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Correio da Manhã

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O homem que ela odeia

Quando ela sai de casa vê-o à porta da galeria de arte, no outro lado da rua, e, como sempre, desvia os olhos, volta costas e segue na direcção contrária. Se há alguém que odeia neste mundo é aquele homem.
13 de Julho de 2012 às 17:52
O homem que ela odeia
O homem que ela odeia
É um tipo cheio de si, da sua enorme e vistosa galeria, do seu sucesso. No entanto, ela considera-o malcriado, egoísta, prepotente. Na realidade, tem medo dele. Cruzam-se na rua há anos, mas não se falam, pois a única vez que isso aconteceu foi quando ela encostou o seu carro ao dele, ao estacionar, e ele saiu precipitadamente da galeria a gritar, com uma fúria tremenda, muito agressivo. Insultou-a, humilhou-a. Era mulher, disse, não sabia conduzir, que andasse de transportes públicos. E ela, intimidada, nervosa, deixou o carro ir abaixo, não conseguiu completar a manobra. Baixou a cabeça com lágrimas nos olhos e ficou assim, a tremer, sem conseguir fazer nada até ele se cansar e voltar para dentro exasperado.
Passaram-se meses. Hoje, ao regressar a casa ao fim do dia, estaciona o carro bem longe da galeria, como faz desde esse dia. Vive sozinha, não tem quem a defenda, receia outra cena. Mas ao atravessar o jardim fronteiro à sua rua depara-se com um cão ameaçador que lhe rosna e impede a passagem. Ela tenta rodeá-lo mas o animal rosna mais alto. Aflita, pára, olha em redor tentando localizar o dono do animal, mas não vê ninguém. Recua, o animal avança, compreende que a vai atacar e, em pânico, recua ainda mais, prepara-se para correr.
Não faça isso, ouve uma voz tensa ao seu lado, não lhe mostre medo. Olha e ali está ele, o homem que mais detesta, que mais receia, veio socorrê-la. Se tivesse imaginado semelhante situação, teria dito que, de bom grado, ele a deixaria morrer. Mas não, ele interpõe-se entre ela e o animal, que logo o ataca, lhe crava os dentes no braço abanando furiosamente a cabeça. Ela grita em pânico, ele cai enrolado com o cão e está já sem forças quando aparece o dono e afasta o animal. Ele fica com o braço estraçalhado, ensanguentado, num estado deplorável.
Quando regressa à galeria, dias mais tarde, ela vai logo procurá-lo. Entra, nervosa, preparada para mais uma humilhação. Vim agradecer-lhe o que fez por mim, diz a medo, na verdade nem sei como agradecer-lhe. Eu é que lhe agradeço, surpreende-a ele, porque fui imperdoável consigo e agora tive oportunidade de fazer alguma coisa por si, diz, erguendo o braço com uma ligadura. Faltou-me a coragem para lhe pedir desculpa, confessa. E, desde então, são duas pessoas diferentes, que se vêem de forma diferente. Ela gosta dele, ele gosta dela, passam muito tempo juntos e, pensam, talvez venham a ser mais do que amigos, mais do que alguma vez imaginaram.
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