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O inferno esteve em Cativelos

O sino tocou duas vezes a rebate naquela aldeia de Gouveia. Histórias de pavor e coragem entre quem queria salvar a pele
22 de Agosto de 2010 às 00:00
Manuel Carvalho está desolado, perdeu o palheiro e a sua terra ficou queimada
Manuel Carvalho está desolado, perdeu o palheiro e a sua terra ficou queimada FOTO: Nuno André Ferreira

A terra vestiu-se de luto e chora. Sexta-feira 13 o fogo desceu à aldeia de Cativelos. Maria Alice, 73 anos, não tinha mais do que uma casa pré-fabricada, pintada no ano passado de branco – mascarando as tábuas já velhas com ar rejubilado. Pequena, frágil, Alice viu cercada a casa de telhado de chapa pelo fogo que já devorava os pinheiros à volta e não fugiu: escondeu-se para a proteger. Haviam de se salvar as duas. Sentou-se numa cadeira dentro do barracão logo ao lado, cheio de roupas de Inverno penduradas e de bicicletas velhas deitadas e das recordações de 30 anos. Quedou-se à beira do fogo confortada no pânico. "Convenci-me de que isto não ardia. Eu não queria ir. Não ouvia nada, estava passada. Só ouvi os bombeiros a passar à porta e a dizer: ‘não está ninguém’. Até que entraram aqui e agarraram em mim. Eu não queria ir. E meteram-me no jipe deles, trancaram a porta e levaram-me".

O fogo insistia para se debruçar na casa; os bombeiros lutavam contra. Fernando Jesus, 75 anos, marido de Alice, já tinha levado para longe o carro – um velho Fiat Punto. Depois escapuliu-se das barreiras da GNR para junto dos bombeiros, para junto de casa. Na véspera do fogo esteve de cama, debilitado. Tem uma leucemia. O sol e o calor são inimigos que diariamente evita. E os seus movimentos são a outra parte que já controla a custo. "Nem me lembrei de que tinha a doença, estive ali sempre a lutar, a ajudar" – diz, na única vez que a voz embargada o trai. "Andei sempre com uma enxada na mão, às vezes com a pá, a bater no chão".

São meia dúzia as casas iguais à do senhor Jesus e que ficam no lugarejo da Dobreira. Foi "milagre" salvarem-se todas elas. E foi igualmente o que aconteceu, uns metros abaixo, à beira da estrada, ao relicário: ardeu toda a vegetação a toda a volta, ficou a imagem de Nossa Senhora de Fátima.

FUGIRAM AFLITOS

A estrada que liga Mangualde a Gouveia separa dos montes a Dobreira. "O fogo estava do outro lado às oito da manhã. Só vi um carro de bombeiros. Por volta das nove, gritei para os miúdos: ‘façam as malas, com o vento que está o fogo vai passar para cá’" – recorda como tudo aconteceu Clara Marques, de 44 anos. "O vento era tão forte como as ondas no mar que levam tudo. Em dois minutos, o fogo cercou estas casas. Era como um tsunami, só que com fogo em vez de água" – acrescenta a filha de Maria Alice e Fernando Jesus, emigrada em França, que estava de férias em casa dos pais.

O irmão, Fernando como o pai, 47 anos, pegou no carro, meteu lá os três sobrinhos – Lucas, 13 anos, conta: "eu fugi com o meu cofre com dinheiro. Levei algumas roupas, o computador, um boneco de que gosto muito e uma garrafa de água. Pensei que a casa ardia". Fernando ainda tentou arrastar a mãe, mas Alice resistiu e foi quando se escondeu no barracão.

Entretanto, Clara correu para Cativelos – a 100 metros dali – arrastando as malas cheias de roupa. Na casa mais abaixo – a 50 metros num caminho de areia –, Maria do Céu, de 82 anos, estava sentada no alpendre à espera que a levassem. As traseiras da casa pré-fabricada já estavam frente-a-frente com as chamas. Mas ela, com o problema que tem nos pés, escusava tentar correr. "Chorei, então não. E muito". Fernando, que passava de carro com os sobrinhos, parou e deu-lhe boleia para a fuga. "Não levei nada, nem carteira, nem dinheiro. Ficava na rua se a casa ardesse". Maria do Céu abalou de carro, aos gritos, desesperada.

A LUTA PARA SALVAR A CASA

Destes lados fugiram perto de 15 pessoas, foram todas recolhidas no Café Primavera, no meio da aldeia. Branca Santos, 57 anos, recorda que "choravam, estavam muito nervosos e diziam que iam ficar sem nada". Ofereceu-lhes comida, mas ninguém tinha disposição para alimentar o estômago. Só beberam o remédio para os nervos: água com açúcar.

