António Guterres estava a sair dos hospitais da Universidade de Coimbra e o Ricardo Costa, na altura jornalista da SIC, pergunta-lhe quanto pesava o orçamento da saúde no PIB. Guterres engasga-se e diz que o melhor é fazer as contas. A campanha entrou em choque. Jorge Coelho, que não estava no local, foi contactado de imediato. Ficou muito preocupado e telefonou ao Edson Athayde e disse-lhe "isto está tudo perdido, como vamos gerir a situação?". O Edson deu-lhe uma solução muito interessante, que à partida não estava à vista. Ele disse que era bom Guterres ter errado porque tinha a fama de ser uma "picareta falante" que sabe tudo sobre números, de ser uma máquina, um génio. O episódio provava que os génios também se enganam e isso humanizou Guterres, distanciando-o de Cavaco Silva. Coelho percebeu perfeitamente a ideia e concordou com Edson Athayde. Falei com António Guterres sobre esse episódio, e ele disse que essa terá sido a gaffe mais útil da vida dele

 

Podemos especular que, se Coelho não tivesse saído do Governo, Guterres não se teria demitido?

Estou convencido de que o Governo ia cair de qualquer maneira. Quando acontece Entre-os-Rios o Jorge Coelho estava muito cansado. O Governo estava de rastos, na sequência de uma série de escândalos, vínhamos de dois orçamentos aprovados in extremis à conta de um acordo com um deputado dos CDS [os orçamentos limiano]. O Governo estava minado por escândalos, conspirações, fugas de informação. Guterres e Coelho tiveram uma grande desilusão na segunda eleição. Estavam convencidos de que iam ter a maioria absoluta e falharam-na por um deputado. Ficaram com 115, precisavam de 116.

 

Mas Guterres nunca chegou a pedir essa maioria absoluta, o que muitos viram como uma falha...

Foi um erro político. Devia ter pedido a maioria absoluta. Mais do que isso, ele nunca deveria ter feito o orçamento do queijo limiano. Deveria ter dramatizado e deveria ter agitado o fantasma das eleições antecipadas. Esse orçamento fragilizou-o brutalmente. Nessa altura, o Jorge Coelho também foi contra esse orçamento, mas Guterres achou que devia aprovar o orçamento porque ele próprio estava a colocar a possibilidade de sair depois das eleições autárquicas, embora não o tivesse revelado publicamente. Queria que o governo que ficasse tivesse o orçamento aprovado. Foi uma das coisas que me contou quando o entrevistei para este livro...

 

Isso é a costela de Guterres o bom cristão, que quer sair sem deixar a casa em chamas?

Sim, mas o problema é que a casa já estava a arder há muito tempo.  A situação estava a tornar-se incomportável. Havia conspirações entre membros do governo, uns contra os outros. Jorge Coelho, que era argamassa que tentava colar as peças soltas, estava menos solidário que o habitual. Estava cansado da incapacidade que Guterres demonstrava para decidir, nomeadamente a de fazer ruturas. O António Guterres é incapaz de afastar um membro do Governo sem passar por uma dor interior brutal. Há um episódio revelador, do primeiro para o segundo governo, chegou-se à conclusão de que Maria de Belém teria de sair do Ministério da Saúde para entrar Manuela Arcanjo. O problema é que Maria de Belém é amiga de António Guterres. Ele afastou-a da pasta da Saúde mas criou uma pasta absolutamente inócua para lhe atribuir que foi o Ministério da Igualdade. António Guterres nunca soube gerir demissões e situações de conflito, porque ele é naturalmente avesso ao conflito. Coelho estava farto de ser sempre ele a apagar os fogos.

 

Coelho era o grande conciliador?

Servia como argamassa política do partido. Foi ele o responsável, por exemplo pela reconciliação do partido depois de Guterres roubar o poder a Jorge Sampaio. O PS fica completamento dividido. Jorge Coelho começou a colar cacos, juntamente com Ferro Rodrigues, que era um sampaísta. Começam a estabelecer pontes e cria-se unidade num partido que estava de rastos depois daquela luta violentíssima. Houve insultos, ameaças físicas entre guterristas e sampaístas. A corda esticou até rebentar e depois o processo de reunificação foi muito complicado. Jorge Coelho esteve no centro desse processo e por isso é que ele é uma figura transversal no partido.

