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O industrial que aprendeu a gostar de arte

Subiu na vida a pulso e hoje é um empresário de sucesso. José Lima, dono de uma valiosa coleção de arte, não se deixa deslumbrar
27 de Outubro de 2013 às 15:00
José Lima no espaço da exposição
José Lima no espaço da exposição FOTO: Manuel Azevedo

Enquanto os amigos rumavam à universidade para se formarem, José Lima começou a trabalhar ainda criança para ajudar a família em tempos difíceis. Tinha 11 anos e quando começou numa fábrica de chapelaria, depois no comércio, não baixou os braços e subiu na vida a pulso. Hoje é um empresário de sucesso em São João da Madeira e dono de uma invejável coleção de arte. São 200 das suas mais de mil peças que estão expostas no Núcleo de Arte da Oliva naquela cidade que foram compradas ao longo da vida deste industrial do calçado de 73 anos, nascido em Águeda.

"Não pude estudar, mas sempre quis aprender e por isso tive os livros por companhia e foi com eles que aprendi a gostar de arte", explica. Mais tarde, as viagens de negócios permitiram-lhe conhecer outras culturas. As visitas a museus e exposições passaram a integrar o roteiro das viagens de trabalho. "Vi muita coisa, mas foi a arte contemporânea que me apaixonou e a partir dos anos oitenta comecei a comprar", explica. O hobby rapidamente se tornou num vício.

A maior loucura, confessa, foi pedir dinheiro ao banco para comprar uma obra de Miquel Barceló que, na altura, custou cerca de 20 mil euros. "Hoje as obras deles podem custar mais de 300 mil", diz o empresário.

"Nunca o tinha feito e não voltei a fazê-lo", garante enquanto sorri. Uma grande parte do acervo da coleção de José Lima é adquirida a artistas emergentes. São obras que foram compradas a preços acessíveis, mas que hoje atingem preços proibitivos. Entre as quase mil obras é possível encontrar trabalhos de Vieira da Silva, Paula Rego, Julião Sarmento, Andy Warhol e Malangatana, entre outros, mais ou menos conhecidos.

ARTE NÃO É PARA VENDER 

"Compro arte porque gosto e nunca vi uma peça como um investimento, mas antes como algo que me transmite alguma coisa". "Ao longo dos anos vendi uma dúzia de quadros, não porque quisesse ganhar dinheiro, mas porque de uma forma, ou outra já não faziam sentido na minha coleção e quase sempre foram trocadas por outras obras", explica o empresário.

O exemplo é dado através de Paula Rego. "Comprei uma pequenina, depois troquei por uma maior e depois por outra maior ainda".

Apesar de ter na sua coleção obras de artistas de todo o Mundo, o "núcleo forte" são obras de autores nacionais. Curiosamente aqueles que têm menor representatividade no conjunto da exposição do Núcleo de Arte da Oliva. "Embora os artistas portugueses estejam bem representados, o número é pequeno, mas foi aquilo que decidimos com o curador Miguel Amado.

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ARTISTAS EMERGENTES 

Nesta exposição que estará patente até abril, é possível ver pintores de renome mundial, mas também muita arte emergente, algo invulgar nos grandes centros de exposição de arte. "Temos, por exemplo, muita arte africana, algo que não se vê nos museus portugueses e que dão um toque diferente à exposição", afirma José Lima.

Ao longo de três décadas o empresário foi colecionando arte, mas só agora mostra ao público algumas obras. A ideia de expor já tem pelo menos 15 anos, mas a oportunidade só agora surgiu a convite do ex-presidente da Câmara de S. João da Madeira e atual secretário de Estado do Desenvolvimento, Castro Almeida.

"Inicialmente levava as obras para casa, mas com o passar do tempo a minha esposa começou a queixar-se que estava a ocupar muito espaço e então aluguei um apartamento no centro da cidade para as poder guardar aí. Só nessa altura percebi a quantidade de obras que tinha e pensei em partilhá-las com o grande público, não por vaidade, porque nunca fui vaidoso, mas pelo verdadeiro sentimento de partilha", conta José Lima.

