Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

"O inimigo atacou sempre que quis"

 As altas patentes ficavam nos quartéis, e muitos nem saíam de Bissau ou de Lisboa. Os mancebos, de G3 em punho, seguiam para a ‘fogueira'.
13 de Outubro de 2013 às 15:04
Que preparação tinham estes jovens para a guerra? As nossas primeiras experiências em Mansabá mostraram que era nula
Que preparação tinham estes jovens para a guerra? As nossas primeiras experiências em Mansabá mostraram que era nula FOTO: D.R.

Em outubro de 1969 fui convocado para a GAG-2 (Grupo de Artilharia de Guarnição da Madeira), a fim de iniciar a instrução, longe de pensar, tal como os meus camaradas, que seria enviado para África. Nunca a GAG tinha tido companhias mobilizadas, apesar de a guerra ter começado em 1961. Só em janeiro de 1970 surgiram rumores de que seriam formadas duas companhias - uma para Angola e outra para a Guiné. A companhia de artilharia 2732 rumou a 13 de abril para a Guiné, o Vietname português.

O navio ‘Ana Mafalda' chegou ao porto do Funchal e levou-nos para Bissau, numa viagem de quatro dias. As acomodações a bordo eram exíguas, o ar irrespirável, a modos de ‘gado metido no porão'. A nossa sorte é que o mar esteve calmo por toda a viagem, o que nos permitiu ir, de vez em quando, à parte de cima do navio, apanhar ar fresco.

Horas após chegarmos, fomos transportados para um ‘campo de concentração', dito quartel, com arame farpado à volta. Permanecemos três dias, partindo depois para Mansabá, no Norte, a cerca de 200 quilómetros de Bissau. Chegámos pela tarde e pouco depois já as bombas do inimigo rebentavam junto ao quartel. A nossa ignorância era tanta que mal começaram os rebentamentos, os militares que já lá estavam correram para os postos de defesa, a fim de ripostarem, enquanto nós, ingenuamente, ficámos sentados num pequeno barranco, como se nada estivesse a acontecer. A preparação para a guerra tinha sido fantástica? Nula, zero, tempo perdido. Estupidez.

EMBOSCADA FATAL

O inimigo tinha o seu principal quartel a poucos quilómetros, na mata de Morés, com cerca de mil combatentes que tinham armas ligeiras automáticas, armas pesadas de longo alcance, antiaéreas, minas - um arsenal superior ao nosso. Já tinham mercenários e cubanos ao serviço. Que podíamos fazer!? O inimigo atacou sempre que quis e quando quis, e se não fez mais mortos foi porque não quis ou porque houve mão divina a proteger-nos. Quer nos ataques ao quartel, quer nas emboscadas, sentimos que a superioridade da guerra estava do lado deles.

Víamos que Portugal sairia derrotado. O PAIGC controlava o território. No mato andavam mancebos portugueses comandados por mancebos sem experiência de como combater nesta guerra. Os militares de carreira, as chefias, as altas patentes ficavam nos quartéis, e muitos nem saíam de Bissau ou mesmo de Lisboa. Os mancebos, de G3 em punho, com bazucas e morteiros às costas, seguiam para a ‘fogueira'. Vi bem como morreram o Manuel e o Barbosa, junto a mim, numa emboscada fatal, com outros feridos banhados de sangue e carros militares a arder.

Pelo número de ataques ao quartel, com bombardeamentos de armas pesadas de longo alcance, e pelo número de emboscadas de que fomos vítimas, foi um milagre não terem morrido dezenas de jovens militares obrigados a irem combater para uma guerra que nada lhes dizia.

Não lutávamos em defesa da Pátria e da Nação... é uma mentira histórica. Na guerra cada um pensa em sair vivo do confronto com o inimigo e só ficamos tranquilos quando deixamos de ouvir os disparos. É sinal de que o matámos e de que nós escapámos. É a dura realidade. Na Guiné, sempre tivemos a sensação de que a morte dormia ao nosso lado.

JOÃO GOUVEIA

Comissão

Guiné-Bissau, de 1970 a 1972

Força

Companhia de Artilharia 2732

Atualidade

Aos 65 anos, é reformado. Casado, tem duas filhas e dois netos

 

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)