 

Tendo em conta toda essa intensidade da vida política, como foi para ele passar a estar fora do Governo  e longe do centro do jogo político?

Quando ele sai do Governo, vai para a Assembleia e foi muito estranho. Nunca gostou de ser deputado, gosta de cargos executivos, de decidir e ver as coisas acontecer. Isso não acontece na Assembleia. Cedo decidiu abandonar o Parlamento  e começou a dedicar-se à sua atividade profissional privada, apesar de manter alguns cargos no PS. Pouco depois, em 2003 aparece-lhe o cancro, que lhe muda totalmente a vida.

 

Esse é talvez a faceta mais surpreendente do livro. Não se imagina um Jorge Coelho deprimido, fechado em casa sem falar com ninguém, derrotado perante a doença...

Foi um momento terrível para ele. O primeiro sintoma do cancro (no ouvido interno) aconteceu quando discursava num comício. Ele fala sempre de improviso e começou a sentir-se confuso, o discurso estava toldado, engasgou-se e decidiu terminar o discurso, sem glória, sem os finais apoteóticos que lhe eram habituais. Paulo Pedroso estava na mesa e no fim perguntou-lhe o que se passava. Foi ao médico e depois de uma bateria de exames chegou-se à conclusão de que tinha cancro. Entrou em depressão profunda, fechou-se no quarto, pouquíssimas pessoas sabiam que ele estava doente. No PS, só quatro pessoas sabiam, Guterres, Sampaio, Ferro Rodrigues e António José Seguro. Proibiu a família e os amigos de o visitarem, só convivia com a mulher, a filha e o cão. A determinada altura até as palavras de alento da mulher e da filha o irritavam. Não conseguia comer nem beber, ficou sem falar. Os tratamentos foram de uma violência total, perdeu 30 quilos em poucas semanas .

 

Conta que só reagiu quando recebe um fax da médica...

A dada altura estava isolado no quarto, interrompeu os tratamentos e praticamente não falava. A mulher, desesperada, falou com a médica dele e esta envia-lhe um fax para casa a dizer: "Jorge, ou é internado ou morre". Esse foi o choque elétrico de que ele precisava para se confrontar com a situação degradante em que se encontrava. Achava que se fosse para o hospital isso era aceitar a derrota perante a doença. Mas teria morrido se não fosse tratado. Acabou por recuperar e voltou aos tratamentos. Fez muitas sessões de radioterapia e quimioterapia, que eram violentíssimas. No dia em que fez a ressonância magnética decisiva, o radiologista e disse-lhe que estava curado. Saiu do gabinete e estavam à sua espera a mulher e a filha. Agarraram-se uns aos outros a chorar.

 

O que mudou na vida dele depois disso?

Passou a dar muito menos importância à política, embora seja um apaixonado por política. Ainda faz muitos jogos de bastidores, o poder dele também advém disso, mas já não liga aquelas tricas diárias. Passou a dar muito mais importância à família. Ele adora a filha, mas por causa dos cargos públicos que ocupou, não a viu crescer como gostaria. A filha entretanto casou, deu-lhe um neto e Jorge Coelho tentou recuperar o tempo perdido.

 

Mas depois aparece a Mota Engil...

É mais um marco na vida dele. Depois da intensidade da vida política e da reconciliação com o tempo familiar, vem a Mota Engil, que lhe volta a estoirar as rotinas. Passa a fazer viagens intercontinentais quase semanalmente. Quando ele vai para a empresa, o António Mota, presidente da empresa, colocou-lhe dois objetivos, internacionalizar a empresa, diversificando os produtos, e por outro lado assegurar a transição geracional. Nos cinco anos que lá passa, Jorge Coelho transforma completamente a empresa. A Mota Engil tinha uma percentagem de 35% de negócios lá fora e cinco anos depois a empresa tornou-se uma verdadeira multinacional e poderia sobreviver com o que faz no estrangeiro, que representa 70% do volume do negócio.

