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Sócrates no divã: Porque é que ele é um animal feroz?

Especialistas realçam narcisismo e autoconfiança de José Sócrates, o ‘animal feroz’ que foi acusado de 31 crimes nesta quarta-feira.
Leonardo Ralha, Marta Martins Silva e Vanessa Fidalgo 15 de Outubro de 2017 às 02:00
José Sócrates
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Todos os especialistas em saúde mental contactados pela Domingo sublinham que as suas opiniões sobre José Sócrates se baseiam na vida pública do ex-primeiro-ministro, acusado na quarta-feira de 31 crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, branqueamento de capitais, falsificação de documentos e fraude fiscal qualificada. Mas realçam que muitos traços da sua personalidade ficaram patentes nos sete anos em que liderou o PS, seis dos quais enquanto primeiro-ministro, bem como na ascensão de quem foi eleito deputado pela primeira vez em 1987, tornou-se secretário de Estado em 1995 e ministro em 1997. E naquilo que fez desde a derrota nas eleições de 2011, acabando por ser detido, no âmbito da ‘Operação Marquês’, em 2014.

"Com o lastro destes anos todos, e conhecendo o percurso que fez, diria que se trata de um quadro de sociopatia. É alguém que não tem a empatia e observação das regras sociais a que os ‘comuns mortais’ respondem", diz a psicóloga clínica e professora universitária Joana Amaral Dias, para quem Sócrates "corresponde ao perfil narcísico". Alguém para quem estatuto e "preservação da autoimagem se sobrepõem a tudo o resto".

"Quem não tem qualquer respeito por sentimentos alheios pode fazer qualquer coisa", defende a também comentadora do CM e da CMTV, que encontra no ex-primeiro-ministro sinais de "subordinação ao hedonismo" que conduzem alguns a fazer seja o que for, sem dúvida ou hesitação, para atingir os seus objetivos. "Passa a ser o alfa e o ómega da vida da pessoa", explica a psicóloga clínica.

A este tipo de mente, sustentada nos "alicerces perversos" da manipulação, do maquinal - pois os outros são encaradas de forma instumental, existindo para a satisfação de necessidades - e da mentira, Joana Amaral Dias aponta um enorme problema: "Não tem tratamento. Esta sociopatia narcísica é uma doença muito maligna e impenetrável. Não tem solução psicoterapêutica ou psicofarmacológica."

Já o psicólogo forense Paulo Sargento destaca "a elevada autoconfiança, mas muitas vezes descuidada e pouco cautelosa, decorrente da frequente inebriação narcísica", considerando que diversas características do comportamento de Sócrates "permitem inferir algumas dimensões, relativamente estáveis, da sua personalidade". Sobressai um estilo "frequentemente dominador, agressivo, impulsivo e, sobretudo, desafiador, antecipador e ressentido", sem deixar de ser "autoconfiante , sedutor e persuasivo".

Paulo Sargento também tem a impressão de que o ex-primeiro-ministro "parece ter de si próprio uma imagem hipervalorizada que, muitas vezes, lhe confere aquele ar arrogante, que muito irrita os adversários". E considera que a "autoconfiança desmedida e a sua impulsividade característica nos momentos de stresse, em que se vê frustrado ou contrariado, parecem ter influência negativa em parte do seu desempenho público".

No entanto, o "forte poder de sedução e de persuasão junto de personalidades diversas" confere-lhe"uma faceta de maior agradabilidade e mesmo de aceitação social", diz o psicólogo forense, que vê no homem que esteve detido preventivamente em Évora entre 25 de novembro de 2014 e 4 de setembro de 2015 "uma espécie de Fénix que renasce, ferozmente, das cinzas, contra-atacando quem o ‘incendiou’".

Por seu lado, o psiquiatra Júlio Machado Vaz aponta as impressões com que ficou ao trabalhar com o então ministro-adjunto de António Guterres. Foi no início de 1998 que integrou a comissão de especialistas - presidida por Alexandre Quintanilha e que contava ainda com Cândido Agra e Daniel Sampaio - que teve quatro meses para apresentar propostas para a estratégia nacional de combate à droga. No contacto com José Sócrates apercebeu-se de "caraterísticas que não mudam" apesar de terem passado quase 20 anos: "Era um homem extremamente inteligente e extremamente determinado."

Por isso mesmo, Machado Vaz prevê um julgamento moroso e de combate. "Suspeito que ele é profundamente obstinado, o que significa que - aconteça o que acontecer - irá bater-se a cada metro ou centímetro do processo", diz o psiquiatra, convencido de que "a esmagadora maioria das pessoas" chegou a um veredicto antes de a Justiça poder atuar. "No mundo em que vivemos, o público em geral já tem opinião formada e não a vai alterar seja qual for o resultado do julgamento. É algo do domínio da crença."

Ferocidade do animal
Muito antes de ser investigado e detido, mesmo antes de vencer eleições e chegar ao poder, José Sócrates concedeu uma entrevista ao ‘Expresso’ que teve o efeito de lhe colar para sempre a alcunha "animal feroz". Na biografia ‘Sócrates - O Menino de Ouro do PS’, publicada em 2008 - na qual o amigo Carlos Santos Silva, agora acusado de 33 crimes, nunca é referido -, esse episódio foi recordado à autora Eduarda Maio. "Saiu-me de forma natural - quando acho que tenho razão também sou um animal feroz", explicou o então primeiro-ministro, garantindo que ao ver a frase como título sentiu que era "horrível, propositado e com o intuito de me atacar e de me denegrir". De tal forma que, segundo a sua biógrafa, "a mágoa com a entrevista ao ‘Expresso’ fez com que nunca mais olhasse para ela".

