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Correio da Manhã

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O inimigo ali tão perto

Foram vítimas de maus tratos e violação mas tiveram de continuar a viver próximo do criminoso.
8 de Maio de 2011 às 22:00
Menina aliciada sexualmente pelo padrasto de uma vizinha, no Seixal
Menina aliciada sexualmente pelo padrasto de uma vizinha, no Seixal FOTO: Duarte Roriz

O passado voltou sob a forma do medo e as feridas de uma infância sofrida e que há muito pareciam fechadas tornaram a abrir. Maria, nome fictício, trancou mais uma vez todas as portas e janelas de casa em Santa Maria da Feira. Escondeu-se na escuridão do quarto tal como fez quando ainda era uma menina e voltou a procurar o conforto dos braços da mãe nas noites em que a insegurança a ataca e o homem que um dia lhe tirou a inocência lhe invade os sonhos.

Tinha apenas oito anos quando foi abusada pelo homem da moto - Leonardo, um construtor civil, com 55 anos, que violou mais de 30 crianças e que está a cumprir 25 anos de cadeia. Hoje, mais de dez anos depois, vive na casa em frente à sua um outro predador, Américo ‘Nicha', de 68 anos, também ele já condenado a dois anos de prisão. Foram outras as crianças abusadas, em outros locais e em outras datas. Mas sempre que Maria olha para o vizinho volta a sentir a repulsa e o nojo que as mãos de Leonardo lhe causaram quando tocaram no seu frágil e pequeno corpo de menina. Pelo País repetem-se os casos - como se não fosse já suficientemente difícil conviver com as memórias de um passado roubado, muitas vítimas têm de viver com o inimigo por perto, quase à porta de casa.

AO LADO DO PREDADOR

"É horrível morar com um homem destes mesmo à nossa frente. Fez a outras crianças o mesmo que fizeram à minha menina. Sempre que ela olha para ele, recorda tudo aquilo por que passou. Ela agora estava finalmente bem e aparece um monstro destes para lhe fazer lembrar tudo outra vez", contou à Domingo a mãe de Maria.

‘Nicha' é rejeitado pelos moradores que conhece há vários anos. Poucos são os que lhe falam desde que foi detido, em Março do ano passado, por importunar sexualmente quase uma dezena de crianças e recentemente foram lançados quatro petardos contra a sua casa. Alguns populares falam numa tentativa desesperada de os vizinhos expulsarem o predador da casa onde está em prisão domiciliária, até que a sentença transite em julgado, e de tentarem proteger as suas crianças. Outros atribuem as culpas ao próprio predador e garantem que aquele apenas quer chamar a atenção.

"O certo é que um monstro destes não pode viver ao pé de crianças. Ele fez muito mal às meninas e alguns pais já andaram à procura dele de pistola".

ESCONDIDA NO QUARTO

Maria evita a todo o custo ver o abusador. Não quer estar no pátio da casa onde vive, passa horas refugiada no quarto e sai quase sempre acompanhada pelos pais. A avó, que durante tantos anos a protegeu, morreu há três meses e desde então o medo consome ainda mais a jovem. Mas mais do que temer ser novamente atacada, não quer recordar o sofrimento que viveu quando era uma criança e pelo qual parece voltar a passar sempre que vê o vizinho. Lembra-se do dia em que Leonardo a atacou, a 29 de Janeiro de 2001, junto à escola primária, situada a apenas 100 metros de casa e mesmo ao lado da fábrica onde a mãe trabalhava.

A avó não a pôde levar naquele dia, o violador aproveitou o facto de a menina estar sozinha para a chamar ao pedir ajuda com a mota. Tinha um problema no motor, disse-lhe ele. Bondosa, Maria tentou ajudar, mas em poucos minutos o violador arrastou-a à força para uma mata, rasgou-lhe as roupas, deitou-se em cima dela e tocou-lhe no corpo até satisfazer os seus instintos sexuais. Antes de se ir embora deu ainda 100 escudos à criança.

Nos meses seguintes, Maria rejeitou os amigos, recusou ir à escola e deixou de comer. Nunca ficava sozinha e permanecia vários dias sem proferir uma única palavra. Foi seguida por psicólogos. A mãe deixou de trabalhar durante meses para a acompanhar e os pesadelos terminaram apenas já na adolescência. Ainda hoje não fala com estranhos e quando anda sozinha na rua olha para trás, não vá o homem da moto ter voltado.

