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O HOMEM DOS MIL OFÍCIOS

Fausto Caniceiro da Costa. Decore este nome. Onde está uma boa acção, uma atitude que é bem mais do que serviço público, uma gracinha de rir até às lágrimas, ele está lá. Um homem que é uma dádiva à sociedade. E um exemplo de vida. Com mais de duas dezenas de profissões no currículo, aos 88 anos, Fausto não pára. E ainda vai dar muito que falar…
5 de Julho de 2002 às 20:12
O HOMEM DOS MIL OFÍCIOS
O HOMEM DOS MIL OFÍCIOS FOTO: Jordi Burch
Ex-marceneiro, ex-tipógrafo, ex-serralheiro, ex-escriturário, ex-topógrafo, ex-chefe de lanço da Direcção Hidráulica do Mondego, ex-teatrólogo, ex-palhaço, ex-imitador, ex-músico, ex-autarca, ex-caricaturista, ex-desenhador da construção civil, ex-folclorista, ex-trapologista, ex-radialista, ex-associativista, ex-organizador dos Festivais Mágicos da Figueira da Foz… Ufa! Conhece alguém que tenha sido tanta coisa ao longo da vida? E mais. Mesmo agora, aos 88 anos, Fausto ainda tem tempo para mais umas quantas actividades. Embarque connosco na viagem ao admirável mundo de Fausto Caniceiro da Costa. E vai ficar a conhecer uma vida recheada de… vida!

Artista figueirense de grande popularidade

Quando chegámos à Figueira da Foz, a Buarcos, zona que o viu nascer, perguntámos pela rua onde mora (de denominação recente) e ninguém nos sabia dizer onde era. Decidimos mudar de táctica: “E sabe onde mora o senhor Fausto Caniceiro da Costa?” Aí, o caso mudava logo de figura. O sorriso dos nossos interlocutores rasgava-se e abria-se num automático e espontâneo “sim, claro que sei”, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e “esse tal” Fausto, a figura mais ilustre ali da região. E se calhar até é. Depois dos feitos assinados por Santana Lopes, figura bem-amada por muitos Figueirenses, Fausto da Costa deve seguir-lhe as pisadas em popularidade. Sem nenhuma obra megalómana a assinalar, mas muitas de grande relevo que marcaram a vida – a sua e a dos outros – Fausto pode congratular-se de um feito, no mínimo, de “se lhe tirar o chapéu”: uma rua com o seu nome, na Figueira da Foz, mesmo em frente ao mar. “Uma pessoa não pode controlar estas coisas… Já viu bem? Até já sou imortal!”, comenta, visivelmente orgulhoso e emocionado com a homenagem.

O caso não é para menos. O senhor Fausto muito fez pela sua cidade. Gratuitamente e sem esperar retorno. Entre várias acções beneméritas, ele próprio é um grande bem para quem usufrui da sua companhia. Detentor de uma lucidez perturbadora – em especial para a sua idade –, um sentido de humor puro e acutilante e uma vivacidade invulgar, é impossível ficar indiferente a este grande senhor, dono de uma vida memorável e que deve ficar registada para os anais da História.

Uma vida multifuncional

Tudo começou quando, ainda garoto de 11 anos, se tornou aprendiz de marceneiro. “Éramos cinco filhos, eu era o mais velho da ninhada e havia necessidade de ajudar. O meu pai era marceneiro e ganhava pouco… Sabe, o trabalho infantil, antigamente, era um mal necessário”, explica Fausto. Começou a ganhar 60 escudos por mês e, “como o negócio não dava para o petróleo e o patrão [o pai] não pagava”, teve ainda de se empregar numa loja de ferragens, ao mesmo tempo que, em regime nocturno, se atirava aos livros. Seguiu-se a profissão de tipógrafo, “onde sempre se ganhava um bocadinho melhor”, antes da tropa o chamar, aos 17 anos. “Depois ainda tive um série de empregos (serralheiro, escriturário, topógrafo), antes de me tornar funcionário público na Direcção Hidráulica do Mondego, onde fui chefe de lanço.” Por outras palavras, durante 46 anos, tratou da conservação dos rios, das valas, das correntes, das pontes e das obras que se faziam à beira-rio. Mas que não se pense que a função pública o impediam de outras funções. “A necessidade obriga o engenho” e Fausto lá ia arranjando tempo para outros projectos. “O Estado paga muito mal, havia que alimentar os filhos [um casal nascido entretanto] e lá arranjei um trabalho na construção civil [desenhador]. Quando veio o 25 de Abril, fui aumentado para o ordenado mínimo: 3 contos! E os meus subordinados, os guarda-rios, passaram também a ganhar o mesmo que eu”, recorda, irónico.