 

Isso deve-se à facilidade com que o Jorge Coelho pega no telefone e fala com quem quer que seja?

O António Mota sabia que ele é tóxico por um lado, na medida em que qualquer coisa em que a empresa esteja envolvida, por ter o Jorge Coelho à frente, acaba por ter uma dimensão completamente diferente. Havia processos em que a empresa estava envolvida antes de o Jorge Coelho chegar - como é o caso do terminal de contentores de Lisboa, cujo contrato foi assinado muito antes - que ganharam uma dimensão absolutamente exacerbada pelo facto de terem surgido a público depois de ele entrar na empresa. Mota decidiu pagar esse preço e a história veio a dar-lhe razão. A  verdade é que a empresa faturou muito por ter Jorge Coelho à frente. Ele agarra no telefone e entra em contacto com o primeiro-ministro de Angola para resolver um problema. Foi ele, por exemplo, que promoveu a entrada da empresa no Brasil, ou na Venezuela e outros países da América Latina por causa dos contactos políticos que lá tem.

 

Acha que foi Jorge coelho quem pagou o preço mais alto por essa vida empresarial, na medida em que a experiência comprometeu a sua carreira política?

Sim, claramente. Acho aliás que o Jorge Coelho só não encara a possibilidade de ser candidato presidencial do PS por causa da passagem pela Mota Engil. Foi uma coisa que o massacrou do ponto de vista da perceção pública. Ele anda na rua e as pessoas são muito carinhosas e simpáticas com ele, mas a verdade é que há efeitos nefastos.

 

Ele não colocou a si próprio essa questão ética de um ministro que adjudicou obras a uma empresa não dever tornar-se gestor dessa mesma empresa?

Ele pensou nisso. Sabia que isso ia ser destacado. É óbvio que é questionável que um ministro que adjudicou mais de mil milhões de euros a uma empresa, depois vá trabalhar para lá.. Mas também há algo que tem que ser dito, ele foi trabalhar para a Mota Engil sete anos depois de ter saído do Governo, não foi sete dias depois. Por outro lado, a Mota Engil já ganhava concursos antes de ele ser presidente, já ganhava concursos antes de ele ser ministro do Equipamento Social e continuou a ganhar concursos desde que ele saiu. A Mota Engil é a maior construtora portuguesa e a altura em que ele foi CEO foi a fase em que a empresa ganhou menos concursos em Portugal. Até por causa da crise económica, em que o Estado deixou de investir e a empresa apostou no estrangeiro.

 

Mas foi também uma excelente oportunidade para Jorge Coelho em termos financeiros...

Do ponto de vista financeiro, Coelho passou a ser um dos gestores mais bem pagos do PSI 20, a ganhar 700 mil euros por ano. Outra coisa boa, mudou completamente de vida e descobriu que pode ser um gestor competente e que pode liderar um negócio de dimensão multinacional. Isso deu-lhe muito prazer. A coisa má é que este emprego lhe destruiu a carreira política, ou as aspirações de, a curto e a médio prazo, se candidatar à Presidência da República. Foi mau para a sua reputação. Tinha saído bem da política, demitindo-se com dignidade após o acidente de Entre-os Rios, mas este caso da Mota Engil vai demorar anos a recuperar.

 

Quem se mete com Jorge Coelho ainda leva?

Sim. Ele pode ser o maior amigo do seu amigo, mas é a última pessoa que eu gostaria de ter como inimigo. É uma pessoa poderosa. Tem muito acesso aos decisores e quando falo de decisores não falo só de grandes empresários, falo de decisores ao nível político, jornalístico. Ele tem contactos transversais na sociedade portuguesa. Embora ele não me pareça uma pessoa vingativa, pelo contrário, soube de casos em que ajudou pessoas que o prejudicaram publicamente no passado. Por exemplo Manuel Maria Carrilho, foi um dos maiores críticos de Jorge Coelho, acusou-se de ser o maior inimigo do independentes no Governo, mas sei que Coelho o ajudou na sua vida pessoal. Coelho tem uma carapaça muito dura, já só liga a críticas que tenham peso.

 

Como é que um homem que esteve à beira de uma maioria absoluta para o PS olha para a atual liderança do partido?