Apesar de ser dono de uma coleção valiosíssima, José Lima continua a ser o homem que aprendeu a ser ao longo da vida. "Sempre me ensinaram a ser humilde, e é assim que quero continuar a ser. Acho que já é tarde para mudar, até porque me sinto feliz em ser assim", diz.

O valor real da coleção José Lima garante que não sabe. "Uma coisa que para mim pode valer 10 mil euros, para outros pode valer um milhão, ou vice-versa. O importante não é o seu valor económico, mas antes a qualidade da arte e dos artistas e aquilo que eles nos podem transmitir através das suas obras, quer sejam pinturas, esculturas, fotografias, ou outras. Se com esta mostra conseguir que pelo menos uma dúzia de pessoas se interessem pela arte contemporânea, acho que já cumpri a minha missão", explica o empresário.

Para José Lima esta exposição tem uma missão: é dar bem estar a quem a vê e mostrar a todos a arte contemporânea. "No dia da inauguração senti uma alegria imensa por ver que todos a apreciaram e elogiaram, mas foi uma alegria contida, porque afinal só tornei acessível aquilo que fui colecionando ao longo dos anos. O objetivo foi mostrar, partilhar sem tirar disso proveito algum".

Agora que saltou para a ribalta, por causa da exposição, José Lima não quer que o vejam de uma outra forma. "Sinto-me orgulhoso, mas não me ponho em bicos de pés. Sou aquilo que sou e não sou mais do que isto: uma pessoa simples, um empresário que se preocupa com a sua fábrica de calçado, do qual dependem várias pessoas, assim como o bem-estar da minha família e amigos".

Para José Lima a educação e a saúde são necessidades básicas, mas a cultura é algo que "vem completar a pessoa e ajudar a meditar".

O ACERVO 

A Coleção Norlinda (esposa do empresário) e José Lima, é composta por cerca de mil obras de mais 100 artistas portugueses e estrangeiros. Tal como a generalidade dos acervos de iniciativa privada, define-se pelo seu ecletismo, fôlego enciclopédico e multidisciplinaridade.

Este acervo traça uma panorâmica da arte criada entre o pós-II Guerra Mundial e a atualidade, em, particular na Europa continental, em países como Portugal, Espanha, França e Alemanha, com foco na década de 1980 a nível nacional e internacional.

De entre os artistas portugueses, sobressaem Maria Helena Vieira da Silva, Paula Rego, Julião Sarmento, Rui Chafes e Miguel Palma. Os artistas estrangeiros a destacar são os seguintes: Karel Appel, Andy Warhol, Arman, Antoni Tàpies, A. R. Penck, Malangatana, Cindy Sherman, Adriana Varejão, Kcho e Damien Hirst.

Do vasto acervo foram selecionadas cerca de duas centenas de obras de que resulta a exposição ‘Traço Descontínuo: Coleção Norlinda e José Lima – Uma Seleção’. Uma exposição que ilustra as linhas de força da Coleção Norlinda e José Lima, com zonas dedicadas a coletivos como o ‘KWY’ e o ‘El Paso’ ou movimentos como a pop e a ‘figuration narrative’. Compõem-se, também, áreas disciplinares, centradas em suportes como a pintura e a escultura, com obras unidas pelos seus pontos de contacto.

Na exposição destacam-se os artistas portugueses fundamentais, enquadrando-os com artistas estrangeiros e focando-os com várias obras. Estão lá igualmente espanhóis – a outra nacionalidade mais representada com vários núcleos de obras – e artistas de regiões do mundo não ocidental, que fogem ao padrão do artista "homem, branco e ocidental", dominante em todo o século XX. A exposição pode ser vista até abril de 2014. D

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