Maria do Carmo Ferreira, 76, mãe de Branca, foi uma das evacuadas. "Eu estava sozinha, com a mangueira, a molhar tudo à volta da minha casa. O fumo começou a cegar-me, quando já não via ninguém gritei. Mas tanto que fiquei sem voz. Comecei a ouvir um polícia gritar ‘senhora’, mas eu já nem conseguia responder-lhe. Quando ele chegou a minha casa fechou a minha porta, deu--me a chave, agarrou na minha cadela que também já nem ladrar podia, e levou-nos dali". O sofrimento era tanto e maior ficou quando Maria do Carmo se viu obrigada a deixar tudo para trás. "Eu só berrava: ‘ai que já vou para o pé do meu marido; ai que já vou morrer". Precisamente nesse dia, fazia nove anos que ela enviuvara.

Uns metros acima da pequena quinta de Maria do Carmo, o genro estava no telhado de casa dele, também com a mangueira a arrefecer o que o calor abrasador teimava em fustigar. "Eu ia largar a casa que custou tanto a ganhar? Livra! Queria era salvá--la, tanto que nem pensei em mais nada". Dali até à Dobreira, do alto do telhado, António Santos, 52 anos, não via nada. O fumo já tinha tomado conta da paisagem. E o fogo parecia estar em todo o lado. Enquanto ele estava lá nas alturas, vizinhos e amigos iam apagando as pontas que ardiam no quintal. "Eu ouvia sirenes por todo o lado. Tenho a certeza de que a rápida intervenção dos bombeiros evitou males piores".

TERRA DE EMIGRANTES

Cativelos, em Gouveia, é uma aldeia do Parque Natural da Serra da Estrela com 400 habitantes. Em Agosto, são tantos os emigrantes que os próprios filhos da terra, quando se encontram no café uma vez por ano, falam e cumprimentam-se em francês.

Mas não seja por isso que a união não impera. O sino tocou duas vezes a rebate. Por duas vezes o povo acudiu em massa às casas que estavam prestes a ser consumidas pelas chamas.

Fátima Cardoso, 39 anos, foi uma das socorridas. Na extremidade da aldeia onde mora, o fogo chegou mais cedo, na quinta-feira, dia 12. Vinha de Girabolhos. "Pouco passava do meio-dia quando vi o fogo nos montes [a poucos quilómetros]", conta Fátima. "O vento virou e em 10, 15 minutos já estava aqui, à beira da casa do meu irmão". Ela ficou logo em pânico. As terras onde mora são do pai, que dividiu as quatro casas pelos filhos e deixou fechados uns grandes aviários em alvenaria. O pai, emigrado nos Estados Unidos da América, perdeu todas as vinhas, que foram como um rastilho para o fogo chegar perto das casas.

Quando o sino tocou, uma retroescavadora ainda limpou – em menos de dez minutos – as terras em torno das habitações. Depois, o resto dos populares fez o que pôde, com mangueiras, baldes de água, pás. Um helicóptero ainda lançou água para as chamas mais traiçoeiras. Por ali não havia bombeiros, estavam dispersos noutras zonas. No meio da angústia, Fátima desmaiou. "Afligi-me. Vi chamas de três, quatro metros e pensei que tudo ia arder. Não andámos uma vida inteira a trabalhar para perder tudo assim. Foi a pensar nisto que perdi os sentidos e fui para o hospital. Fiquei um dia a soro".

PAISAGEM DEVASTADA

Não há vítimas a lamentar entre a população – nem sinais de animais mortos –, mas as terras da freguesia de Cativelos não serão tão depressa verdejantes como antes. À volta tudo é negro, carvão de pinheiro e eucalipto. Três dias depois ainda há troncos maiores que fumegam. Ou zonas onde se reacendem as chamas, como junto ao lar que alberga 15 idosos. Maria do Céu Abrantes, de 87 anos, está sentada ao lado de duas idosas, num alpendre. A vista dali é a imagem da devastação. Quando o fogo ali chegou, conta a idosa, que "todos se assustaram. Havia muito fumo no ar. Mete medo morrer aqui queimadinha". Mas foi rápida a intervenção da população da aldeia, que levou os idosos para um café no centro e, mais tarde, quando se confirmou que não era possível regressarem em segurança, foram transferidos para Gouveia.