Na altura, ‘Nicha' conheceu o drama da menina. Apoiou-a, confortou os pais e acompanhou todo o julgamento. Tal como todos os moradores da freguesia, foi solidário com a família, recriminou os actos monstruosos de Leonardo e garantiu que fazia o que fosse preciso para que a justiça fosse reposta.

Anos depois deixou de ser o protector das crianças para se tornar no seu pior pesadelo. Tal como Leonardo, começou a atacar à porta das escolas. Observava as meninas, estudava as suas rotinas e escolhia os alvos mais frágeis e que, normalmente, saíam sozinhas. Depois chamava-as sob o pretexto de que precisava de uma informação e obrigava-as a verem-no masturbar-se dentro da carrinha.

Chegava a sentar-se em cima de uma almofada para que os actos sexuais fossem mais visíveis para as crianças. Também atacou mães que seguiam com as filhas e gemia para que o ouvissem. A notícia de que ‘Nicha' era, agora, também ele um predador chocou toda a freguesia. Foi condenado no final do ano passado a dois anos e quatro meses de prisão efectiva e ficaram por provar muitos abusos pois, devido ao trauma, várias crianças não conseguiram garantir que tinha sido aquele o homem que as atacou.

O juiz aconselhou-lhe tratamento e recomendou que tivesse juízo. O abusador recorreu da sentença, pelo que continua em prisão domiciliária. Apenas pode distanciar-se alguns metros de casa para ir buscar as cartas à caixa do correio. Dentro de um ano poderá estar em liberdade.

O MEDO MORA PERTO

São muitas as dores de quem vive paredes-meias com um agressor do passado e estas meninas não serão excepção no rosário de penas. Mafalda (nome fictício) tem hoje 24 anos e passou por histórias semelhantes que lhe endureceram a alma e a fazem temer, mais do que tudo, pelo ser que carrega no ventre. Também ela foi assediada sexualmente por Leonardo, o construtor civil que abusou de Maria. Pouco tempo depois de fazer 13 anos, numa tarde em que regressava a casa da escola a pé, foi interceptada pelo violador, em Vilar de Andorinho, freguesia vizinha da sua, que a "obrigou a masturbá-lo". Veio a depor contra ele em tribunal, "apesar dos nervos e do medo imenso".

O conhecido violador, casado e pai de quatro filhos, foi preso pela última vez em 2002 mas já tinha sido condenado três outras vezes (em 1986, 1994 e 1998) e de todas elas, sempre que regressava a casa, voltava a atacar. "Ele agora está na prisão mas morro de medo do dia em que ele volte, porque serei obrigada a vê-lo e tenho medo que me reconheça". Já a primeira mágoa é antiga mas igualmente presente na memória.

"Tinha uns sete, oito anos e comecei a ajudar uns tios meus, que eram como uns pais para mim, a tomar conta da filha deles. Estava a adormecer a bebé quando ele chega. Resolvo sair do quarto para ele poder descansar mas ele chama-me. Põe-me no meio das pernas dele e começa a pressionar-me as partes íntimas, a magoar-me. Percebi logo que era uma coisa errada porque ele disse-me no fim que se contasse a alguém me matava a mim e aos meus pais".

Com medo, Mafalda calou a história e aguentou "durante um ano" abusos semelhantes. Com medo, chorava à noite, chorava de dia, chorava pelos cantos da casa sem que alguém percebesse a tristeza. Um dia, o tio deixou de a chamar e Mafalda respirou de alívio. Continuou a vê-lo e a lembrar-se de "todo o horror. Vê-lo era lembrar-me de tudo vezes sem fim, era confrontar-me com o que tinha acontecido. Uma vez disse-me que um dia eu ia ser dele".

Como se não bastasse o caos emocional que viveu até à entrada na adolescência - e o confronto com duas pessoas que abusaram da sua infância e fizeram temer o futuro - veio a descobrir, há seis anos, que o tio fez o mesmo à irmã mais nova quando viu "um raio de sangue na fralda" e o segredo veio à tona. A mulher dele "chamou-nos mentirosas, virou-se contra nós e a nossa outra tia também. Chegaram a meter parafusos no carro da minha mãe, a oferecer-nos pancada. O pior é que nos temos de cruzar com eles na rua, vivemos com o inferno à porta".

MOTORISTA DA JUNTA

No mesmo mapa mas muitos quilómetros a sul a história repete-se. Entre 2009 e 2010, A.P, motorista da Junta de Freguesia de Outeiro de Cabeça, em Torres Vedras, abusou de pelo menos oito meninas, entre os sete e os treze anos de idade - duas delas são suas sobrinhas netas - aproveitando a missão de as conduzir entre a casa, na aldeia de Olho Polido, e a escola que frequentavam. Tocava-lhes quando entravam no autocarro, que mais à frente parava - logo cedo, pela manhã, para consumar o crime. As mais vulneráveis e filhas das famílias mais desfavorecidas da terra - estratégia que usou para tentar ficar impune - eram as escolhidas.