Pelo caminho ainda se desdobrou em múltiplas actividades, muitas das quais por puro gozo, talento e que acabavam por reverter em bem para terceiros. Entre palestras, exposições de desenhos (numa das quais constavam 100 borboletas diferentes) e quadros, récitas de poesia, manifestações teatrais, organização de eventos culturais, e outros, Fausto foi sempre imparável na colecta de fundos para esta ou aquela instituição em necessidade. Aliás, o próprio deixava à consideração dos compradores das suas “obras” e contribuintes das suas (boas) acções, o critério de orientação dos lucros. Da mímica à palhaçada, da poesia popular de ir às lágrimas ao ilusionismo, este homem não perde nenhuma oportunidade de brilhar. E de levar o brilho aos olhos de quem o escuta, o observa, o conhece.

Sem parar

Actualmente é também director (interino) de um jornal, A Voz da Figueira, cargo que aceitou por simpatia e amabilidade. Em consideração ao convite feito pela filha do então falecido director, seu amigo, Carlos Alberto Carvalho, em Agosto passado Fausto aceitou “tomar conta do leme”, até porque além de ser “o elemento mais antigo do jornal” (para onde escreve desde 1 de Janeiro de 1956), este órgão prepara, em breve (a 1 de Janeiro de 2003), as bodas de ouro. E Fausto já tem um extenso e variado programa de comemorações na manga, entusiasmado que está com mais esta oportunidade para dar largas à sua inesgotável imaginação e energia. No meio das várias actividades em planeamento, algumas delas poderão contar com o seu protagonismo. “Como eu também faço ilusionismo…”, explica, em jeito de justificação. E até porque, como o próprio reconhece com o seu bom humor característico, “quero fazer concorrência ao Fernando Pessa”. E mais. “Não sei andar parado.” E não sabe mesmo.” Que o digam os filhos, os três netos e as duas bisnetas, habituados, por excelência, às suas graças e constante adrenalina. Que o diga a esposa, Maria Costa, que conhece muito bem o que a casa gasta, há já mais de 60 anos, desde os tempos em “que se perderam de amores”.

Em plena juventude da terceira idade, Fausto Costa foge à regra e não é daqueles que passa o tempo nos bancos do jardim, a jogar às cartas ou à malha, ou sequer a falar dos tempos idos. Não, Fausto ainda espera algo da vida. “Eu cá estou… até onde puderem ir as minhas forças…” E as forças dele parece que não se esgotam. Além de uma exposição de pintura que poderá apreciar no Posto de Turismo da Figueira, entre 8 e 14 de Julho, Fausto conta ainda com vários livros publicados – de edição própria e que esgotam num ápice. Há dias em que acorda, “afina” a caneta e lá vai compilando mais uma série de escritos que colecciona religiosamente, sempre esperando nova oportunidade de perpetuá-los. E podemos, desde já, antecipar que, por esta altura, poderá vir a sair mais uma publicação da sua responsabilidade, em forma de dicionário que contém expressões “altamente explosivas e perigosamente humorísticas”. E mais não nos é permitido divulgar. Se conhecesse um dos livros por ele assinados - só num ano publicou três -, por exemplo o Dicionário do Cão, saberia do que estamos a falar. Se quer saber mais, não perca a oportunidade de contactar o senhor Fausto Costa quando for à Figueira da Foz. Basta perguntar por ele, ali na zona de Buarcos, no Posto de Turismo ou até na Câmara Municipal, e garantimos que alguém o há-de informar como encontrar este ilustre senhor. Aí, vai ficar a saber porque é que uma vida assim dava um filme… sempre por acabar e com um argumento em permanente reescrita.
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