Três dias depois, ainda os aviões Canadair sobrevoam a aldeia, numa espécie de ponte aérea entre a água e as chamas, já bem longe dali. O som nos ares é de guerra ao fogo.

Carlos Melro, 57 anos, também ele emigrante em França, pára estático entre os palheiros ardidos nas terras junto à casa do sogro. Os pés aquecem em cima das cinzas. Olhar aquele manto queimado é sofrer a dobrar: primeiro porque está ali o resultado de gerações de trabalho; depois porque foram noites perdidas a proteger a casa principal. "Uma pessoa sente-se muito pequena frente a um incêndio destes. Eu não sou medroso, mas foi mau". Aqui as chamas deflagraram na quinta-feira, dia 12, e reacenderam-se no dia a seguir. Entre as 16h30 e 17h00 de quinta o fogo entrou por ali sem aviso. A rapaziada da aldeia foi chamada a fazer a vez dos bombeiros, de enxada na mão, mangueiras, baldes de água e outros de areia. Só à uma da manhã o fogo foi dado como extinto.

Acontece que, quando todos já estavam prontos para dormir, o único dos três palheiros – casas rústicas de pedra – soltou um clarão. "Meu Deus, parecia um vulcão a arder, tinha uns 20 metros de altura". Apagaram mais estas chamas e foram dormir para a aldeia, já a madrugada ia alta. Às sete da manhã, já o pouco que não tinha ardido de véspera estava a ser consumido e a pôr a habitação em perigo.

"Só posso dizer que os nossos melhores bombeiros foram o povo. Eles até tocaram o sino, a rebate, da igreja". Nas duas noites que se seguiram, a mulher de Carlos e a sogra dormiram dentro de casa; ele e o sogro estenderam-se numas esteiras e ficaram de vigia.

Nas mesmas terras, Manuel Carvalho, 66 anos, tinha um palheiro. Agora tem ruínas. "Só dá para chorar" – diz ele, enquanto limpa os olhos. "As duas noites do fogo foram más, mas vão continuar a ser enquanto eu não me esquecer".

O MEDO DEPOIS DO FOGO

O fogo traumatiza. Quando a família de Fernando Jesus regressou a casa, naquela fatídica sexta-feira 13, o pavor fazia-os estar despertos. Nessa noite, os três netos – os gémeos Fábio e Clemente, de 12 anos, e Lucas, 13 – puseram o despertador de duas em duas horas a tocar. Acordavam, iam à janela e, sem fumo nem fogo, parece que a cada duas horas um suspiro os voltava a adormecer.

A avó Maria Alice, essa diz que nunca mais vai deixar de sentir as pernas a tremer cada vez que põe os pés no chão. E a cabeça dela que não pára de girar enjoada à volta daquele susto. Já passaram três dias e não há sinal de que algum dia deixe de se sentir em choque. "Eu ando o dia todo que só me apetece chorar. É a primeira vez que vejo tudo à volta da minha aldeia queimado. Ainda não estou em mim. Há três dias que não durmo. De noite, ainda olho para o lado para ver se alguma coisa está a arder". A isto chama-se tristeza, uma profunda tristeza.

O PIOR CENÁRIO DA SERRA DA ESTRELA

Cativelos e Dobreira estão separadas por um ribeiro apenas. Se a primeira tem 400 habitantes, a segunda não tem mais de meia dúzia de casas, a maioria habitadas por idosas viúvas. Foi aqui que se viveram os momentos mais dramáticos no Parque Natural da Serra da Estrela, onde arderam nove mil hectares de floresta (até ao fecho desta edição), com o fogo a rodear as habitações. Seguiram-se dois dias de pânico, na quinta-feira, dia 12, e na sexta. Andaram por lá bombeiros do Cartaxo, Alcanena, Benavente ou Salvaterra de Magos, todos do distrito de Santarém.

Dia 17 de Agosto foi divulgada a área ardida no País: 92 mil hectares, segundo dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais. Trata-se de um resultado pior do que no ano passado. Neste cenário negro há ainda a lamentar a morte de três bombeiros: Cristiana Josefa, João Pombo e Carlos Santos.

NOVE DOS SOLDADOS DA PAZ QUE ESTÃO NUMA GUERRA SEM QUARTEL

Sempre que sai do quartel para um fogo, Jorge Manuel Pereira, de 38 anos, usa uma camisola onde nas costas se lê: ‘não sabemos se voltamos... Mas vamos!’. "A nossa missão é de risco. É contra um demónio que destrói o que apanha pela frente", diz este bombeiro da Corporação de Salvação Pública de São Pedro do Sul há 22 Agostos – o mês dos fogos.