Certo é que a expressão "animal feroz" se colou à pele de um político em quem até os próximos reconhecem propensão para a ira. "Irritava-se facilmente se o contrariavam e subia o tom de voz para convencer os outros da sua razão", escreveu a sua biógrafa, descrevendo relatos de outros socialistas que "conheceram os seus assomos de fúria, quando as coisas não corriam a seu contento e fazia voar papéis ou demolia o alvo da sua ira". Até telemóveis tiveram de ser substituídos por não resistirem ao seu arremesso.

Joana Amaral Dias acredita que a referência ao "animal feroz" constitui uma admissão. "Está a dizer algo verdadeiro sobre si próprio", diz, embora o psicólogo clínico José Carlos Garrucho distinga duas dimensões nessa expressão: "É, primeiro e acima de tudo, uma declaração de vontade que José Sócrates dirige à justiça, à sociedade e aqueles que o atacam. Ao remeter-se para uma condição animal faz o mesmo aos outros e a mensagem é muito clara: quer dizer que não se deixará apanhar facilmente por aqueles que considera serem os seus predadores. É uma metáfora de si próprio que quase podia levar-nos a outra metáfora: ‘Eu não vou ser uma presa fácil.’ É isso que ele quer dizer à justiça e à própria comunidade. Por outro lado, é uma expressão muito de acordo com o animal político que Sócrates sempre foi e na sua condição de facilitador de interesses".

Só que José Carlos Garrucho apercebe-se de outra ambivalência. "Tem um lado muito sedutor, bonito, fofinho até, como têm grande parte dos animais selvagens que exercem um fascínio incrível sobre nós. Mas uma patada de um tigre ou de um leão, apesar de bonitos, pode matar um homem se atingir a cabeça."

Considerando que é "completamente normal" ser ao mesmo tempo "muito atrativo" e "extremamente dissimulado", pois "qualquer um de nós é capaz de ser fofinho num determinado momento e completamente espinhoso e destruidor no momento logo a seguir", sublinha que no caso de José Sócrates "isso é precisamente o que faz que ele seja amado por muitos, porque foi extremamente convincente e confiável para muita gente, mas também seja capaz de despertar ódios terríveis naqueles que o amavam e que sentiram enganados".

Pistas na comunicação
Decifrar o que vai na mente de Sócrates através da forma como comunica com os outros é algo a que Rui Mergulhão Mendes, especialista em avaliação de testemunhos, se dedicou, observando factores que vão além da "forma de comunicar própria, muito assertiva e diretiva" utilizada pelo político. "Durante o tempo em que fui analisando o comportamento do ex-primeiro-ministro, pude constatar que quando o stresse aumenta, ou o tema é mais ‘complicado’, toda a sua comunicação sofre alterações e o seu processo cognitivo é diferente".

Realçando que nenhum dos aspetos que detetou "deverá ser considerado como indicador de mentira" de forma isolada, Mergulhão Mendes explica que "quando os temas se tornam desconfortáveis, o nosso sistema nervoso autónomo, que é o grande responsável por uma parte significativa dos movimentos corporais, entra em ação e as expressões faciais, o conteúdo verbal e a forma como falamos, desde a velocidade nas afirmações e passando pelo próprio tom de voz, sofrem alterações".

Também Paulo Sargento recorda as três páginas manuscritas a tinta vermelha que Sócrates enviou ao ‘Diário de Notícias’ quando estava preso em Évora, realçando a cor utilizada na missiva que teve oportunidade de analisar. "Revela pelo menos um desafio. Os antigos davam-lhe outra conotação, ainda assim negativa e quase ofensiva ao endereçado".

Quanto aos "traços, rabiscos e emendas, poderiam revelar desnorte, mas pareceram-me mais um excesso de tensão e de agressividade pouco controlados". E o texto propriamente dito revelava "frustração e ressentimento de mãos dadas com exasperação e raiva" de alguém "num lugar onde se sente impotente e onde não tem qualquer domínio sobre o desenrolar dos acontecimentos", embora a recusa da situação fosse evidente. "O ego mantém-se longe da realidade factual e próximo da realidade narcísica. O autor desenha uma narrativa de conflito de onde se exclui. Uma egodistonia. Só é ele se for a vítima ou o herói. A instrospeção é afastada, pois implica reconhecimento de responsabilidade ou de culpa".

Um reconhecimento que, segundo Joana Amaral Dias, é inviável "em quem funciona de forma muito monolítica" e "não tem tristeza, arrependimento ou culpa", sendo-lhe "a ideia de fracasso, de falha, de ficar aquém, absolutamente insuportável". Algo que pode refletir-se na inscrição na parisiense Sorbonne após a polémica em torno da licenciatura na Universidade Independente ou no lançamento de livros.

Aliás, o psicólogo forense Mauro Paulino admite que a investigação nessa área "mostra que determinados atributos da psicopatia estão associados a domínios como o mundo dos negócios e da política", pelo que a política é "um meio onde podem estar uma série de pessoas com traços mais psicopáticos".

"Sabemos pela investigação que todos os indivíduos classificados como psicopatas partilham traços de personalidade como problemas afetivos, superficialidade emocional, falta de empatia, ausência de remorsos ou de culpa, sendo que a mentira é uma característica nesta personalidade, tal como a sensação de impunidade. Pessoas com traços mais manipuladores conseguem aceder a empresas e ao mundo dos negócios, tal como a contextos de liderança política ou religiosa", diz.

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