A PJ apurou oito casos mas no início de Abril de 2011 o homem, pai de um ex-futebolista da Selecção Nacional, continuava a viver a poucos metros das vítimas, paredes-meias com as crianças que despia e sujeitava a diversas carícias de cariz sexual, ali perto dos olhos de todos mas sem que alguém desconfiasse. Hoje, na aldeia, todos sabem dos crimes sexuais. E muitos dos vizinhos são pais das crianças que molestou - e que com ele são obrigados a cruzar-se, ali entre o café e o supermercado, ali entre a vida de todos os dias, mesmo sabendo o que aconteceu a caminho da escola da freguesia. Quando o caso foi denunciado ao CM por familiares das vítimas, um deles confirmou que o antigo motorista (foi despedido depois de a Junta ter conhecimento dos abusos) continuava a frequentar a casa das sobrinhas-netas.

"Como vivemos perto um do outro ele ainda vem cá, mas elas nem gostam muito que eu lhes diga para o cumprimentar porque ficam acanhadas", comentou então um dos familiares, confirmando a presença do agressor em sua casa. Aos outros vizinhos, A.P., casado, com dois filhos, deixou de dirigir a palavra. Por vergonha, dizem uns. Por medo, preferem outros. O que ninguém sabe ou quer responder é como é que tudo aconteceu ali tão perto, sem que eles não percebessem.

O INFERNO TÃO PERTO

Alice tem mil dores que desapareceram do corpo mas permanecem nos olhos. É com eles que garante que ele não está por perto - mas ele está -, é com eles que controla a retaguarda. Aquele homem com quem abraçou uma vida comum há 26 anos "e que parecia um homem bom virou um demónio" depois dos filhos nascerem. Virou-lhe a vida do avesso, destruiu-lhe as expectativas de uma vida em paz.

"Deixou de ser a pessoa por quem me tinha apaixonado e com quem acreditava ficar para sempre. Começou a espancar os filhos e eu não conseguia demovê-lo, batia-lhes e eu pouco conseguia fazer". Com as forças a escorregarem-lhe do corpo, a empregada doméstica agora sem trabalho tentou muitas vezes fazer de escudo entre as crianças e o pai mas a tarefa era inglória.

"Ao mesmo tempo ameaçava-me e gritava coisas obscenas, chamava-me nomes que ninguém merece ouvir, ninguém merece ser tratada assim, ver os filhos sofrer assim". A pressão física e psicológica durou anos que pareciam séculos para as três vítimas de Rui (nome fictício) que sempre se debateram com uma questão fulcral: a falta de habitação. "Temos uma casa pedida à Câmara há dez anos mas até agora nada", reclama Alice, do alto do sofrimento. Há três, apoiada por uma psicóloga e uma assistente social, conseguiu subarrendar um quarto dentro da casa de outrem - também na Cova da Moura, onde moravam em família - para onde foi com os dois filhos e onde, há pouco, se juntaram mais dois inquilinos.

"A minha irmã foi agredida pelo marido e saiu de casa com a bebé, de um ano. Estamos os cinco a morar no mesmo quarto", na mesma área onde os dois homens as maltrataram. "O meu ex-companheiro mora aqui muito perto, já o encontrei porque esta zona não é muito grande. Ele não me faz nada mas aquilo que mais queria era morar mais longe disto, morar mais longe de todo o inferno que passei". Porque a cada passo recorda a vida que teve mas não sonhou.

Em Corroios espera-se que o inferno não volte. O inferno chama-se Cláudio e foi morar para um bairro do Seixal com a companheira e a filha desta há poucos meses. Num sábado à tarde convidou oito colegas de escola da enteada e vizinhos para irem ver desenhos animados mas as crianças acabaram a assistir, chocadas, a um filme pornográfico.

Nessa tarde, Cláudio manteve conversas de teor sexual, mostrou um vibrador a uma das menores e explicou como manuseá-lo. As crianças foram salvas por duas colegas que tocaram à porta. Os pais das vítimas quiseram linchá-lo com um taco de basebol e, depois de detido provisoriamente pela PSP, aguarda julgamento em liberdade, com medida de coacção de afastamento do distrito de Setúbal. Não se sabe por quanto tempo. 

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