Mário Teixeira Pereira, de 34 anos, é adjunto de comando dos Voluntários de São Pedro do Sul. Ainda não esqueceu o capotamento da viatura que vitimou um bombeiro de Alcobaça e causou ferimentos noutro, no dia 9, em Moure de Malhouce. "Foi terrível. Quando chegámos, um camarada já estava morto e outro encarcerado. Tivemos que o salvar com rapidez por causa do fogo".

GENTE EM DESESPERO

Há duas décadas que os verões de Vasco Borges, de 52 anos, são em luta. "Já passei por situações complicadas, tanto por causa da fúria das chamas como pelo desespero das pessoas", diz o membro da corporação de Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, que em Castro Daire foi ameaçado com uma enxada por um popular. "Queria que fosse com ele a salvar-lhe a casa".

Francisco Puleina, 56 anos, é bombeiro na Covilhã. "Tendo em conta a dimensão destes incêndios, é um milagre não haver mais vítimas". Das contas aos 30 anos em luta, a soma é um enorme susto em Oleiros: "estive cercado por línguas de fogo". João Santos, de 59 anos, conhece bem este perigo. Quando faz as escalas, o chefe dos Bombeiros Voluntários do Fundão nunca põe familiares na mesma equipa. Se o demónio quiser levar, que não ceife a eito gente com o mesmo sobrenome. Lição aprendida de quem já viu a morte por perto: "chefiava 11 homens e ficámos cercados, após uma avaria na agulheta. Consegui pô-la a funcionar e salvámo-nos. Depois chorei como uma criança".

Ercílio Ribeiro, bombeiro de 2ª classe de Freamunde, tem 28 anos. Integra a Equipa de Intervenção Permanente e teve a vida em risco no ano passado, quando salvou pai e filho que tinham descido a um poço. Ali ficaram intoxicados. Ercílio desceu. Cumpriu a missão. Depois teve de ser assistido. Ainda não recuperou mas continua a vestir a farda pelos outros.

Também José Mário Costa, de 36 anos, assume os riscos. Na semana passada, ele e 10 colegas ficaram cercados pelas chamas em Entre-os-Rios, Penafiel: "tivemos de abrir um corta-fogo e passar à força". Sara Carneiro, 24 anos, já sabe do que aqui se fala. O seu baptismo de fogo é fresco, foi a 10 de Agosto em Benagouro – mais de dez horas a enfrentar as labaredas: "ajudei a afastar as chamas de casas", conta a voluntária de Peso da Régua.

Em Entre-os-Rios, Isaura Rocha, bombeira há 16 anos, é, desde há quatro, a adjunta do Comando. Ela, que é a primeira mulher a assumir este cargo no distrito do Porto, recorda um incêndio florestal em Marco de Canaveses, há oito anos, junto de uma empresa de pirotecnia. "Chegámos e ouvimos duas explosões. Corremos para debaixo dos carros. Ficámos cercados pelo fogo. Vários bombeiros estagiários foram evacuados. Muitos deles estavam a chorar".

VIDAS DEDICADAS A PROTEGER PESSOAS, FLORESTAS E CASAS

- José Mário Costa tem 36 anos e há 22 que veste a farda de bombeiro. É operador da central dos Voluntários de Penafiel.

- Ercílio Ribeiro tem 28 anos, mas uma longa experiência: "entrei para a corporação de Freamunde com 14 anos", lembra. É bombeiro de 2.ª classe.

- Isaura Rocha, de 29 anos, é bombeira profissional em Entre-os-Rios, Penafiel. Há quatro anos tornou--se a primeira mulher adjunta de Comando no distrito do Porto.

- Sara Carneiro, 24 anos, nasceu em Peso da Régua, onde é bombeira há 3 anos. Quer ser profissional e tirar o curso de Transporte de Ambulâncias de Socorro.

- Vasco Lopes Borges, 52, anos pertence aos Bombeiro Voluntários de Cabanas de Viriato, Carregal do Sal.

- Mário Pereira, 34 anos, é adjunto de Comando dos Bombeiros Voluntários de São Pedro do Sul.

- Jorge Pereira, 38 anos, é bombeiro da Corporação de Salvação Pública de São Pedro do Sul.

- João Santos, 59 anos, é chefe dos Bombeiros Voluntários do Fundão. Veste a farda há 46 anos.

- Francisco Puleina, 56 anos, ingressou nos Bombeiros Voluntários da Covilhã há 30 anos.

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