Acho que ele está muito angustiado e o regresso dele aos comícios ao lado do António José Seguro, mostra que ele está preocupado com o futuro do PS. Ele não me disse isso, mas é a minha perceção. Ele acha que Seguro é um líder fraco, como toda a gente acha, e sente que Seguro precisa da ajuda dele e de outras grandes figuras do partido nesta campanha.

 

Mas se todos os grandes barões do PS acham que Seguro é um líder fraco, porque é que a solução é sempre apoiá-lo e não confrontá-lo?

A política é a arte do cinismo. Eles vão estar todos com Seguro até começarem a estar contra ele. O António Guterres também apoiou muito o Jorge Sampaio, mas quando ele perdeu clamorosamente contra Cavaco Silva, na noite das eleições disse que estava "em estado de choque". Isso vai acontecer na noite eleitoral em que Seguro perder a sua primeira eleição.

 

Compreende-se esse tacticismo em circunstâncias normais, mas neste caso há a perceção de que um bom líder PS poderia ser a breve prazo o primeiro-ministro. Se isso não acontecer com Seguro, será o descalabro?

Não tenho dúvida nenhuma de que o António José Seguro vai ser primeiro-ministro. A história da nossa democracia prova que o poder nunca é conquistado; o poder cai ao colo do líder da oposição. Aconteceu com António Guterres, que teve imenso mérito, mas ganhou o poder por causa da decadência do cavaquismo. Depois aconteceu com Durão Barroso, depois da demissão de Guterres com José Sócrates depois da demissão de Santana Lopes e agora com Passos Coelho, depois da desgraça que foi o período final do socratismo. O poder vai agora cair no colo de Seguro, na sequência desta política ruinosa e tenebrosa da austeridade...

 

Esse não parecia ser um cenário mais certo há seis meses?

A saída do programa de assistência vem dar um novo elã ao Governo, a suposta recuperação económica pode ajudar e é muito interessante do ponto de vista da engenharia política a restituição de parte dos salários aos funcionários públicos e aos pensionistas. Mas, ainda assim, não vai chegar porque a austeridade vai continuar, as pessoas vão continuar a ter imensas dificuldades e o emprego vai persistir como uma chaga social. Por mais medidas eleitoralistas que este governo tome, elas não são suficientes para ganhar umas eleições legislativas em 2015. Ao António José Seguro, basta-lhe estar caladinho e fingir que não existe.

 

Tendo passado cinco anos debruçado sobre a vida de um político, acha que conseguiu manter a distância perante um personagem que se tornou quase familiar?

Jorge Coelho é uma pessoa muito complexa, por vezes labiríntica. Eu não sou diferente das outras pessoas e parti para este trabalho com preconceitos, ou antes com pré-conceitos. Tinha dele a imagem de um manobrador, um manipulador e esse pré-conceito foi-se diluindo à medida que a nossa relação se foi estreitando. Passámos muitas horas juntos, mas não nos tornámos amigos. Ele sempre respeitou muito a minha liberdade jornalística. A nossa relação foi-se estreitando à medida que eu me libertei dos pré-conceitos. Pensei que ele ia começar a mexer cordelinhos para tentar influenciar o rumo do livro, direta ou indiretamente. Falando com as pessoas que iam falar comigo, manipulando de forma clara e visível a informação que me dava. Mas há medida que isso não foi acontecendo, passei a respeitá-lo bastante.

 

Neste tipo de trabalhos é frequente haver uma tentação de suavizar os acontecimentos quando se ganha empatia com o objeto do estudo...

O livro tem muito contraditório, há muitas coisas desagradáveis para ele do ponto de vista pessoal. Apesar de ele ter sido muito simpático, tentei, na medida do possível, não deixar que a relação de respeito que entretanto se criou influenciasse o conteúdo. O livro tem informações muito incómodas para Jorge Coelho, mas também acho que dá uma outra dimensão dele.

 

Como é que ele reagiu ao livro?

Entreguei-lhe o livro há dois dias [no início de Maio] depois de estar impresso. O que ele me disse foi que, independentemente de gostar ou não do que está lá escrito, reconhece que está escrito com rigor e profissionalismo.

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